Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

01
Jun 15

“Como se estivesse a olhar para a lareira – vendo o carvão e outras coisas a arder.”

 

Esta imagem do Sol deriva de uma fotografia tirada pelo astrónomo amador francês Christian Viladrich no passado dia 29 de Maio. Num registo fotográfico de maior aproximação à nossa estrela, a primeira impressão que esta imagem nos deixa na nossa memória, é a de que poderemos estar a olhar para um conjunto de pequenas pedras como que encaixadas umas nas outras e como se fossem as peças constituintes de um determinado puzzle.

 

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Superfície do Sol

 

Na verdade o que acontece é que a superfície do Sol atinge temperaturas de tal modo elevadas, que a mesma se comporta perante os nossos olhos como se estivesse a ferver: tal como se tivéssemos colocado água a aquecer numa panela e verificarmos no momento da mesma entrar em ebulição ao aparecimento à sua superfície de muitas bolhas gasosas. No caso da água tratando-se de bolhas pequeninas, no caso do Sol de pedras imensas.

 

(dados e imagem – spaceweather.com)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 22:55
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Novos Ficheiros Secretos – Albufeira XXI
(tomo A/31.5)

 

Dia 6
6.ª Etapa da Viagem
(Um Salto até Lagos a Caminho de Sagres)

 

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No final os dois corpos uniram-se, fundiram-se num único ponto e transformaram-se em algo de novo explodindo como uma partícula. Dando origem à vida e continuando a anterior. E debaixo desta catadupa pesada e ininterrupta de informação não aguentamos e caímos logo ali desamparados e inconscientes. Mas continuando a sonhar até nos perdermos neste Mundo.

 

Acordamos já era de dia: quando os primeiros raios de Sol já aqueciam o nosso corpo e a vida em torno de nós já tinha iniciado mais um dia de trabalho e de partilha. Ainda pensáramos por segundos se não teria sido um sonho, algum efeito do medronho ou de outro tóxico qualquer, mas tudo era real e estava connosco (no interior) ou diante de nós (no exterior). A noite anterior fora demais e os nossos corpos continuavam a dar sinais evidentes disso: que nos lembrássemos caíramos a dormir já depois das cinco da madrugada e as outras cinco horas de sono que tivéramos não se tinham revelado suficientes. Mas se queríamos cumprir o plano que nos tinha sido proposto na noite passada, o mais cedo que fosse possível deveríamos dirigir-nos a Lagos e ao farol da Ponta da Piedade. Aí estaria alguém à nossa espera. O único problema é que estávamos em pleno fim-de-semana (era sábado), o movimento na cidade seria intensa e nós teríamos que atravessar aquilo tudo e toda aquela gente (curiosa e muito faladora).

 

Custou-nos bastante fazer o trajecto a pé até Lagos, com o dia de calor que já se fazia sentir e com o cansaço e o suor completamente agarrados aos nossos corpos (sentíamos os próprios poros como que se estivessem entupidos): atravessamos campos e cerros até chegarmos à entrada da cidade, ultrapassamos a respectiva ponte de acesso e por volta das 16:00 da tarde estávamos no início da avenida que ia dar ao nosso farol. Fizemos toda a avenida com as nossas mochilas às costas, parecendo um grupo de maltrapilhos meio amalucados, seguindo em fila para não perderem o tino. Passámos rapidamente diante do antigo Mercado de Escravos e ainda com as pessoas a apontarem para nós seguimos directamente e em passo ainda mais acelerado até ao Forte da Ponta da Bandeira. Num canto mais protegido da muralha procuramos então um local para repousar por uns momentos, acondicionamo-nos o melhor que nos foi possível e enquanto apagávamos a sede fechamos os olhos por uns breves instantes: sentíamo-nos sujos, com a sujidade colada ao nosso corpo (com a ajuda das vagas sucessivas de suor) e com as nossas roupas a começarem a cheirar (mal) e a incomodarem os nossos órgãos do olfacto. Ficamos por ali até por volta das sete da tarde só abandonando o local com a chegada das autoridades. Perguntaram-nos o que estávamos ali a fazer (um local em princípio autorizado ou talvez não) e como não déssemos uma resposta válida (para eles totalmente satisfatória) pediram-nos para que logo que fosse possível abandonássemos o local, sob o pretexto de que o espaço já fechara e seria sujeito de seguida às normais operações diárias de manutenção. Pelo meio ainda nos pediram a identificação. Ficaram admirados por verem três cidadãos como nós, bem estabelecidos numa cidade próxima de Lagos, pudessem andar ali como verdadeiros maltrapilhos e a arrastarem-se sem nenhuma razão aparente. Apesar de tudo e como seria natural deram-nos as boas tardes e continuaram o seu serviço. E lá arrancamos em direcção ao farol para um percurso de pouco mais de dois quilómetros e cerca de meia hora a pé. Às oito estávamos lado a lado com o nosso objectivo.

 

Descansamos mais um pouco e de seguida fomos à procura da descida que nos conduziria à gruta junto ao mar, onde conforme estabelecido estaria um barco à nossa espera. Rapidamente a encontramos (bastava ver por onde as pessoas andavam) e olhamos lá para baixo: uma escada velha e bastante íngreme descia uma boa dezena de metros falésia abaixo, com o mar bem visível lá no fundo, a ondular suavemente entre os rochedos. Já não se via ninguém a circular por ali, agora que se chegava ao fim do dia e se aproximava a hora de jantar. Mas era ainda muito cedo: o encontro estava marcado para a meia-noite e ainda tínhamos mais de três horas de espera (e de impaciência e suspense). Um de nós foi então até uma roulotte que se encontrava estacionada nas proximidades, comprar alguma coisa de quente e de sólido que nos fizesse ultrapassar este péssimo estado geral (principalmente físico) em que nos encontrávamos: umas bifanas acabadinhas de fazer, acompanhadas por batatas fritas, uma pequena salada e até uma sopa (quentinha) de legumes, acabaram por de novo nos recompor, pondo-nos a ver com melhor olhos as horas que se avizinhavam. Resolvemos fazer uma sesta (com um de nós sempre atento à passagem das horas) e aí ficamos até perto das 11:30 da noite. Levantamo-nos, arrumamos tudo, ainda nos entretivemos com um cão que por ali passava (o cheiro do resto do embrulho das bifanas, deve tê-lo atraído) e iniciamos a descida. E cinco minutos antes da hora e com os três sozinhos junto da gruta aguardamos. À meia-noite em ponto um velho barco a remos agora com um motor adaptado parou junto de nós: entramos e o condutor conduziu-nos junto à costa em direcção a ocidente. Nem cinco minutos depois uma luz aproximou-se vinda do mar e acompanhou-nos por segundos até o barco parar. Com o motor parado um grande silêncio se instalou sobre o mar até que uma porta se abriu e do estranho veículo agora estacionado sobre a água mesmo ao nosso lado, saiu uma ponte pela qual passamos entrando no seu interior. Nem sabendo muito bem como tínhamos viajado em tão poucos segundos e saindo do veículo mal tínhamos entrado, encontramo-nos repentinamente na fortaleza de Sagres às portas de uma pousada. Sem perguntar dirigimo-nos para o local e aconselhados por um indivíduo que lá nos esperava (fardado, de óculos, de capacete e nunca mostrando todo o rosto) fomos logo descansar. Acordar-nos-ia por volta das oito.

