Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

18
Out 13

Ficheiros Secretos – Albufeira

Encontros c/ Efeitos Especiais

 

Primeiro Encontro

Amantes do Universo 2/2


Equipamento de introdução

(modelo Tóquio)

 

Terceira Sessão Intermédia

 

Entrou no apartamento, fechou a porta e foi-se sentar no sofá que se encontrava a meio da varanda. Lá em baixo viam-se algumas pessoas à volta da piscina e mais um pequeno grupo sentado na zona do bar. Um pouco à esquerda o jardineiro ia apanhando alguns objectos deixados sobre a relva, enquanto com uns gestos mais bruscos dos seus membros, ia tentando afugentar um par de gaivotas que sem pararem um segundo perseguiam um saco de plástico meio desfeito e que não parava de espalhar lixo no seu percurso forçado. À direita mas já mais para o extremo do terreno, uma pequena clarabóia destacava-se do subsolo, talvez construída sobre a sala das máquinas que alimentava a piscina. Quanto às varandas e até onde a sua vista se apercebia estavam desertas, com uma ou outra toalha exposta a secar, mas sem qualquer tipo de movimento que se notasse, nem mesmo à janela. Estava um dia de Verão e a força do calor já se fazia sentir na sua pele, até debaixo da camisola. Teve que se levantar da cadeira porque o Sol já começava a queimar, decidindo a pedido do seu corpo ir repousar um pouco na cama que convidativamente o chamava e então bem instalado nela pensar mais calmamente neste episódio nocturno. Ao virar-se para afastar um pouco a manta da cama, viu o sobrescrito caído atrás da porta de entrada: era-lhe dirigido e quem o assinava era Tina V.B. Um pouco nervoso abriu-o lentamente e com todo o cuidado, retirando delicadamente do seu interior um pequeno papel muito suave e dum vermelho bastante carregado, onde um curto texto aparecia escrito com uma caligrafia que parecia saltar do papel, como se quisesse desde logo chamar para si a nossa atenção; talvez essa impressão fosse provocada pela profundidade da própria tinta ou então outra característica qualquer que Philips desconhecia. O bilhete dizia:

 - Talvez não te lembres mas a noite foi fantástica. A Introdução foi perfeita: nem sentiste e até ficaste mais excitado e o efeito do produto foi quase que imediato. Nessa altura vi logo que finalmente tinha acertado na escolha e a compatibilidade total assim o confirmou: finalmente sinto-me Impregnada! Quanto à noite propriamente dita jamais a esquecerei, tanto pelo resultado final – um completo sucesso – como por todo o prazer que obtive a partir do teu corpo, parecendo uma aventura sem princípio nem fim e levando-me ao extremo incontrolável de não me conter no meu invólucro artificial e me expor livremente contra todas as regras básicas de segurança. Nunca tinha gemido tanto! Nem exibido o meu corpo integral a um estrangeiro. Só de pensar na noite anterior de êxtase e de sexo e na violência partilhada e consentida durante o acto, fico logo excitada e com uma vontade imensa de me masturbar. E então quando te associo ao meu REP – e a ti tudo devo – não aguento mais, prevendo no teu reflexo um verdadeiro Amante do Universo.

- Hoje às três sinalizo a partir da zona da piscina para a varanda do teu apartamento. Na gaveta da tua mesinha deixei o equipamento de introdução com outras doses suplementares. Não te esqueças da noite anterior.

Já nada surpreendia o turista inglês. Deixou-se cair e adormeceu.


O foguetão de Tina Von Braun

 

Segunda Decisão

 

