Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

10
Jan 14

Ficheiros Secretos – Albufeira

(O Livro Perdido da Selva – Resistência Inapta a Novas Intrusões Exteriores)

 

Indígenas

 

À sua volta as três pequenas criaturas só viam terra seca e solitária, aqui e ali com pequenos tufos muito dispersos de vegetação rasteira meio queimada e um pouco retorcida, espreitando timidamente entre os escombros duma terra totalmente devastada.

 

Tinham estado em estado de hibernação durante um período de tempo ainda bastante prolongado, consequência da antecipação da última estação fria e das condições climatéricas extremas que desde logo a mesma apresentou.

 

Anteriormente o tempo tinha estado excessivamente quente e seco, provocando uma onda de incêndios florestais que tinham dizimado muita da flora e da vegetação indígena e como tal dificultado o trabalho de recolha de alimentos para a dispensa dos referidos animais.

 

Experientes e previdentes as três criaturas tinham-se no entanto antecipado ao acontecimento, preocupadas como estavam com os sinais que entretanto a natureza lhes transmitira e que eles iam duma forma inata retendo e analisando.

 

Desse modo tinham atingido um nível satisfatório de reservas alimentares antes de se dar o início do seu processo de hibernação, o que lhes permitiu ter a certeza de poderem resistir confortavelmente á estação fria desde que não cometessem excessos.

 

Quando o momento chegou antecipando a data prevista não hesitaram, abandonando de imediato a superfície e refugiando-se a grande profundidade na toca onde tinham nascido: tudo estava já preparado para os receber e o que eles viam lá fora tornava-se assustador.

 

A decisão de procurarem refúgio no subsolo foi tomada instantaneamente, com os três animais a recuarem precipitadamente para o interior do túnel de acesso, após serem postos perante um fenómeno aterrador e para eles de contornos potencialmente apocalípticos.

 

À distância de um olhar subitamente atento e sob a acção de um calor asfixiante como aqueles que costumam anteceder as grandes tempestades, a paisagem parecia ondular de uma forma sofrida e em câmara lenta.

 

Apresentava como pano de fundo uma linha do horizonte que parecia avançar vertiginosamente sobre o terreno e que contrastava violentamente com o céu claro e transparente que a aguardava e com o manto escuro e impenetrável que a perseguia.

 

Tudo se passou em menos de trinta segundos, intervalo de tempo suficiente para uma primeira onda de choque pôr em fuga os animais menos cautelosos e previdentes, preparando-os com a violência do seu sopro térmico e penetrante para o mal que aí vinha.

 

A segunda onda teve consequências catastróficas chegando mesmo a atingir um nível muito próximo da extinção irreversível, não só por ter provocado uma verdadeira terraplanagem de toda a superfície visível como por a ter mergulhado na mais profunda escuridão.

 

O que se seguiu foi indescritível para qualquer ser vivo que estivesse a viver este acontecimento negro e violento, com um manto escuro e pesado a cobrir toda a terra, enquanto era atravessado por centenas de raios que pareciam digladiar-se entre si.

 

A atmosfera explodiu segundos após a chegada da 2.ª onda, difundindo a partir daí inúmeras partículas em vagas sucessivas e em todas as direcções e parecendo agora querer deslocar-se também em força e em profundidade – com as criaturas em pânico a fazendo pela vida.

 

Com a terra a tremer duma forma brutal e aterradora, acompanhada por um som ensurdecedor que parecia ir fazer estalar todos os ossos do crânio, as três criaturas fugiram sem parar entre túneis e galerias cada vez mais profundas e estritas, até atingirem o fundo.

 

Chegadas à última e mais profunda galeria subterrânea rapidamente os três animais provocaram uma derrocada artificial, fazendo aluir completamente o acesso para o que seria o seu futuro abrigo e salvando-os decisivamente da corrente mortífera que tudo invadira.

 

No exterior a atmosfera asfixiava sob toneladas de detritos poluentes e radioactivos que tudo esmagavam e destruíam, introduzindo-se por todas as fracturas e matando tudo no seu caminho: selados no seu casulo protector as três pequenas criaturas olhavam-se no escuro.

 

A noite tinha invadido grande parte deste mundo submerso e por arrastamento o Sol passara a ser uma memória cada vez mais esquecida. Focos de sobreviventes lutavam diariamente unicamente para se manterem vivos, não se atrevendo sequer a exporem-se ao exterior.