 

Dia 7
7.ª Etapa da Viagem
(À Aventura)

 

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Por volta das sete da manhã e com os primeiros raios de Sol a começarem a entrar pela janela, levantei-me e fui ligar a televisão: era Domingo, a meteorologia previa a continuação do bom tempo e estávamos no último dia (por nós anteriormente definido) para a conclusão (e nunca fim) desta nossa grande aventura. Era inacreditável tudo por que tínhamos passado, ainda por cima agora, que estávamos tão bem instalados num belo aposento de uma confortável pousada. Mas nem tudo estava ainda acabado. Fui acordar os outros dois e aproveitei para tomar um duche rápido. Às oito a campainha do quarto tocou. Aparentemente o mesmo indivíduo que nos transportara na noite passada entregava-nos agora um pequeno subscrito. Fardado, ainda com a cabeça e o rosto encoberto e após entregar a mensagem fechada, despedindo-se e desaparecendo de imediato ao dobrar a esquina do corredor. Enquanto os outros se aproximavam abri o envelope, tirei de lá uma folha dobrada e tentei ver o que dizia. Como já estávamos todos sentados, pedi-lhes a atenção e li: “Ponto de encontro exactamente ao meio-dia junto do acesso às escadas que levam à parte superior da torre-cisterna, localizada na extremidade esquerda (para quem entra na fortaleza) dos edifícios visíveis, logo à entrada. Aguardar no local”. Daqui a pouco mais de três horas. E ainda mais um passeio a pé da pousada até à Fortaleza (talvez uma meia hora). Lá fora o tempo adivinhava-se perfeito com o mar calmo e sem ondas.

 

A caminhada até à fortaleza foi feita de uma forma tranquila, dando-nos tempo suficiente para aproveitar o bom tempo que se fazia sentir na região (muito gente já se encontrava na praia) e ainda dar uma espreitadela pelas ruas da vila de Sagres. Para entrar na fortaleza ainda tivemos que comprar bilhete, o que até poderia ter sido um factor impeditivo para aquilo que pretendíamos fazer (a continuação da nossa viagem) já que o pouco dinheiro que trouxéramos estava mesmo a acabar. Mas lá conseguimos o dinheiro suficiente e com os respectivos bilhetes foi-nos permitido entrar. Foi fácil encontrar a torre-cisterna, situada do lado do promontório a partir do qual poderíamos ver a pousada onde antes pernoitáramos. E aí nos deixamos ficar até ao meio-dia, vendo-se pouco ou nenhum movimento à medida que o calor aumentava e se ia aproximando a hora do almoço. E à hora uma abertura se abriu na parede lateral da cisterna mesmo junto ao acesso às escadas (não nos tínhamos apercebido antes da sua existência) e no seu interior vimos aquilo que seria a caixa de um elevador pronta para nos receber: entramos e logo a porta se fechou. Começamos a descer muito rapidamente.

 

Já bem instalados nos nossos lugares recebemos a informação de que estaríamos muito próximos da largada. Ouvimos o sinal de aviso soar e ao contrário das forças que esperávamos começarem a actuar fortemente sobre o nosso corpo (devido ao forte arranque e à actuação contrária da força da gravidade), o início e a continuação do movimento da nave que nos transportava praticamente nem se sentiu, ao mesmo tempo que pela janela víamos o exterior submarino a passar por nós a grande velocidade, até ao momento em que emergimos e disparamos em velocidade estonteante pela atmosfera terrestre. A costa algarvia afastou-se rapidamente, o continente foi ficando cada vez mais pequeno, a própria Terra começou a encaixar-se na sua totalidade dentro da nossa janela e já mais afastados desta ainda vimos a pequena ISS. Então disparamos e no segundo seguinte o Espaço que antes nos rodeava já não era o mesmo. Estávamos num Universo distinto.

 

Vimos então a nave a reentrar no nosso espaço de origem, com o planeta Terra diante de nós a aproximar-se a grande velocidade e com os seus continentes a começarem a definir cada vez com maior detalhe os seus verdadeiros contornos: começávamos a reconhecer os limites da Europa e a sua parte mais ocidental (onde se localizava o Algarve). E no momento seguinte como que houve um interregno temporal e inesperadamente (sem aviso ou outro tipo de informação) encontrávamo-nos de novo no elevador que utilizáramos na fortaleza. Sentimos que nos deslocávamos para cima e segundos depois este parou: a porta abriu-se, saímos da cabine e vimo-nos para nosso grande espanto no que deveria ser o Promontório de Sagres mas ainda sem a sua fortaleza. A paisagem à nossa volta era bem diferente daquela que conhecíamos, com toda a estrutura rochosa na qual nos encontrávamos e o mar situado nas suas proximidades, apresentando parâmetros e condições totalmente desfasadas da nossa realidade. Nesta realidade que aqui nos era proposta a linha de costa situava-se um pouco mais a sul e o local onde nos encontrávamos era apenas uma das grandes elevações por ali dispersas. Os terrenos em volta em vez de serem desprovidos de fauna e de flora (como consequência da urbanização imposta pelos humanos), eram pelo contrário bastante densos e selvagens. O ar parecia ter mais cheiro e um pouco mais de humidade, apresentando no entanto um perfume bastante agradável e fazendo-nos lembrar os odores puros da Natureza. Víamos algumas aves que ainda não identificáramos (éramos uns ignorantes nessa área) e fortes vestígios da presença de animais. Ao fundo a vegetação agitou-se e por momentos ficamos bastante receosos: por entre os arbustos surgiram então dois grandes javalis, que vendo que não constituíamos para ambos qualquer tipo de perigo pelo menos imediato, atravessaram a correr o caminho e tornaram a desaparecer. Um de nós ainda avançou (corajosamente) em direcção ao caminho por onde os animais tinham passado e chamado à atenção por algo que vira entre os arbustos deslocou-se uns metros para um dos lados: e aí enquanto olhava melhor para o que tinha acabado de descobrir caído no solo, olhou-nos com espanto e chamou-nos. Segundo ele e pelos objectos que acabara de descobrir (utensílios, ferramentas e conhecimento da sua utilização), estaríamos muito provavelmente na Pré-História do Algarve: o instrumento de pedra descoberto e recentemente utilizado para cozinhar (e que se encontrava ao lado dele), ferramentas como uma parte de um machado (quebrado) e alguns seixos utilizados para corte ou até para caça (nas suas mãos tinha algumas pontas de setas), indicavam que estariam num outro mundo (passado) muito diferente do deles (talvez a uns 5.000 anos de distância) e que à sua volta também existiriam outros homens – de outra era, com outras armas e com outros argumentos, que necessariamente não seriam os deles. E isso preocupava-os agora que estavam para ali perdidos numa terra que sendo deles também o era estranha. Felizmente que a nossa aventura fora pensada por nós, mas planeada por outros. Subitamente sentimos (interiormente) que algo de estranho estaria a suceder à nossa volta, só que ainda não identificáramos o quê: o local até que poderia ter sido uma sequência cronológica de Sagres, mas a cada minuto que passava, o ambiente que nos envolvia parecia um pouco mais retocado, um pouco mais artificial. O problema talvez não estivesse na composição e misturas de cores, provavelmente mais uma questão de iluminação. Olhei então para o Céu. A minha surpresa compartilhada com os restantes, foi de incredibilidade e imediata: noutra posição bem distinta do horizonte o que poderia muito bem ser um outro Sol, começava a fazer notar a sua crescente claridade.