Já era quase meia-noite quando acordou. Sem comer desde a noite anterior, encomendou uma pizza pelo telefone, aproveitando o tempo de espera para ver o conteúdo da gaveta da mesinha de cabeceira: no seu interior encontrava-se um estojo com um equipamento em forma de tubo ou então de seringa que pelas instruções deveria introduzir algo no corpo. Pela forma e dimensão duma das suas extremidades teria que ser um buraco um pouco largo, o que por associação de ideias e apesar de tudo pelo que estava a passar, ainda o fez sorrir um pouco: só se fosse mesmo o ânus e nisso os humanos tinham a patente, com a utilização dos supositórios desde há dezenas e dezenas de anos. Largou o estojo quando lhe bateram à porta. Foi tomar um duche rápido, comeu sem grandes pressas e já mais tranquilo e recomposto, encheu um grande copo com whisky juntando-lhe duas pedras de gelo. Ligou a televisão e deixou-se ali ficar hipnotizado e de copo na mão: as notícias insistiam no shutdown norte-americano e de como nalguns estados se falava já da instalação da lei marcial, para tentar conter o número crescente de revoltosos. “Se uns gozavam outros eram gozados”, pensou sem saber porquê o turista ocasional. Desde que acordara que o tempo custava a passar e a contínua não actividade estava-o a deixar desesperado. Como ainda faltava uma hora para as três resolveu ir dar um salto até ao bar da discoteca, para ver se espairecia um pouco mais e até para dar uma espreitadela pelos vidros que davam para o lado da piscina. Não encontrou ninguém pelo caminho, entrando na discoteca e dirigindo-se ao balcão. Pediu um duplo e foi-se sentar junto aos vidros das janelas. Enquanto no exterior o recinto se encontrava apenas mediamente iluminado por dois projectores, suficientes no entanto para se verificar que por ali não andava ninguém a passear, já no interior o centro da pista encontrava-se praticamente vazio com as poucas pessoas que ali se encontravam sentadas ao balcão ou então em duas ou três mesas afastadas umas das outras. Conversava-se mais do que se dançava. Deixou-se ficar por ali o tempo suficiente para fumar quase metade dum maço de tabaco e enfiar uns quantos duplos e triplos, acabando por decidir levantar-se antes que a moleza invadisse o seu corpo e o derrubasse de vez, até porque já faltavam quinze minutos para as três e por nada deste mundo queria perder o próximo encontro com a bela Tina. Nem parecia ser ele a pensar: passara a noite anterior com uma desconhecida que pensara (e ainda pensava) não ser deste mundo e ainda esperava ansiosamente pelo reencontro – devia estar a ficar completamente louco e a culpa era daquela mulher que o apanhara e lhe tirara do corpo a sua alma descontrolando-o. Às três colocou-se em posição na varanda e ficou a aguardar pelo sinal de Tina. Reparou então numa luz pouco intensa que parecia vir do lado do terreno onde se situava a clarabóia e que pela movimentação parecia vir duma lanterna. De resto lá em baixo junto há piscina continuava a não se ver ninguém. A luz voltou de novo cinco minutos depois fixando-se definitivamente perto do centro da estrutura de vidro, que repentinamente pareceu começar a abrir-se, com a clarabóia a dividir-se em duas partes que se foram deslocando lateralmente, até pararem quando se encontravam já o suficientemente afastadas uma da outra. E de novo tudo caiu no silêncio. Agora que Philips já tinha decidido inabalavelmente voltar a encontrar-se com a moldava Tina e que ansiava cada vez mais desesperadamente com o momento do reencontro – e por todo o prazer que o esperava e que certamente iria demolir os limites dos seus parâmetros – esta espera tornava-se cada vez mais insuportável: fez mais um triplo e voltou à varanda. Repentinamente um enorme clarão rodeou o seu corpo, ouvindo-se um silvo agudo e persistente logo seguido do som duma grande explosão: sentiu que alguma coisa o tinha atingido perdendo de imediato os sentidos. Lá em baixo o disparo foi instantâneo, lançando o foguetão tripulado por Tina Van Braun a toda a velocidade através dos céus e fazendo-o desaparecer em segundos para lá do horizonte. Sentada a seu lado ia a magnifica réplica acabada de obter nesse paraíso pessoal que era o planeta Terra e que já há tantos ciclos Tina desejara replicar dum original que fosse compatível, mas que por diversos motivos nunca conseguira atingir: agora com este REP melhor do que o original e dispondo dum upgrade que o transformava num modelo quase que perfeito, ela dispunha finalmente duma autêntica máquina de sexo a pedido, esbelta, musculada e sempre pronta a entrar em acção.


