Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

28
Fev 13

Aniki Bóbó é um filme português de 1942, realizado por Manoel de Oliveira, a sua primeira longa-metragem de ficção. O filme ilustra as aventuras e os amores de certos rapazes da cidade do Porto. É uma viagem à infância através do olho da câmara: olho da memória. A história do filme é baseada no conto Os Meninos Milionários, da autoria de João Rodrigues de Freitas (1908 - 1976) escritor e advogado. (Wikipédia)

 

É um filme que se desenrola numa rivalidade entre crianças que manifestam sentimentos como a hipocrisia, o egoísmo, a inveja, a superioridade. Transmite uma mensagem de paz, de reconciliação feita através do dono da "loja das tentações", a todos os jovens perdidos em rivalidades inúteis. Faz um apelo à amizade, à compreensão sentida, verdadeira e real dentro das normas de convivência. (UL – Instituto de Educação)

 

A cidade do Porto há setenta anos

(Filme: Aniki BóBó – Realizador: Manoel Oliveira – Ano: 1942)

 

Por esta altura – com o nosso país com estatuto de neutralidade e já há muitos anos dirigido por Salazar – ainda decorria a Segunda Guerra Mundial. Foi o ano da celebração do Pacto Ibérico assinado pelos dois ditadores da península, Salazar por Portugal e Franco pelo lado de Espanha. E da eleição do primeiro presidente da república da ditadura, Óscar Carmona, que apenas não cumpriu o seu último mandato como presidente – tal e qual como Salazar como presidente do conselho – porque entretanto faleceu. Quanto à generalidade da população portuguesa foi a época da fome – devido à escassez e ao disparar do preço dos géneros – e do racionamento alimentar e como não podia deixar de ser em regimes ditatoriais (e não só), do aumento da corrupção por um lado e da repressão como contrapartida por outro lado. Vinte anos depois Salazar ainda conseguiu convencer os portugueses a lançarem-se na guerra colonial – assassinando por essa altura e com a colaboração da PIDE Humberto Delgado – deixando para ali ficar sem qualquer tipo de reconhecimento de culpa ou de mínimo sinal de decoro ou de remorso – e com a cumplicidade e beneplácito (como hoje ainda acontece) dos beneficiados do regime – o rasto de sangue de milhares de jovens portugueses, mortos numa guerra de interesses para os quais eles não contavam – já aí tratados de uma forma selvática e criminosa, como danos colaterais.

 

A imagem do filme traz-me sempre recordações da cidade do Porto, onde nasci e vivi com os meus avós maternos os primeiros anos da minha juventude, numa zona situada não muito longe da ribeira e com acesso relativamente rápido por Campanhã, às margens do rio Douro. Não sou já desses tempos em que o mundo travava a sua Segunda Guerra Mundial, mas o ambiente que esta imagem da ribeira nos proporciona, identifica-me mais uma vez com esta antiga terra de luta, abraçando sem receio o seu rio libertador: ainda me recordo de como da janela do sótão da casa do Bonfim – a quem eu chamava “janelinha do Douro” – e como se estivesse a ver o mundo do cimo dum avião, avistava lá ao longe o rio a dar a sua curva na zona do Freixo, entalado entre as suas duas margens poderosas e carregando às suas costas os desaparecidos barcos rebelos.

Era na Ribeira que se encontrava o coração da cidade e era no seu povo que se encontra a alma, do seu corpo colectivo. Talvez seja este motivo agregador – de qualquer tipo de sociedade que se pretenda organizada ou sonhe sê-la – que adicionado à juventude e á profundidade com que esta imagem nos penetra, nos transporte no trilho do tempo até à nossa infância e nos faça reviver mesmo que ilusoriamente um espaço passado, utilizando agora um invólucro desgraçadamente desactivado – ao nível da percepção/sensação – mas carregado de emoções e no entanto já sem capacidade afirmação e de resposta.

 

(imagem – google.com)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 17:25

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