 

Instantaneamente a execução foi interrompida. Toda a acção foi rebobinada e no exacto ponto de restauro (onde se verificara o problema), foi então introduzido um novo ficheiro prioritário (de actualização e regresso).

 

Devemos ter ficado inconscientes. Só me recordava do segundo Sol a nascer e das cores indescritíveis que nos iam começando a chegar vindos da sua direcção (a partir do instante em que subitamente o astro se começara a abrir) e de como a sua primeira vaga de raios solares nos atingira directamente e de uma forma que pelos vistos fora fulminante. Como se repentinamente apanhados pelo Sol ficássemos cegos e desorientados. Depois disso nada. Agora não sabia na realidade onde estávamos, não nos sabendo situar no tempo, no espaço ou noutro tipo de parâmetro de uma outra realidade qualquer. Estava escuro e não ouvia ninguém. Nem sabia se sentia. No entanto tinha a certeza que continuava vivo (segundo a minha definição), pois pelo menos continuava a sentir-me interiormente. Era como se estivesse suspenso no vazio e no centro do que seria esse nada estivesse a ver o Universo; e a tentar compreender a minha situação no interior dele. Quando me virasse talvez encontrasse a resposta. Era apenas uma questão de escolha – e de quem talvez e por mim a fizesse (em meu nome, da sua autoria, por todos subscrito e por mim representado). Despertamos ao som de uma campainha (apesar de nunca a termos encontrado).

 

Apesar do ar que respirávamos ser bem agradável para as nossas vias respiratórias, estávamos completamente às escuras e com as costas bastante doridas por termos estado deitados no chão. Tínhamos que encontrar uma solução. Levantamo-nos, tentamo-nos ligar uns aos outros com partes do nosso vestuário e colocando-nos em fila começamos a andar uns ao lado dos outros tacteando. Estaríamos num corredor: sensivelmente com largura sempre muito semelhante, mais alto do que nós (mesmo saltando) e parecendo subir ligeiramente na direcção em que nos dirigíamos. Mas não havia maneira de se fazer luz. Tínhamos perdido as mochilas e com elas quase todo o equipamento. Pouco ou nada; nem uma única lanterna, fósforos ou qualquer outra luz. E já andávamos nisto há pelo menos meia hora.

 

A ordem emitida obrigou à apresentação imediata do certificado autorizando a introdução de um novo operador no terminal (da aplicação em execução) e face à sua não existência foi declarada a suspensão do mesmo operador e anulada a ligação do respectivo periférico. E para não problematizar ainda mais a execução do plano original o cenário foi alterado por aperfeiçoamento, tornando-se mais a imagem do objecto visado e menos a visão do interveniente exterior (fosse em que sentido mais ou menos agressiva ela se manifestasse). Uma aventura pode ser uma viagem, desde que não desnecessária e abusivamente manipulada e tratando o objecto visado como se fosse (mesmo) algo sem alma, inútil e vazio. Como assim se dermos alguma liberdade a um prisioneiro, mesmo sentindo-se injustiçado, ele agradece. Tão simples como isso.

 

A terra tremeu bem, mas felizmente apenas por uns curtos segundos. À nossa frente algo se desmoronou e por momentos pensamos que ficaríamos ali enterrados vivos e para sempre. Mas como o homem muitas vezes se engana neste caso a regra confirmou-se: ao fundo víamos o primeiro raio de luz. Saímos para o exterior num local não muito afastado de uma das entradas nas minas de sal-gema de Loulé. Até parecia mentira: à nossa frente o som e o movimento de um Domingo normal, ainda chegava até aos nossos ouvidos e olhos bem abertos, neste momento para nós único e significando o reencontro.

 

Se na realidade pensarmos que a nossa vida é um filme, basta rebobiná-lo e pô-lo de novo a correr: para aí verificarmos que nem tudo fica sempre na mesma, nem mesmo aquilo que é e mesmo quando assim nos parece.

 

E como sempre as férias acabaram e segunda-feira começámos de novo a trabalhar (a vida não dá mesmo descanso – só mesmo a dormir e a sonhar).

 

Fim da parte 4/4

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 01:04

Novos Ficheiros Secretos – Albufeira XXI
(tomo A/31.5)

 

Dia 5
5.ª Etapa da Viagem
(Na serra de Monchique)

 

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O veículo parou. Acabáramos de chegar ao fim do nosso trajecto e encontrávamo-nos inseridos num terminal individual: como se tivéssemos chegado à nossa plataforma privada e individual de transporte mesmo junta à nossa propriedade privada. E na realidade foi só percorrer a passagem que nos separava do exterior e entrarmos directamente num novo módulo adjacente: diante de nós um elevador de transporte horizontal e um outro de transporte vertical apontavam-nos as possíveis saídas. Nesse momento estávamos completamente às escuras, não fazendo a mínima ideia da zona de Monchique onde poderíamos estar – isto se fosse mesmo este o local e não um outro qualquer. Tentamos compreender o painel de comando dos elevadores, mas para além de podermos (quase de certeza) ter identificado o botão de arranque, os símbolos do menu exposto no visor eram para nós incompreensíveis: uma mistura de letras com algumas delas muito parecidas às do nosso alfabeto, combinada com uns desenhos estranhos fazendo-nos lembrar por aproximação os hieróglifos egípcios. Enquanto reflectíamos sobre o que iríamos fazer a seguir, aproveitamos para fazer uma leve refeição e descansar por algum tempo: como assim já andavam nisto há mais de sete horas consecutivas. Teríamos que nos decidir entre os dois elevadores (horizontal ou vertical) e entre a oferta de destinos propostos por cada um deles escolher aquele que deveria ser o nosso. O horizontal seria a mais provável opção, a dúvida estava em qual das opções: um menu dispondo de três categorias (verde, amarela e vermelha), cada uma delas com três níveis (superior, médio e inferior) e que nos conduzia para uma possibilidade de êxito total na nossa escolha, nuns reduzidos e preocupantes 11%. Muito pouco para as nossas ambições de concretização da nossa aventura. Mas a Vida seria sempre um risco a correr, se dela quiséssemos tirar o máximo possível (ou seja Tudo).

