Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

25
Abr 11

Largo do Carmo

 

O 25 de Abril foi há 37 anos. Tinha eu dezoito.

 

Nesse ano as memórias eram ainda a dos ideólogos marcelistas, apesar das intentonas anteriores falhadas, do despertar tardio de Spínola e do avanço acelerado da economia mundial, que nos ia deixando cada vez mais, irremediavelmente para trás.

 

O homem já tinha ido à Lua, os conflitos entre blocos imperiais persistiam, a industrialização instalava-se no seu pedestal de responsável pela modernização e mecanização da sociedade, enquanto o mundo cibernético, alienando-nos como um caleidoscópio de cores, lá nos ia rodeando de todas as suas promessas futuras, de total usufruto da vida e de controlo por fases da morte.

 

Estava na casa de Espinho e não me lembro muito bem da passagem de 24 para 25.

 

Desse dia que marca o fim do Estado Novo, da PIDE, da Guerra Colonial e das relações interpessoais mais limitadas e que levavam sem alternativa, ao isolamento dos grupos na sociedade, por falta de comunicação e de progressão, reflectida na não troca de ideias, ficaram bem gravadas as emissões da rádio e da televisão, as movimentações nas ruas e o querer saber tudo o que se estava a passar. Não se deve esquecer o lapso de memória colectiva, que acabávamos de começar a abandonar.

 

E houve festa no 1.º de Maio, festa como nunca houve antes em Portugal.

 

A vida passa num instante e o 25 de Abril é apenas uma data. Mas nunca se deve esquecer o dia em que alguém apareceu prometendo-nos algo de novo e de bom, depois de cinquenta anos de sofrimento para milhares de pessoas, muitas nossas amigas ou até mesmo vizinhas, todos portugueses pois então, que vislumbraram num raio de Sol de um dos anos da sua vida, a felicidade de ser alguém por momentos e compartilhar com todos, o objectivo de todo o ser vivo deste planeta – viver feliz com a natureza, preservando-a com todo o nosso amor, para as nossas futuras gerações. Só assim seremos parte do todo, através da vida infinita de quem nos antecedeu e que através de nós, nos manteve vivo e consciente do nosso eu – tantas vezes esquecido, tantas vezes destruído.

 

E é vê-los ainda hoje, esses políticos profissionais de bolso, decrépitos descendentes dos seus antepassados e cujo único desafio de vida foi o de viverem bem, coleccionarem gordura protectora não necessária e darem-nos lições de ética e moral, verdadeiros Cerejeiras do tempo moderno, que perpetuam a destruição cultural de um país, em nome da pátria deles, pátria essa que nada nos dá e tudo nos tira, em nome deles, os prometidos!

 

Não deviam estar ainda a falar. Deviam isso sim, estar presos e em campos de reeducação ou então, lançados no espaço, em direcção ao buraco negro que adoram e criaram para nós!

 

Esse tipo que nos prometeu o mundo desapareceu. Talvez tenha sido saneado, para não ser mais incomodado. Vendo-me agora lá ao fundo, há 37 anos atrás, concluo que ainda era novo, acreditava no Pai Natal e não tinha ido para a tropa.

 

Precisamos de outro golpe, mas que primeiro, façamos rolar cabeças – essas não falam, só podem ser exibidas e aquele que não se mexe, é porque só pode estar morto.

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 13:46

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