Quando adormecemos sonhamos até despertar

(mesmo que estejamos num pesadelo sem fim e sem mais tempo para nós)

 

Segundo Despertar

 

A primeira estação a noticiar o acidente ocorrido numa unidade hoteleira de Albufeira, foi uma rádio local. A rádio referia-se logo na sua primeira peça jornalística a uma explosão de origem indeterminada que teria ocorrido de madrugada num aparthotel do centro da cidade e que teria provocado a destruição parcial dum apartamento situado no último piso do empreendimento: apesar do pequeno e localizado incêndio que se lhe tinha seguido, os bombeiros tinham conseguido dominar na íntegra a situação gerada, sem que os apartamentos e corredores adjacentes fossem sequer minimamente afectados. Por outro lado não se tinha conhecimento no momento de qualquer tipo de vítimas associadas à explosão, apenas se sabendo que esse apartamento estaria ocupado em nome dum cidadão estrangeiro registado na Grã-Bretanha – cujo nome seria Charles Philips Blair – do qual não se sabia o paradeiro, mas que as autoridades estavam a tentar contactar. Durante o dia mais estações de rádio e de televisão foram chegando ao local, reforçadas durante o período da tarde por algumas equipas de informação inglesas que acompanhavam novos desenvolvimentos do caso Maddie e que tinham vindo atrás da recente notícia envolvendo um turista e cidadão inglês, que poderia ter ligações familiares com um antigo Primeiro-Ministro do seu país. Mas o clímax de toda esta situação foi atingido com a chegada de peritos da polícia judiciária às instalações do aparthotel, os quais se encontravam acompanhados por especialistas estrangeiros em casos semelhantes ocorridos noutros países e que aí se encontravam por solicitação expressa dos seus países ao governo português: o caso intrigara desde o início os próprios bombeiros, que ao entrarem no apartamento após o fogo ter sido debelado, nada encontraram que se aproveitasse, como se tudo tivesse sido consumido instantaneamente por um fogo com temperaturas elevadíssimas e que tudo reduzira a cinzas, mas não afectando minimamente toda a estrutura exterior em seu redor. Como tinha sido isso possível, os bombeiros não entendiam; e mesmo que alguém lá tivesse sido apanhado aquando da explosão e do incêndio que se lhe seguiu, dadas as elevadíssimas temperaturas atingidas no local, nem os seus ossos restariam (como prova). E como sempre nestas ocasiões, notícias de última hora, rumores e boatos, foi aquilo que nunca faltou: desde a teoria dum possível atentado levado a cabo por uma mulher suicida com origens na Europa de leste e recrutada no Afeganistão pela Al-Qaeda, contra um cidadão inglês muito bem relacionado com proeminentes e influentes políticos da Grã-Bretanha – como resposta ao apoio declarado deste país à política intervencionista e imperialista norte-americana – até a incríveis explicações de pessoas locais ou relacionadas com funcionários trabalhando na altura nesse aparthotel, que falavam em coisas estranhas que se tinham passado na noite em que se dera o acidente, desde a estranhíssima e inexplicável explosão controlada registada no apartamento, à destruição inexplicável que se registara numa cave desactivada junto à casa das máquinas e que se encontrava anteriormente coberta por uma clarabóia, agora completamente destruída. Nunca esquecendo o acidente que o operador de imagens ligado à segurança sofrera pela mesma altura da explosão, com um curto-circuito inesperado a destruir todos os registos de vídeo dessa mesma noite. Para já não falar dos outros malucos que se foram juntando em redor, que aproveitavam todas as ocasiões como esta para afirmar terem visto um objecto voador não identificado que repentinamente aparecera e da mesma forma desaparecera, atribuindo o acontecimento à intervenção de extra-terrestres e a questões ainda não resolvidas – e envolvendo terrestres e alienígenas – que se arrastavam desde a II Guerra Mundial. Esta teoria inspirava-se numa tese dum grupo de Conspiracionistas, que afirmavam estarmos a assistir neste preciso momento a mais um ajuste de contas entre grupos ligados a antigos e ainda poderosos interesses alemães e os interesses representados pelos ingleses, testas de ferro na Europa das poderosas Corporações Mundiais sediadas nos EUA.