 

Eliminamos desde logo a categoria vermelha (uma intuição muito forte transportada por esta cor quente, que apesar de indicar protecção também poderia significar outros perigos, como hierarquização e protecção contra intrusões); ficavam ainda duas. E ao lembrar-nos dos semáforos e talvez infantilmente influenciados pelo significado dessa cor, eliminamos de seguida o amarelo e o aviso de perigo a ele associado (simbólico mas muitas vezes real) evitando assim sermos apanhados sem protecção e defesa (e de uma forma inesperada) por algo insuperável e particularmente perigoso. Restava a categoria Verde e a opção por um dos três níveis. 1/3 Sempre era melhor que 1/9.

 

Entramos no elevador de acesso ao nível superior. Talvez por ser aquele que em princípio nos colocaria nalgum ponto mais próximo da superfície. Os meus companheiros achavam que um dos símbolos poderia referir-se ao local onde estaria localizada as Termas de Monchique, já que o desenho lhe fazia lembrar uma fonte. Eu achava que era uma interpretação demasiado simplista do que víamos (ou desejávamos). Mas como não tinha escolha deixei-me levar pelos dois. Uns segundos depois o elevador parava, a porta abria-se e introduzíamos no que parecia ser uma sala intermédia de acesso. Uma das duas portas existentes dava para o que seria um compartimento de apoio técnico, enquanto a outra aparentemente seria um possível acesso para o exterior: era pelo menos o que o símbolo impresso na mesma parecia querer significar, ao vermos uma paisagem estilizada com o mar no horizonte. Fez-nos logo pensar na espectacular vista que todos já apreciáramos a partir de um dos mirantes situados já no interior da serra do Monchique, com uma vasta extensão da costa algarvia a poder ser observada e profundamente apreciada em dias claros, bonitos e sem nuvens. E passados alguns minutos já estávamos a por as nossas cabeças finalmente fora do buraco. E pelas 10:00 da manhã já olhávamos para a costa de Portimão, ainda meio escondidos entre as árvores, da proximidade de algumas pessoas que por ali circulavam. Reparamos então que estávamos um pouco acima da cidade de Monchique, mais precisamente em plena estrada de montanha (que ia dar à Foia) e muito próximo de uma das fontes onde os locais iam recolher habitualmente água para seu consumo. Até se viam dali algumas filas de garrafões de plástico. O nosso plano seria neste momento pensar no que fazer a seguir: para isso teríamos de ter alguma forte intuição ou esperar que algo ou alguém nos desse um significativo sinal. Voltamos então ao interior do buraco de onde saíramos e aí fomos à procura de algum tipo de ajuda.

 

Encontramos apenas um pequeno mapa em evidente mau estado (e que parecia ter sido para ali atirado apressadamente e sem cuidado), juntamente com uma (mais bem conservada) caneta e o que parecia ser um conjunto de agrafos. E com estes três artefactos teríamos que decidir os passos seguintes. Abrimos com muito cuidado o já muito deteriorado mapa, estendemo-lo sobre a única mesa existente e tentamos fixa-lo nas suas extremidades: as nossas três lanternas e a bússola que possuíamos serviram muito bem para o efeito pretendido. O que observávamos era uma carta da zona do barlavento algarvio: tinha como fronteira uma linha vertical que passava muito perto de Albufeira, estendendo-se até ao promontório de Sagres. Nessa carta representava-se a topografia de toda esta região do Algarve, além da representação de algumas estruturas subterrâneas que provavelmente seriam túneis. Que pelo traçado e profundidade tanto poderiam ser de origem natural (antigos canais vulcânicos) como até de origem artificial (como já tínhamos constatado na nossa aventura). Com a ajuda da caneta ainda tentamos registar alguns dos pontos da carta que julgávamos mais interessantes para guardar, mas a mesma não escrevia. O que era um pouco estranho para nós, pois até que a caneta parecia mesmo nova. E já agora para que raio serviriam os agrafos? Acabamos por tentar fixar mentalmente alguns dos locais situados mais próximos de nós e que julgávamos importantes para podermos continuar pelo menos provisoriamente com a nossa viagem e voltamos a sair para o exterior. Por desconfiança na compreensão do verdadeiro papel a desempenhar por estes dois objectos, no contexto não completamente normal onde actualmente nos encontrávamos, decidimos levar connosco a caneta e os agrafos. O que como veríamos seria uma decisão por nós assumida talvez que acidentalmente (apesar do acaso poder estar intimamente ligado à necessidade), mas que se revelaria extremamente importante poucos minutos depois.

 

Sem sabermos muito bem que decisão tomar, optamos inicialmente por atravessar a encosta onde nos encontrávamos, em direcção a zonas mais a ocidente. Se entretanto lhes surgisse algum contratempo, logo decidiriam como o contornar. Quando caminhávamos pela encosta tentando cortar caminho entre árvores e alguma vegetação rasteira um pouco mais densa, uma criança viu-nos e com um grito bem audível chamou a atenção dos seus familiares aí presentes. Assustados com o grito emitido pela jovem apareceram logo dois elementos adultos, que face aos gestos da criança logo se puseram a olhar um pouco alarmados na nossa direcção. Mas quando nos viram e nos identificaram como elementos inofensivos, lá acalmaram a criança e ainda se riram e gesticularam para nós. A criança é que não ficou lá muito convencida e já com os familiares mais descansados e afastados começou a fazer-nos caretas e como nós respondemos então evoluiu e até nos atirou umas pedras. Peguei no que estava no bolso e em tons de ameaça simulei que iria responder ao ataque e atirar também umas coisas: aí a jovem assustou-se de verdade e aos gritos fugiu e foi ter com o seu grupo. Ainda nos rimos ao ouvirmos como que transportado pelo vento a resposta de alguém: “Bem feito, é para aprenderes”! Divertido e vencedor apertei as minhas armas entre os dedos e senti uma estranha (mas incomodativa) impressão: larguei logo o que tinha entre dedos. A caneta era uma agenda digital com um pequeno projector capaz de disponibilizar hologramas informativos; só entrava em funcionamento quando o circuito de alimentação era ligado; e para tal eram utilizados os diferentes agrafos, os quais fechariam um determinado circuito conforme a aplicação solicitada. E agora estava activa. Só faltava tirar dela o que necessitávamos. O que até foi fácil percebido o seu método de funcionamento: a caneta adaptava-se ao seu operador e era este através da sua capacidade cerebral de funcionamento que projectava virtualmente num ponto não existente do espaço (mas materializado como se fosse uma tela) as informações desejadas. Pensei no trajecto que deveria tomar de seguida e logo toda a descrição me apareceu instantaneamente, apontando agora para um novo local no interior da região do barlavento algarvio cercando a cidade de Lagos. Socorrendo-me da bússola tentei pelas coordenadas identificar visualmente o local e feito isso chamei os meus companheiros e partimos.

