Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

02
Mar 11

Vila Nova de Gaia - Rio Douro - Porto

 

Nasci no Porto por volta da hora do almoço. Vivi com os meus avós maternos no Bonfim, muito perto do antigo Estádio das Antas e por vezes, à segunda-feira, lá íamos até à Feira de Espinho – era grande e tinha de tudo, desde ourivesaria, até à venda de animais – dando na hora do descanso, um pulinho até à outra casa. Nas férias passávamos lá o Verão.

Isto tudo a propósito do Porto, cidade de altos e baixos, difícil para qualquer ciclista. Veja-se o caso da Igreja do Bonfim, bem lá no alto, com Campanhã lá para baixo e o Rio Douro bem lá para o fundo. A casa tinha umas águas-furtadas onde ficavam os quartos das crianças e da empregada. De lá, de uma janela bem lançada no espaço, via-se um bom recorte da cidade, com o campo ainda a rodeá-la ou mesmo ainda nela presente, com os seus jardins, com o seu lago e uns tantos patos e cisnes dispersos. Nas traseiras da casa existia uma serração, onde entravam grandes camiões carregados de enormes troncos de árvores para aí serem cortados e transformados.

Frequentei a primária do Campo 24 de Agosto e ainda andei pelo Liceu Alexandre Herculano – acabando o liceu, já em Espinho, terra por essa altura ainda simpática, com os seus pescadores ainda na labuta do mar, com a sua industria ainda florescente e arrancando com firmeza na implantação de serviços para usufruto da sua população, ainda que de uma forma um pouco ingénua e sem projecto bem definido. Hoje já tudo isso se perdeu e a queda definitiva do carisma que esta cidade poderia mais tarde alcançar, está bem reflectida no acto criminoso de aos poucos se ter destruído a Feira de Espinho sob pretextos impensáveis e ainda do nojo arquitectónico em que se tornou a passagem do caminho-de-ferro pelo centro da cidade: será que tal coisa atrai turistas? Eles acham que sim, até porque já instalaram as suas tendas e barracas de comes e bebes. Depois, é só ir jogar no casino, bem lá à sua frente! Espinho tornou-se mesmo em mais uma daquelas terrinhas do litoral de Portugal, neste caso caracterizado pelos seus cruzamentos e ruas paralelas ou perpendiculares ao mar, enfiando-se por ele dentro e apanhando por vezes umas ventanias e humidades de arrasar.

Prefiro o Porto, e o Rio Douro correndo nas suas margens, com Gaia do lado de lá e o mar salgado do Atlântico, aguardando a chegada da água deste país, limpo e doce.

 

Foto "Natinal Geographic"

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 15:37
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