Se nada se cria e nada se perde, porque não nos transformamos?

 

Perdidos e Achados

 

A Terra já era um ponto perdido e invisível no monitor da nave. Já muito próximos da fronteira do Sistema Solar – estariam neste momento e muito provavelmente a ultrapassar a zona do espaço onde se encontraria a sonda Pioneer 1 – Tina V.B. e o seu REP começavam já a preparar a acoplagem final à nave-mãe, a qual os transportaria por sua vez para o seu planeta de origem ainda no interior da Via Láctea e que em memória dos seus antepassados colonizadores tinham chamadoTerra-2.

Tina aproveitou ainda um último momento no pequeno foguetão que os trouxera desde a Terra até ali e brindando ao planeta que lhe dera um novo companheiro Azulado (a cor escolhida, como sendo a cor predominante do planeta Terra) lançou-se em mais uma orgia sexual de sensações e percepções absolutas, enquanto ouvia mais um tema de Ian Dury e do seu antigo mas sempre actual single “Sexo, Drogas e Rock & Roll”. Mais tarde já na nave-mãe seriam introduzidos no Saltador, retornando finalmente a casa e ao seu Universo Paralelo construído fielmente à imagem, mas tal como a vida com muitas variações e oscilações.


Será a moral um pré-requisito civilizacional? Ou apenas frustração e inveja?

(perguntem aos alienígenas)

 

Moral Alienígena

 

Tina Von Braun descendia duma família da Europa Central que tinha emigrado para leste durante o período da II Guerra Mundial: abandonada à sua sorte pela parte mais influente da família, nessa altura ao serviço da poderosa máquina de guerra alemã comandada por Adolf Hitler, os seus avós não tinham tido outra solução senão abandonar a sua terra, refugiando-se a parte mais numerosa da família no norte da Europa e com os outros a seguirem para o norte de África onde acabariam por se fixar. Todos eles fugiam da sua terra natal acusados de diversos crimes contra o Estado Invasor Alemão – incluindo o próprio povo alemão – lutando contra mentiras intencionais e fabricadas que iam desde a acusação de serem perigosos comunistas e/ou judeus infiltrados na base da estrutura do Estado e do Governo alemão para a destruir (e de estarem assim como traidores que seriam, ao serviço dos seus grandes adversários e inimigos, contra quem o povo alemão lutava e se sacrificava heroicamente), até serem vítimas duma perseguição menos notória mas extremamente violenta e sem limites, a outros grupos organizados e rebeldes de intelectuais e cientistas na sua esmagadora maioria alemães e que apenas contestavam a estratégia de conquista da Alemanha, baseada na sua Máquina de Guerra. Mas não era só isso: muita dessa elite rebelde tinha conhecimento privilegiado de contactos existentes entre o regime Nazi no poder e certas Entidades que não teriam origem no nosso planeta, facto esse que já teria chegado aos ouvidos dos EUA e dos seus aliados, despertando o interesse imediato dos norte-americanos e a preocupação dos europeus. Como se sabe tudo seria silenciado com o fim da guerra e com o convite endereçado e aceite por muitos dos antigos colaboradores – activos ou passivos – do regime. No seu caso a história tinha sofrido uma grande reviravolta: numa altura de grande desespero social e económico e que sucedeu ao fim da II Guerra Mundial, com muito do continente europeu destruído e tentando lentamente e com muita dor levantar-se das ruínas e do cheiro de morte, o seu avó tinha conseguido entregar durante a sua fuga a sua filha mais nova (e recentemente nascida) a um familiar de confiança ligado ao regime nazi e ao programa de foguetões alemão, onde prontificava outro familiar muito bem visto pela hierarquia nazi então no poder. Mas tudo tinha acabado por cair por terra e com o rebentar das bombas no Japão a evolução da situação tinha sido tão rápida que não teve explicação: antes do assalto final realizado pela URSS ao Centro de Pesquisas do Exército e ao Centro de Treinos da Luftwaffe ambos localizados na base de Peenemünde – e que os soviéticos ocupariam durante anos como base naval – alguns elementos teriam sido evacuados secretamente do interior das suas instalações e transportados para parte incerta, utilizando para o efeito engenhos voadores que seriam de origem extraterrestre e com quem os cientistas e militares cooperariam há décadas. Nela iria a sua mãe.