 

Dia 6
6.ª Etapa da Viagem
(Um Salto até Lagos a Caminho de Sagres)

 

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Era meia-noite, estávamos muito cansados e até tínhamos algumas bolhas nos pés. Ao abandonarmos a serra de Monchique, sabíamos de antemão que teríamos à nossa frente pelo menos uns bons 40km (ou mais) de caminhada dura e por vezes bastante suada, até atingirmos o nosso próximo destino no concelho de centro em Lagos. O que poderia significar nesta nova etapa da nossa aventura e tendo em atenção todo o cansaço por nós acumulado nestes últimos cinco dias, umas doze horas de viagem. Não foi por isso grande a nossa admiração quando ao fim de quase doze horas de caminhada, pouco mais tivéssemos percorrido do que metade dos quilómetros previstos: tínhamos chegado a uma das extremidades da albufeira da barragem de Odiáxere situada muito perto de Guena (na margem oposta). Estaríamos a uns seis quilómetros da barragem da Bravura e aí resolvemos pernoitar. Acendemos uma pequena fogueira e fizemos um chá de um limão que encontráramos pelo caminho. Enquanto esperávamos deleitamo-nos com uns quantos frutos de medronho apanhados na descida de Monchique, entrecortados por figos secos que trouxéramos nas nossas provisões. E um gole de medronho (que um de nós transportava num pequeno cantil pendurado no pescoço) apenas para recarregar.

 

A noite estava uma verdadeira maravilha. O céu estava límpido e cintilante, a Lua a crescer iluminava suavemente a escuridão nocturna do momento e os contornos da albufeira de Odiáxere, eram aos nossos olhos delineadas por uma linha virtual, contrastando fortemente com o brilho calmo daquelas águas. Verdadeiramente era um tipo de paraíso nocturno: naturalmente silencioso, com pontos de luz sobre a terra e outros a iluminarem o céu. Apenas na distante serra (de Monchique) com um pequeno grupo de nuvens. Enquanto observávamos a albufeira fomos contando as luzinhas: em redor das águas calmas e amenas da albufeira e aproveitando esta perfeita noite de Verão, alguns grupos de pessoas teriam vindo aproveitar esta oportunidade retemperadora (e a chegada do fim-de-semana) para conviverem e usufruírem da noite. Só dentro do nosso campo visual contamos perto de uma dezena. No céu só a Lua, um ou outro planeta e muitas estrelas. Um de nós vira uma estrela cadente. E também se ouvia o ruído (da vida) da noite, algumas ondinhas a bater e o som de uma ou outra ave. Nada mais. E então vimos uma luz vinda de sul a atravessar a albufeira longitudinalmente e em menos de cinco segundos desaparecendo. Mas tudo tinha sempre uma simples explicação. Um pequeno clarão deu-se então atrás de nós. Viramo-nos de novo na direcção da serra (de onde viéramos) e apanhamos bem de frente a pequena onda de choque provocado pelo trovão: já quase em cima de nós um grupo de nuvens escuras com aparência bastante ameaçadora mostrava desde já a frente da muralha de água que dentro de segundos e com grande intensidade nos atingiria, levando-nos de imediato a fugir e a procurar abrigo junto do velho moinho de vento, já há muito tempo abandonado e onde pensáramos (se tal fosse necessário) dormir. De repente chovendo intensamente e sem qualquer momento de interrupção (durante quase dez minutos), deixando grandes parcelas de terrenos todos alagados e fazendo no final com que todas as luzes em torno da albufeira se apagassem. Provocando até uma descarga num posto de transformação e colocando tudo às escuras. Agora é que era de noite. Três horas da madrugada.

 

“Uma Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz, mais clara e intensa que um copo de cristal, cheio d’água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente. Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto, que ficávamos dentro da luz que A cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio de distância, mais ou menos.”

 

“Abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como que reflexo que delas expedia, que penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos.”

 

“Em seguida, começou-Se a elevar serenamente, subindo em direcção ao nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros, motivo por que alguma vez dissemos que vimos abrir-se o Céu.”

 

“Os relâmpagos também não eram propriamente relâmpagos, mas sim o reflexo duma luz que se aproximava. Por vermos esta luz, é que dizíamos, às vezes, que víamos vir Nossa Senhora; mas, propriamente, Nossa Senhora só A distinguiamos nessa luz, quando já estava sobre a azinheira.”

 

(extractos: fatima.pt)

 

O espectáculo num âmbito aparentemente pirotécnico começou logo a seguir. Aquecêramos o chã e resolvêramos ficar mais um bocadinho a apreciar o cenário que envolvia a albufeira. A electricidade tinha sido reposta (como o demonstrava a iluminação da barragem da Bravura) e lá ao longe (uns pontinhos ali e outros acolá) a iluminação estava de regresso. À volta da albufeira é que já não havia sinais da presença e actividade de outras pessoas. A passagem das nuvens e a intensa precipitação tinha-as afugentado da zona, trazendo-as de regresso às suas terras e à protecção dos seus lares. Em torno da barragem deveríamos ser os únicos que por ali permaneciam, aproveitando ao máximo todas as sensações que esta linda noite nos propunha (apesar da anterior chuvada) e preparando-nos debaixo deste maravilhoso cenário para umas horinhas bem dormidas: já era muito tarde e se queríamos atingir o mais cedo possível a cidade de Lagos, não nos poderíamos esquecer que ainda teríamos pela frente (no mínimo) uma boa dúzia de quilómetros. E foi aí que diante dos nossos olhos o céu se começou a alterar.

 

Inicialmente assemelhava-se a um avião. Vinha de norte e movimentava-se lentamente. Repentinamente pareceu aumentar de velocidade, desceu nitidamente de altitude e pareceu apontar o seu rumo na nossa direcção. Ficamos um pouco assustados. Teria o avião algum problema? Estaríamos nós sugestionados por algo e imaginando casos onde nada se passava? Na verdade não ouvíamos qualquer ruído e até poderia ser outra coisa qualquer (um meteorito?). Mas a luz não se foi embora e rapidamente atingiu um ponto situado no lado oposto da albufeira. E surpreendentemente parou e aí pareceu ficar como que suspensa no ar e a aguardar (durante cinco minutos não vimos um único movimento nem sequer alterações sonoras ou luminosas). Nunca na vida tínhamos estado presentes num acontecimento deste tipo, enfrentando provavelmente um objecto voador desconhecido tripulado por seres vivos e inteligentes, de quem talvez ninguém conhecesse a sua existência. Fossem eles terrestres ou extraterrestres. Apesar de tudo o que víramos nestes últimos dias e do que tal testemunho poderia significar para todos (existência de outros seres vivos inteligentes e mais avançados tecnologicamente), ainda sentimos um arrepio percorrer a espinha, postos frente a frente com algo de desconhecido e inexplicável. O objecto mexeu-se um pouco mais emitindo então durante alguns segundos um jogo complexo de luzes: pelos vistos estariam a emitir sinais (entre eles) já que pouco tempo depois quase que uma dezena de outros pontos luminosos surgiram no céu dirigindo-se na nossa direcção. Assustados refugiamo-nos de novo no interior do moinho e do piso superior (ainda intacto apesar do tempo) ficamos a assistir. Oito objectos aparentando ter a mesma forma e dimensão estavam agora perfeitamente agrupados em volta do objecto que chegara em primeiro lugar: e sem mais começaram a alterar a sua cor numa sequência que parecia planeada e propositada.