 

Terraplanagem

 

O inesperado Fenómeno tivera a sua origem no espaço exterior envolvendo o planeta Terra, com os efeitos da sua concretização a terem um grande impacto sobretudo sobre o hemisfério norte, manifestando-se geologicamente pela total obliteração de extensas áreas elevadas.

 

Como se o planeta tivesse sofrido em vastíssimas áreas um processo de autêntica terraplanagem, nivelando o solo e preparando-o para outro tipo revolucionário de implementação de estruturas locais, neste caso dizimando a espécie dominante anterior.

 

O Fenómeno atingira directamente a Terra provocando na zona de impacto uma violenta explosão: começara com o aparecimento de uma enorme bolha esférica e transparente que se materializara repentinamente na atmosfera.

 

Fora ao descer sobre a terra que a esfera implodira, parecendo esta reacção ter sido despoletada por uma sucessão de raios a ela claramente dirigidos: a expansão fora imediata, com uma muralha demolidora negra e bordada a fogo, a avançar por todo o continente.

 

Tudo o resto que se passara ainda carecia de todas as explicações, escondida como estava ainda a razão para a ocorrência de tamanha tragédia e as consequências provavelmente sinistras que ainda não se conseguiam compreender e atingir.

 

As três criaturas tinham estado isoladas na profundidade da sua galeria durante um período anormalmente extenso de perto de seis meses: só mesmo a falta de alimentos os obrigara a deixar para trás o receio de ver o mundo que os esperava, impulsionando-os para a superfície.

 

A Terra entrara num período de descontrolo económico e financeiro, com os grandes conglomerados a usurparem o poder do Estado e a chamarem a si as rédeas dos mercados mundiais, dominando-os e manipulando-os duma forma global e em seu interesse exclusivo.

 

A concentração do poder em torno de três grandes Companhias/Estados levara à constituição duma organização protectora dos brutais investimentos realizados, que evitasse o aparecimento de conflitos entre as partes intervenientes na gestão dos mercados e da matéria-prima.

 

O espaço físico da Terra era limitado e com os seus recursos a escassearem cada vez mais à sua superfície – devido à voracidade da globalização, com o lucro no horizonte (o objecto) ignorando o resto da paisagem viva (o sujeito) – o início duma agressão era sempre possível.

 

E se os três blocos face aos seus crescentes compromissos e necessidades de expansão se viraram para o espaço exterior – voltando a olhar a Lua como um recurso irrecusável, pela experiência acumulada e pela proximidade da mesma – tal opção não evitou a confrontação.

 

O projecto Apollo fora abandonado sem explicações no século passado, pretensamente devido a problemas ocorridos nas missões realizadas ao nosso satélite, mais tarde reconhecidos como originados na existência na Lua de outros seres vivos, mais antigos, solitários e agressivos.

 

No entanto uma das companhias não tinha desistido e secretamente estabelecera um pacto – mesmo que secundarizando-se – com um sector rebelde alienígena: esperava com isso ganhar tempo, ter acesso a tecnologia e esmagar a concorrência transformando-se no Estado Único.

 

Na Trilateral os blocos Americano e Chinês digladiavam-se através do uso das palavras tentando assumir o protagonismo ideológico, enquanto o bloco Intermédio apostava numa postura ideologicamente mais passiva, procurando desligar-se das suas limitações orgânicas.

 

Mas o erro já estava feito e com a estratégia implementada pelo bloco Chinês o recuo era agora impossível: aproveitando as restrições financeiras impostas ao projecto espacial norte-americano – e com a Europa como sempre especada a olhar – a China tomara a dianteira.

 

E com a força e vontade de todo o continente asiático em se associar a este bloco poderoso comandado pela maior potência mundial agora imperialmente virada para o exterior, foi fácil aos chineses interporem-se e substituírem-se aos americanos na sua manobra intrusiva na Lua.

 

A Rússia inicialmente iludida pelo falso poder financeiro da Alemanha e pela ficção vendida pela GB ainda se tentou desligar do bloco intermédio (mas já era tarde): perdidos na sua reflexão de observador atento e prudente, já se tinham-se deixado levar e perdido a sua vez.

 

Por outro lado a acção imprevidente e unilateral da China para com os intrusos vindos do exterior, destruíra por completo os poucos elos de solidariedade humana que ainda subsistiam na Trilateral, desagregando a já frágil união e escancarando as portas à invasão estrangeira.