 

Tina seria já o resultado duma união compatível e já anteriormente ocorrida entre outros seres de espécies diferentes, neste caso envolvendo a sua mãe de origem terrestre e um outro ser de origem extraterrestre, que teria tido também origem mas já há muitos milhões de anos num planeta que não a Terra pertencente ao Sistema Solar, que poderia segundo muitas indicações ter sido Marte, antes de se ter dado a Grande e Final Extinção. Nascida fora do seu planeta de origem e resultando de uma mistura entre Antigos Solares e Novos Solares, Tina revelara durante o seu crescimento duas características fundamentais que lhe tinham moldado a vida: uma intolerância feroz contra todos aqueles que se julgavam os profetas dos Deuses, imaginados duma forma prepotente e provocatória pelos próprios (apesar da inexistência dos primeiros) e que constantemente iam esmagando o mundo com as suas mentiras e hipocrisias criminosas – o que a levara a eliminar do seu dicionário palavras absurdas como regras, moral, leis, responsabilidade e mesmo amigo, neste particular substituindo-a por conhecido; e uma vontade imparável para usufruir de tudo o que o mundo lhe oferecia e que com ela queria partilhar, que neste período da sua juventude e de desenvolvimento do seu corpo, se exprimia violentamente e sem remorsos de lealdade ou de subserviência, no seu constante assédio sexual a novos e melhores parceiros sempre no caminho da sua perfeição pessoal concretizadora. No fundo a sua continuação e persistência no contexto deste mundo dependia da sua actuação e do seu enraizamento no todo que era o Universo, não se podendo permitir que o seu trajecto pode-se ser alterado por limites absurdos que não tinham nenhuma correspondência na matéria e na energia que a rodeava e às quais o movimento dava vida.

 

A Moral da História? É que a moral não é reflectida pelo espelho pois tal como um vampiro não existe num mundo que os vai quebrando, transformando-se isso sim num impedimento definitivo e pretensamente formador e religioso, através da contínua e persistente construção de máscaras e de mensagens subliminares; que por sua vez irão alterar a memória e a cultura ancestral a ela associada, refazendo a História e provocando o fatal esquecimento e a nossa imparável degenerescência mental. Desde que haja fome mais vale comer do que ser comido, desde que não haja mãe mais vale fazer do que ser feito!

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 16:23

Ficheiros Secretos – Albufeira

Encontros c/ Efeitos Especiais

 

Primeiro Encontro

Amantes do Universo 1/2


Existem muitas formas de despertar

 

Primeiro Despertar

 

Na suite do último andar dum aparthotel situado nas proximidades do novo centro da cidade de Albufeira, um turista ocasional inglês aleatoriamente denominado como Philips, começava lentamente a acordar duma noite intensa de consumo incontrolado de álcool e de drogas. Deitado de lado e virado para a varanda, o turista ainda conseguiu vislumbrar alguns raios de luz que atravessavam o espaço deixado livre entre a junção das duas cortinas, o que mesmo ainda não completamente desperto e mal abrindo os olhos, só poderia significar que já era de dia. Arrastando-se um pouco em cima da cama, até ficar junto da mesinha de cabeceira – puxando um pouco o lençol, que parecia encontrar-se preso – virou o relógio prontamente para si, reparando um pouco surpreso que já era quase meio-dia. O corpo doía-lhe um pouco devido ao esforço do dia anterior, enquanto que a cabeça parecia querer rebentar, tal era a ressaca de tudo o que metera para dentro. Ainda mergulhado na penumbra do quarto levantou-se da cama e dirigiu-se para a casa de banho, deixando cair pelo caminho atrás de si o pijama e colocando-se no interior da cabine onde se encontrava o duche com hidromassagem: a água quente fê-lo recuperar um pouco, acabando por se deixar ficar por ali durante uns largos minutos – até ao momento em que o duche se transformara numa verdadeira sauna. Ao espelho as grandes olheiras que apresentava até o assustaram, fazendo com que acelera-se os seus procedimentos higiénicos e saísse da casa de banho: tinha que se apressar muito mais, pois lembrara-se que no início da noite anterior – enquanto ainda estava lúcido – combinara um encontro prometedor com uma jovem chamada Tina, uma bela equilibrista moldava pertencente a um circo internacional, nessa altura em actuação num parque da cidade. O encontro estava marcado para o meio-dia no bar do aparthotel.