 

Primeiro os objectos luminosos iniciaram um bailado sem objectivo visível e completamente caótico, que na mistura incrível de cores e projecções laterais que nos ia proporcionando, acabava por nos oferecer um espectáculo verdadeiramente fantástico, nunca visto e do outro mundo e que nos fazia sentir como se estivéssemos a assistir a um processo transformativo ainda indefinido e oscilando entre esse belo caos e um determinado tipo de fluidez organizativa (e dinâmica pela acção e movimento). Organizaram-se depois segundo um determinado esquema ainda incompreensível para nós e subitamente sentimo-nos como se estivéssemos a olhar para o interior de um caleidoscópio, como uma verdadeira criança não formatada e nunca tendo ocupado um determinado armário certificado e dito evolutivo: provavelmente a orientação destes objectos era um tema livre e aberto. E este bailado durou ainda uns largos minutos (ou horas?) deixando-nos como que hipnotizados e susceptíveis a teorias e práticas que nos esmagavam agora com esta realidade, como se fossemos vítimas presentes de uma avalanche (sentindo os seus efeitos no corpo) que antes consideraríamos idealística, irresponsável e infantil e sobretudo uma característica de utópicos ultrapassados e sem futuro. Quase que nos deixáramos levar mas não era esse o objectivo deles. Então espalharam-se de novo sobre a barragem e a partir de um foco central montaram uma projecção a múltiplas dimensões: visuais mas também com efeitos sonoros ainda mais impactantes, apesar de por nós não audíveis mas profundamente intrusivos e actuantes. E sobre uma tela fictícia mas real vimos a mensagem reconstruída e transportada pelas sondas Pioneer: no início dos anos setenta as sondas Pioneer 10 e 11 levavam consigo (impressa numa das suas placas) uma mensagem com figuras e símbolos utilizados pelos terrestres e destinada aos nossos possíveis colegas extraterrestres. Que pelos vistos de uma forma ou de outra a tinham recebido.

 

Fim da parte 3/4

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 00:49

Novos Ficheiros Secretos – Albufeira XXI
(tomo A/31.5)

 

Dia Três
3.ª Etapa da Viagem
(Paderne – Silves)

 

paderne11.jpg

 

A próxima etapa da nossa aventura tinha como destino a cidade de Silves: uns bons vinte e cinco quilómetros a pé e no mínimo umas seis horas de caminhada. E como ainda estávamos bastante agitados (das horas anteriores) decidimos arrancar no instante e partir de madrugada. Eram duas horas quando partimos. Talvez tenha sido nessa noite (em toda esta fabulosa aventura) que alguma vez tenhamos pensado (mas por mero erro de interpretação) em desistir, mas a correcção desse erro levara-nos onde nunca pensáramos: se algo de inconsciente (mas natural) nos levara a este destino, certamente que algo de melhor nos esperaria do outro lado (do espelho). Tudo começou inesperadamente quando já nos encontrávamos no interior da zona do Foral (talvez com 1/3 da distância já percorrida). Sem aviso o tempo mudou, nuvens escuras cobriram os céus e a chuva começou a cair. Repentina tinha-se levantado uma verdadeira tempestade, com ventos cada vez mais fortes, chuva com precipitação elevada e relâmpagos e trovões em evidente aproximação. Num momento estávamos ligeiros e seguros e no seguinte sentíamo-nos como que paralisados e inseridos no Olho do Furacão. Parecia até que estávamos a reviver o violento tornado ocorrido em Silves no ano de 2012, mas agora presencialmente, em directo e ao vivo e com cenas exclusivamente nocturnas. E então viu-se um grande relâmpago, seguido por um violento trovão e de seguida mergulhamos num profundo silêncio. A chuva parou e entre os sons emitidos pelos últimos pingos estalou a gritaria: durante uns segundos com um barulho verdadeiramente ensurdecedor, mas com o decorrer dos segundos decrescendo de intensidade e sendo substituída por barulhos do que poderiam ser quedas e de muitos ramos partidos. Minutos depois e para nosso grande espanto parecia que tínhamos sido teleportados para a selva. Entre cangurus, cabras, póneis, camelos, coelhos, galinhas, patos e roedores de menor porte a escolha era variada: era vê-los a passar por nós inseguros, perdidos, mas também curiosos, logo seguidos por nuvens mais ou menos dispersas de várias espécies de aves. Só eu vi uns quantos papagaios, diversos grupos de periquitos e até algumas aves nocturnas (aqui mais comuns e familiares), como um mocho e uma coruja. Que soubéssemos ainda estávamos no Algarve e esta não seria (na sua grande maioria) a sua verdadeira fauna (endémica): caso contrário só faltava mesmo os macacos.

 

Depois da maioria dos animais terem passado o ambiente acalmou um pouco mais. Deixando-nos a possibilidade de avançarmos tranquilamente no terreno e retomarmos a nossa caminhada. E como o nosso trajecto passava por lá, fomos ver a zona de impacto (o ponto onde o relâmpago caíra). Agora encontrávamo-nos no interior da projecção do filme Parque Jurássico (Jurassic Park) só que a placa dizia Mundo Louco (Crazy World). O parque tinha sido violentamente atingido, com algumas estruturas destruídas e ainda a arder (em lume brando devido à anterior precipitação) e com alguns dos seus animais ainda em fuga atravessando toda a extensão do terreno. Só vimos um indivíduo isolado em cima de uma moto 4, pela sua atitude ainda meio paralisado e sem saber bem o que fazer (“mas afinal de contas o que é que ali se teria passado?” – ainda estaria ele a pensar!). Avançamos um pouco mais no interior deste parque, mas quando um de nós tropeçou (supostamente num ramo) e caiu, vimos na realidade o local onde estávamos e rapidamente nos pusemos a andar: se a tartaruga que viramos até que era simpática, já as pitão e os crocodilos eram uma outra história. E se alguém me dissesse que ali havia gato (uma intervenção exterior) naquele momento eu acreditaria: na escuridão agora limpa da noite uma luz estranha brilhava no céu.