 

Terra Nova

 

A Lua juntara-se à Terra há muitos milhões de anos. Inicialmente orbitada por um pequeno satélite natural localizado nas suas proximidades – com uma trajectória logicamente elíptica – esta lua teria misteriosamente desaparecido dos céus e sido imediatamente esquecida.

 

Este estranho processo de eliminação de realidades anteriormente verificadas e vividas, só poderia ter uma única hipótese credível de interpretação, comprovada posteriormente pelas características estranhas deste novo satélite, claramente atípico e de origem artificial.

 

Aquela nova Lua de maiores dimensões e agora situada num local do espaço mais afastado do seu planeta – tão perto do olhar pela sua grandeza e tão afastada dos mecanismos que tinham criado a Terra – era caracterizada por uma órbita circular e por não ter movimento de rotação.

 

Colocada a uma distância a partir da qual se pudesse controlar os acontecimentos que se verificassem na Terra, sem por um lado se fazer notar a intervenção feita a partir do seu exterior, mas podendo actuar rapidamente em caso de alarme, a Lua era o observatório ideal.

 

E com a ausência de rotação, a Lua criava uma ampla região impossível de ser visualizada a partir da Terra, o que impossibilitava que os seres extra-terrestres pudessem ser observados, criando ao mesmo tempo uma áurea de mistério e de terror propositadamente induzido.

 

Satélite artificial colocado no Sistema por Entidades desconhecidas – certamente pertencentes a civilizações muito mais antigas e tecnologicamente superiores – a Lua transformara-se agora numa base operacional activa, intervindo decisivamente e por pré-solicitação interior.

 

Só que a projecção holográfica que tinha sido programada pelos operadores de simulação, experimentação e aplicação de cenários evolutivos não estava a corresponder às expectativas, com alguns utilizadores poderosos a excederem perigosamente as suas prorrogativas.

 

Expulsos os representantes da civilização que dominava a Terra e que os alienígenas tinham com condescendência suportado por simples interesse estratégico, chegara a hora de pôr a raça dominante à prova, sujeitando-a a um acontecimento radical a nível de extinção.

 

O novo programa tinha sofrido uma pequena correcção no seu desenvolvimento sequencial, introduzida aleatoriamente no interior do sistema que o iria processar e desenvolver – de modo a ser impossível de detectar e referenciar.

 

Correcção que alteraria duma forma imperceptível mas decisiva a matriz da aplicação. A 1.ª fase desta operação não existente porque não subordinada a nenhum dos interesses em disputa, fora previamente concretizada através da introdução dum factor extra de segurança.

 

Continuidade matricial que essa intrusão foi capaz de assegurar porque o sistema não tinha reconhecido esse factor como novo ou actualizado, já que o incorporara desde o início do processo apresentando variações híbridas mas autorizadas pelos códigos de replicação.

 

Desse modo a introdução do factor de dúvida na execução do processo de extinção – dado ser impraticável a pretensão duma eliminação total duma espécie – possibilitara aos operadores deixarem-se levar pelo arbítrio na execução da projecção.

 

O que permitira a readaptação a estas novas circunstâncias por parte de muitas das espécies incluindo as dominantes. Aberta assim uma nova porta de comunicação, as perspectivas de sobrevivência evoluiriam exponencialmente.

 

Libertários

 

As três criaturas fartaram-se de olhar mas o cenário que viam era sempre o mesmo, queimado, sem contraste e estendendo-se sem grandes variações e bem nivelado, até ao fim do horizonte: num dos cantos, uma nuvem cinzenta parecia erguer-se em direcção ao céu.

 

Num intervalo deste mundo em formação, um paraíso preservado sobre a superfície da Terra albergava a espécie que agora se iria tornar predominante: praticamente extintos os humanos, os primatas considerados hierarquicamente abaixo tomavam agora o controlo do planeta.

 

Absorvidos na realização das suas tarefas diárias, os primatas descansavam de mais uma nutritiva refeição, preparando-se para mais uma sesta retemperadora que os fortalecesse e empolgasse para uma nova distracção: outros optavam pelo prazer puramente físico orgástico.

 

Na presença dum intermediário operacional Adão e Eva eram agora o motivo dum novo jogo online, em que participavam a serpente e a maçã: e enquanto os outros primatas usufruíam desta Terra Nova, o resto do Universo punha-se online – tinha começado o campeonato!

 

(imagem – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 09:20

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