Os Encontros Imediatos podem ser violentos

 

Encontro Imediato

 

Já no quarto Philips correu as cortinas que encobriam a porta da varanda, tendo logo que fechar os olhos: a luz era de tal maneira intensa que o choque repentino o deixou meio atordoado e a cambalear, levando-o a apoiar-se com o seu corpo na parede lateral, ao mesmo tempo que repunha um dos lados dessas mesmas cortinas. Teve então que se virar de costas para a luz e mais adaptado à nova luminosidade que invadia o quarto, deslocou-se imediatamente em direcção à cama. Ainda meio desequilibrado e confuso pelo choque de luz há pouco sofrido, sentou-se na beira da cama e apoiando-se no braço esquerdo deixou-se cair sobre o travesseiro da mesma: mas algo de imprevisto que se encontrava debaixo do lençol fizera deslocar a base de apoio do seu cotovelo, fazendo-o cair e rodar lateralmente sobre a cama, num movimento só interrompido pelo choque imediato com um alto que se salientava em extensão ao longo do comprimento do colchão. Surpreso e curioso com a situação que vivia, o turista inglês de férias no Algarve – sem nenhuma pretensão suplementar senão aproveitar todo o seu tempo de ócio, sem regras nem limites – sentou-se de imediato, acendeu o candeeiro, esfregou os olhos para ver mais claramente e sem hesitar ou perder mais tempo levantou o lençol e espreitou para o que estava debaixo: ao seu lado encontrava-se um corpo feminino completamente nu, respirando suavemente enquanto dormia, muito belo e de formas perfeitas, mas decididamente de Outro Mundo. Num salto afastou-se da cama, esfregou os olhos mais uma vez correndo a outra metade do cortinado, deixando-se então ficar especado e por breves momentos, a olhar para aquele corpo estranho com quem partilhara o seu leito. Um arrepio enorme percorreu toda a sua espinha.


As primeiras decisões podem ter carácter irrevogável

 

Primeira Decisão

 

Philips ia olhando atentamente pelo canto do olho o corpo que se estendia sobre a sua cama, enquanto se vestia com uma t-shirt e uns calções, calçando de seguida as suas sapatilhas, enquanto ia procurando as suas chaves e a carteira. Encontradas as chaves do apartamento moveu-se o mais silenciosamente possível em direcção à porta, abriu-a com imenso cuidado para não fazer nenhum barulho e dando um último relance para o interior para verificar se o corpo continuava adormecido e parado, fechou a porta e dirigiu-se para o elevador. Saindo no rés-do-chão do aparthotel dirigiu-se inicialmente para a zona do bar para verificar se a sua amiga colorida já tinha chegado e se já estaria à sua espera: afinal de contas já estava atrasado mais de meia hora e nunca gostara de se fazer esperar. Não a encontrou no local combinado nem na zona exterior onde se encontrava o bar anexo à piscina, pelo que se dirigiu ao funcionário que lá se encontrava e o questionou sobre se alguém tinha perguntado por ele. A sua resposta foi negativa mesmo descrevendo detalhadamente o atraente corpo da bela artista circense e indicando a sua nacionalidade moldava. Conformado com as consequências do seu atraso e com o respectivo falhanço do encontro com a esbelta equilibrista, o turista inglês dirigiu-se de seguida para o balcão da recepção, fortemente decidido a expor aos responsáveis desta unidade hoteleira de cinco estrelas o que de estranho e bizarro estava a ocorrer no seu apartamento. Alguns minutos passados chegou um dos directores que muito educadamente o cumprimentou e se prontificou diligentemente a procurar desde logo uma solução para o problema do seu hóspede. De início o turista inglês nem sabia como começar a conversa, pois a sua história era tão estranha e improvável que ainda poderiam pensar que era maluco ou que estaria ainda sob os efeitos embriagantes da noite anterior; por esse motivo decidiu apenas contar ao responsável presente que ao acordar descobrira ao seu lado uma mulher deitada na sua cama, mulher essa que nunca antes vira viva ou morta e que para além mais não fora ele que introduzira no quarto. O director do aparthotel apanhado de surpresa com a reclamação feita oral e presencialmente pelo reclamante – até por ser contrária à maioria das opções escolhidas por certos clientes solitários e que tinham vivido situações semelhantes (optando em seu benefício, pelo aproveitamento do momento) – ainda hesitou no que fazer, mas para evitar mais demoras e outras possíveis confusões que daí poderiam advir, lá decidiu acompanhar o seu hóspede até ao quarto respectivo e ver pessoalmente o que na realidade se passava.