 

Pouco passava das sete horas da manhã quando pela primeira vez avistamos o bonito e proeminente castelo. Tínhamos agarrado o rio Arade já muito perto de Silves e acompanhado o seu reduzido curso de água até ao centro da cidade. Pela segunda vez socorremo-nos dos nossos valores civilizacionais e lá fomos até um café (situado bem junto às margens do rio) tomar um pequeno-almoço reforçado: a noite anterior tinha deixado as suas marcas e o cansaço associado à humidade ainda colada ao nosso corpo, exigia calorias e um corpo bem aquecido. Aproveitamos a ocasião para descansar um bom bocado e antes de iniciarmos a subida (ao castelo) consultamos o documento: no único artefacto associado à guia de marcha anteriormente aos três entregue, encontrava-se um documento para abertura (e para nossa consulta) duas horas após o nascimento do Sol. E como a hora já passara fomos ver o que dizia. Em poucas linhas informava: “ao ultrapassar a porta de entrada pelo seu lado interior, vire-se cerca de 30º à esquerda e dê vinte passos rigorosamente em linha recta; pare, rode para a direita até atingir uma perpendicular à anterior direcção e dê mais outros vinte passos; olhando para a parede da muralha que irá ver à sua frente eleve os seus olhos segundo uma vertical perfeita e fixe-se na sua parte superior; irá verificar a existência no foco dessa estrutura de uma pedra particular, apresentando como característica distintiva uma fractura em forma de Y, a qual irá identificar o centro e as pedras que lhe são adjacentes; uma das oito conterá a resposta e a escolha errada interromperá o processo”. Chegaram-se então perto da muralha, viram a marca à sua frente, mas à volta da pedra marcada com Y só contaram cinco pedras. E então repararam nas letras mais pequeninas (que talvez ajudassem como se fosse adivinha): “por vezes é no meio daquilo que não vemos, que se guarda o tão desejado segredo” e ainda para finalizar “e de nove salva-se um”. Estavam num verdadeiro e perigoso impasse: um único erro poderia fazer desabar todo o edifício há tanto tempo esperado e com ele provocar o fim de todos os nossos sonhos sonhados. Teriam que resolver o enigma que aqui lhes era colocado e encarar com naturalidade a descoberta da sua solução, como o resultado de um raciocínio simples e de uma conclusão evidente. E aí o cérebro do mais novo iluminou-se e da escuridão se fez luz. As pedras eram na verdade nove: a pedra central identificada pelo Y, mais cinco pedras visíveis e colocadas em seu redor e as outras três desaparecidas (em combate, mas seguramente ainda presentes). Ao subir ao cimo da muralha o que viu apenas veio comprovar a sua teoria: um passeio corria ao longo de toda a sua extensão, com a parte virada para o exterior a ser constituída pelo mesmo tipo de pedras (agrupadas). Sem receio e agora reconfortados pelas nossas certezas, pressionamos a pedra e ela soltou-se: no interior um objecto cilíndrico e brilhante apareceu, despertando-nos logo a atenção. E enquanto isto se passava um tipo passou quase que despercebido mesmo ao nosso lado, lançando-nos por segundos um olhar frio e penetrante e desaparecendo de imediato após transpor uma porta.

 

Guardamos o valioso objecto (pelo menos para nós) e com muitas cautelas abandonamos o castelo, regressando de novo às margens do rio. Sentados numa das suas margens pensamos no que fazer e para tal combinamos andar um pouco mais e num sítio mais privado e protegido avaliarmos o objecto. Os nossos passos seguintes estariam aí bem expressos. Pouco tempo depois tivemos a resposta e retomamos viagem. O nosso destino seria agora um lugar situado na margem esquerda do estuário do rio Arade (mais ou menos a quatro quilómetros de distância da cidade de Portimão), onde se localizaria uma gruta que teria tido em tempos longínquos (desde o paleolítico médio) ocupação humana e ainda por cima transportando consigo um nome deveras interessante e bastante sedutor como o do famoso poeta árabe ibn Ammar (nascido perto de Silves, talvez em Estombar).

 

Dia 4
4.ª Etapa da Viagem
(Na Gruta de Estombar)

 

alf_ajedrez-arabe_med.jpg

 

Esperava-nos um percurso de cerca de sete quilómetros, correspondentes (no máximo) a umas três horas de caminhada. Arrancamos por volta das três horas da tarde e após termos atravessado o rio e percorrido vastas zonas carregadas de citrinos atingimos a zona das fontes e dirigimo-nos para as suas instalações. Resolvemos pernoitar no local e aí aguardar a chegada do dia seguinte. E em pouco mais de hora e meia tínhamo-nos alimentado, dado um pequeno passeio pelas redondezas e chegados à tenda adormecido logo como pedras. Nem chegamos a lavar-nos, nem sequer a arrumar as coisas. Sem incidentes acordamos já o dia tinha nascido e ainda sonolentos e com o corpo dorido fomo-nos lavar e tomar o pequeno-almoço. O dia parecia mais quente do que os anteriores e com o calor a chegar achamos melhor despacharmo-nos. Reunimo-nos à volta da mesa, discutimos uns pequenos detalhes e lá fomos até à célebre e ainda misteriosa gruta de Lagoa. Não esperávamos descobrir lá o poeta árabe ibn Ammar, mas o encontro com esta gruta milenar poderia ser o abrir de mais uma porta nesta nossa fantástica e irrepetível aventura.

 

À chegada a conclusão a tirar foi concretizada rapidamente: teriam de se socorrer de material utilizado na investigação de grutas subterrâneas e tal como um espeleólogo utilizar ferramenta especializadas, eficazes e de fácil utilização (para principiantes). E só um de nós se poderia considerar um razoável praticante. Mas como a aventura assim obriga teríamos mesmo que arriscar. Demos a volta e regressamos de novo ao local onde tínhamos pernoitado. Ofereci-me para ser eu o escolhido na necessária ida até Portimão. Aí adquiriria (recorrendo extraordinariamente ao meu cartão de crédito) todo a ferramenta e equipamento básico necessário para a concretização da exploração a executar no subsolo adjacente a esta margem do rio Arade, fazendo-me deslocar numa das maiores canoas aí estacionadas (de modo a poder acondicionar todo o material, transportando-o sem problemas) e usufruindo ao mesmo tempo da beleza paisagística deste trajecto fluvial. Ainda tive tempo de escutar as pessoas falarem sobre o terrível temporal que se abatera sobre toda a zona do Foral e de como a passagem do mesmo tinha praticamente destruído o parque de diversões aí existente, colocando toda a zona envolvente de quarentena face à fuga precipitada de centenas de animais. Até havia quem associasse o fenómeno meteorológico ao avistamento na mesma noite de um objecto luminoso atravessando o céu sobre Portimão, com alguns a chegarem mesmo a afirmar terem visto um raio a ser emitido a partir do objecto, em direcção a um ponto situado em terra. Feitas as compras regressei à origem mesmo a horas de almoçar: o peixinho estava quase grelhado e sobrara um pouco de pão, umas alfaces e umas quantas laranjas e azeitonas. Comemos bem, sentimo-nos bem e pouco depois fomos descansar. Esperava-nos uma dura jornada e tínhamos que nos recompor.

 

Encontramo-nos à entrada da gruta ainda o Sol estava no céu. Às sete em ponto transpúnhamos a linha de entrada e introduzíamo-nos decididamente na gruta de ibn Ammar. Começava aí a nossa aventura nas profundezas desconhecidas da Terra. Cuidadosamente continuávamos a guardar connosco o precioso objecto que descobríramos anteriormente na pedra da muralha do castelo e que consigo ainda transportava a delicada Mensagem há já muito tempo esquecida. Há medida que nos íamos movimentando a passagem ia-se estreitando, ao mesmo tempo que o percurso se tornava mais difícil e por vezes bastante irregular. Apesar de não sermos assim tão grandes os túneis tornavam-se por vezes bastante difíceis de ultrapassar: uma curva um pouco mais apertada, um pequeno entrave no caminho a cumprir e até alguns locais onde poderíamos tropeçar e magoar-nos com alguma gravidade (em pequenas e inesperadas saliências), tudo ia contribuindo para o aumento acelerado do nosso cansaço (acompanhado por uma ligeira sensação de falta de ar) levando-nos por vezes a ter que parar e respirar profunda e lentamente. Estávamos a avançar muito lentamente, sinónimo evidente da nossa inexperiência. Por isso ter-mos que ser tão cuidadosos e nalguns casos mesmo meticulosos. Chegamos finalmente a um ponto onde por um dos lados o túnel iniciava uma descida quase vertical, enquanto pelo outro o nível se mantinha praticamente idêntico. As outras saídas ou eram demasiado estreitas ou apresentavam dificuldades para nós insuperáveis. Optamos pela descida vertical e pela primeira vez socorremo-nos das cordas. Com todo o cuidado necessário a ter nestas ocasiões começamos a descida. Talvez uns cinquenta metros após o início (da progressão) chegavam todos definitivamente ao fundo: já na descida se tinha começado a ouvir um ruído muito suave (mas que na nossa mente indicava logo a possível presença de água, a circular), sendo assim sem surpresa mas com grande admiração (pela beleza oculta desta obra de arte subterrânea que abertamente se oferecia diante de nós) que nos vimos num cenário fantástico de rochas e espelhos, não muito usual de se ver pelos homens à superfície. E no local acabamo-nos por perder durante um bom bocado de tempo: não resistimos a este lugar para nós estrangeiro e a frescura cristalina das águas obrigou-nos logo a um banho. Foi uma delícia, como um belo banho de imersão (na minha banheira) para relaxar o nosso corpo (e refrescar a cabeça). Mas tínhamos que continuar a viagem. Comemos e bebemos um pouco e voltamos à caminhada. Demoramos algum tempo a encontrar a extremidade desta cavidade molhada, mas com alguma sorte e um pouco de orientação lá fomos dar a uma zona onde havia um estreitamento da mesma, daí parecendo partir um ou mais túneis. Quando lá chegamos verificamos a existência de três saídas, uma delas subindo, a outra descendo e a terceira mantendo o mesmo nível. Era claro pela existência destes lençóis subterrâneos que estariam a um nível semelhante ou inferior ao do curso do rio Arade. Se subissem deslocar-se-iam em direcção à superfície; se descessem acabariam por se arriscar a encontrar material mais duro e compacto (o que só lhes dificultaria a progressão), se por ventura atingissem a base de acumulação das rochas sedimentares por entre as quais agora se deslocavam e que assentariam provavelmente noutras, estas de origem vulcânica; a melhor opção seria mesmo avançar pelo túnel restante e aguardar o que ela nos reservaria mais à frente. E foi isso que fizemos.

 

Batemos com a cabeça na parede já o relógio marcava 10:30 da noite. Há mais de três horas que tínhamos abandonado a superfície e estávamos agora num beco sem saída e com uma parede bem à nossa frente, indicando-nos não haver solução (por ali só rocha). Só neste último bocado perdêramos quase quinze minutos, teríamos que voltar para trás (mais quinze minutos) e estudar melhor outras hipóteses (mais outros quinze minutos). Só lá para as onze! E ficamos então a olhar para a maldita da parede. Parecia que algo se mexia em certos pontos. Que se os unissem e imaginassem até poderiam construir uma recta. E num caso observado (imaginando um possível ponto de intersecção) parecendo mesmo o ponto de encontro imaginário de duas rectas distintas. Era isso: o que estavam a ver bem que poderia ser o efeito do vento a passar pelas frinchas existentes entre uma porta e o seu respectivo caixilho. Corremos todos para a parede, fartamo-nos de a esfregar com todas as nossas mãos e até com todos os nossos dedos e aos poucos, com a ajuda de alguma ferramenta suplementar ela começou a aparecer até à sua definição total. Agora só faltava arranjar maneira de a abrir.

 

Como era mais do que evidente a solução a adoptar para a abertura desta porta, teria que passar por algum tipo de mecanismo cuidadosamente escondido nalguma saliência da parede. Mas não encontramos nada: nem sequer um sinal. Sentamo-nos um pouco abatidos. Sentíamos uma ligeira brisa introduzindo-se pelos pequenos intervalos existentes entre a porta e o caixilho e pelas sensações em nós produzidas parecia transportar consigo um ar fresco e limpo. Um de nós aproximou-se um pouco mais, curvando-se para a esquerda e assentando a cabeça no solo. E enquanto ia apontando para um dos cantos da porta (o inferior esquerdo), chamava a atenção do nosso outro companheiro (sentado a meu lado) para algo que se passava numa das mochilas: e ao virarmos os nossos olhares em simultâneo, vimos uma luz a sair duma delas. No interior da minha mochila o nosso “precioso objecto” vibrava, sinalizando com uma luz intermitente a presença de um outro dispositivo (electrónico e associado). Seria talvez aquilo de que eu ansiosamente esperava: um dispositivo de comando. Peguei nele, comprimi-o de múltiplas formas e sem saber como nem porquê, consegui que a porta se abrisse. À nossa frente surgiu-nos um pequeno corredor bem iluminado e que ia dar a uma segunda porta; com um visor lateral de desbloqueamento de fechadura e uma pequena janela por onde se podia visionar o que para lá dela se encontrava. Três botões amarelos cintilavam no visor, esperando que alguém os pressionasse. E assim fizemos os três (aqueles que tinham manipulado o precioso objecto): diante de nós, uma gruta completamente equipada e muito semelhante a uma estação ferroviária aparecia completamente ao nosso dispor, com três veículos estacionados lado a lado numa plataforma de embarque e com alguns destinos bem assinalados num monitor informativo.

 

Pela primeira impressão recebida estariam numa estação de menor importância. O esboço mais completo a que para já tivéramos acesso indicava que estaríamos numa subestação de nível 2 (um ramo terminal), por sua vez ligado ao ramo principal através de uma subestação de nível 1. Essa subestação receberia ramos oriundos de diversos pontos circundantes à área central de implantação, ligando-os directamente ou por transbordo ao ramo principal de comunicação. O mais rápido e directo ia ter a uma região em princípio mais elevada situada a noroeste do local onde nos encontrávamos, que por aquilo que parecia ser uma escala, deveria localizar-se na região da serra de Monchique. Os outros trajectos eram mais confusos. Em princípio o veículo escolhido seria o n.º 3. Instalamo-nos, deixamos que o veículo completasse todos os seus procedimentos habituais e quando ouvimos o que seria o pedido de autorização carregamos ENTER e pusemo-nos em marcha. O primeiro veículo levou-nos até à subestação de nível superior; sem transbordo fomos transferidos para outra plataforma próxima, dirigindo-nos de seguida para a estação situada no ramo principal. Tudo em cerca de cinco minutos. E depois foi só sair num dos lados da plataforma para nos dirigirmos em poucos passos para o outro lado da mesma, entrarmos e instalarmo-nos confortavelmente no novo veículo. Era meia-noite quando chegamos à estação.

 

Fim da parte 2/4

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 00:30

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