Os primeiros a chegar, chegam a lado nenhum

 

Primeira Sessão Intermédia

 

Chegaram à porta do apartamento quando algumas auxiliares de limpeza ainda se deslocavam para o refeitório aproveitando a sua hora de almoço. Questionadas pelo seu director, todas garantiram não terem encontrado ninguém nos apartamentos já disponíveis para limpeza e arrumação, nem mesmo se terem cruzado com alguém – homem, mulher ou mesmo criança – nos corredores deste ou doutros andares do edifício. Pedindo silêncio o turista inglês introduziu a chave na fechadura da sua porta, acabando por correr completamente o ferrolho e por a abrir muito lentamente e com o mínimo ruído possível: completamente iluminado pelos raios de Sol que se introduziam pela varanda, o quarto encontrava-se deserto sem que se notasse a presença de nenhuma mulher ou dalguma coisa que provasse que alguém para lá do hóspede tivesse por lá ter passado. A própria cama encontrava-se vazia, com metade da mesma mais preservada e arrumada que a outra, como se só uma pessoa lá se tivesse deitado e repousado. Philips é que não aceitou de ânimo leve o cenário exposto diante de si, reforçando diante do director hoteleira tudo aquilo dissera anteriormente e que se a mulher já ali não se encontrava é porque esta tinha saído sem que ninguém o notasse entre o momento que descera no elevador e o momento em que voltara a sair do mesmo. Um pouco aborrecido e admirado com a insistência do turista inglês, o director ali presente não viu outra solução senão convidá-lo a visionar as câmaras de vigilância existentes e espalhadas por toda a área associada ao empreendimento, como forma de esclarecer satisfatoriamente os factos ocorridos e satisfazer o cliente. Até porque tudo isto era tudo muito estranho: como poderia alguém ter saído e entrada sem chave e sem se fazer notar no apartamento, se ele continuava fechado à sua chegada, o mesmo acontecendo com todas as janelas e portas no seu interior – só se o homem ou mulher atravessassem paredes ou fossem capazes de voar. Utilizando agora o elevador de serviço deslocaram-se para o gabinete de segurança do empreendimento (situado na cave), aí solicitando ao operador de gravação imagens da noite anterior referentes aquela zona do edifício. O visionamento incidiu na zona que ia desde o hall principal de entrada até à porta do seu apartamento, incluindo nessa análise todas as câmaras disponíveis existentes na totalidade desse percurso. Rapidamente encontraram a parte da gravação em que Philips chegava de táxi à porta do empreendimento, saindo dele acompanhado.


O imaginário faz parte da realidade – e o contrário também é verdade

 

Segunda Sessão Intermédia

 

A definição das câmaras exteriores de vigilância não era das melhores, pelo que era difícil obter uma identificação segura das pessoas que chegavam ao exterior do edifício. No entanto no interior e dada a melhoria da iluminação disponível, já era mais clara a definição anatómica da pessoa e mesmo a sua identificação através do seu rosto. Foi assim que ao ver as primeiras imagens obtidas no hall, Philips pode verificar para sua grande admiração que regressara acompanhado ao aparthotel e que ao seu lado vinha a bela moldava Tina, a mesma mulher que conhecera nessa noite: as imagens confirmavam a perfeição do seu corpo esbelto e brilhante e os seus movimentos certos e cadenciados só demonstravam estarem plenamente sintonizados com a sua performance muscular, o que lhe dava um ar de Diva e uma aparência extremamente sensual e provocantemente apelativa. Talvez tivesse sido esse facto que suscitara durante o visionamento desta parte das gravações uma rápida troca de impressões entre o director e o operador, que sorrindo entre eles ainda olharam de soslaio para o turista inglês, como se ele estivesse implicado num caso que tanto podia ser bom como mau, mas em que ele certamente interviera estando agora em acto inconsciente de negação. Mas a gravação continuava, com as duas personagens dirigindo-se aparentemente sóbrios e conscientes em direcção ao bar, que dada a hora adiantada já se encontrava há muito encerrado: segundo as indicações registadas na gravação, Já passava das três horas da madrugada. Fechado o acesso ao bar restava-lhes a discoteca do empreendimento, para onde se dirigiram de imediato, instalando-se confortavelmente à volta duma mesa numa zona de sombra ao lado da pista de dança, que lhes permitia permanecer sozinhos e com liberdade total de movimentos e interacções, sem que ninguém se intrometesse ou os perturbasse. Sendo essa a razão porque a gravação saltava do bar da discoteca para o momento em que já se dirigiam para o quarto: já inebriados pelos vapores do álcool introduzidos no corpo de Philips e da sua companheira Tina, as imagens mostravam agora dois personagens de aspecto bizarro e denotando um estado de toxicidade elevada, caminhando aos esses e com um deles apoiado sobre o ombro do outro – e sustentados para não caírem pela parede lateral – até chegarem a uma porta do corredor marcada com o número 115, que muito dificilmente abriram e pela qual se introduziram, não sem que antes tivessem entretido mais uma vez o director e o operador, que mais uma vez dialogaram e sorriram entre si, dirigindo posteriormente os olhares para ele. Antes de entrarem já se notava a sua forte erecção e a excitação induzida pelo corpo da mulher era tal, que mesmo antes de transporem a porta, já estavam meios nus e prontos a possuírem-se. Esta primeira sequência de imagens terminava quando a porta se fechava. Outra sequência de imagens vinha no entanto a caminho e aí o turista ocasional só teve mesmo que as engolir e envergonhar-se até não poder mais: ao mesmo tempo que câmaras exteriores apontadas para as varandas do aparthotel registavam uma cena de sexo extremo e profundo praticado por duas pessoas completamente nuas e perigosamente debruçadas sobre as grades protectoras da mesma – a mulher estava estendida sobre as grades com a cabeça suspensa sobre o abismo, enquanto o homem a penetrava pela frente com movimentos violentos e penetrantes – o director ia-lhe confidenciando que as imagens teriam origem no seu apartamento, como registo cronológico e fiel do dia anterior e certamente contando com a presença do cliente hospedado nesse mesmo apartamento – ou seja ele. Além do mais – e chamando a sorrir duma forma compreensiva e de aceitação o turista inglês, para o isolamento e confidencialidade do seu gabinete particular – existia o caso das queixas apresentadas nessa mesma noite pelos seus vizinhos de andar, denunciando o excessivo ruído vindo do seu apartamento nessa mesma noite por volta das cinco horas da manhã e que os deixara extremamente chateados e preocupados, não só por não conseguirem dormir com o barulho excessivo que chegava até eles como também pelos estranhos e persistentes gemidos que dali vinham, de tal maneira fortes que por vezes até pareciam que vinham do exterior. Só passada mais de meia hora é que tudo voltara ao silêncio inicial. Pediu desculpa e envergonhado deu uma curta e esfarrapada explicação: deu as boas noites e cabisbaixo dirigiu-se para o seu apartamento. Algo de estranho se estava a passar com o turista inglês e a origem só podia estar na mulher: o que ele na realidade vira fora um corpo feminino mas nunca humano e o que a gravação lhe mostrara fora uma mulher bem humana e extremamente atractiva.

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 00:19

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