Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

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Abr 14

“Desvirtuando o seu significado individual não correlacionado, a conjugação propositada destes três factores – SEXO, álcool e poder – pode levar-nos à ilusão e daí à escravidão”.

 

 

O dia tinha sido cansativo. À chegada a casa só lhe apetecia tirar os sapatos e esticar-se ao comprido no sofá. Nem pensar em ver televisão: sujeito aos quatro canais TDT tornava-se insuportável repetir os mesmos tiques monótonos e não reprodutivos do seu quotidiano, ver as mesmas marionetas desperdiçarem tempo e espaço exibindo todos felizes e contentes as mesmas cordas que os controlavam e manietavam, ouvir os seus gritinhos estridentes como se estivessem a ser violados por um monstro e mesmo assim, falarem como se tivessem necessidade de memória ou urgência natural de cultura, apesar de não terem tempo para elas e nem sequer as reconhecerem.

Fechou os olhos por um momento e aí pôs-se a divagar: SEXO e um copo de vinho poderiam vir mesmo a calhar. Levantou-se, pegou na carteira e saiu. Pouco tempo depois estava de regresso: trazia consigo uma garrafa de tinto e um bom exemplar sexual que encontrara perdido na rua.

 

Abrira a garrafa com delicadeza e doçura e sentira o seu cheiro em erecção a espalhar-se suavemente pela sala: as uvas deviam ser certamente rígidas e deliciosas – com o seu líquido quente e viscoso a pulsar no interior do vasilhame – enquanto a ramagem se movimentava para cima e para baixo, como se quisesse provar a todos os presentes as suas fantásticas características orgásticas e tipicamente organolépticas.

Do outro lado do mundo o cálice já esperava pela dádiva, adornado agora por um corpo sequioso e sedento de prazer ao qual se acoplavam superiormente e entre curvas perfeitas duas belas peças de fruta e uma floresta por descobrir – escondendo no seu interior a misteriosa e rica gruta de Ali-Bábá. Aqui não teria de desconfiar nem sequer de se apressar, ejaculando precocemente e sem sentido num mundo sem regras e sem definição e com isso não partilhando devidamente todas as delícias do prazer: os quarenta ladrões, fechara-os lá fora o vinho era excelente e o receptor do líquido (indubitavelmente) uma beleza.

 

Mal o penetrado sentiu a penetração do penetra...a transmissão foi interrompida e no monitor apareceu a seguinte mensagem: “Pedimos desculpa por esta interrupção. O programa segue dentro de momentos”. SEXO? "Se o querias fazer fazias, se não, deixavas-te estar sentada no sofá" (Ruby – sobre as festas bunga-bunga de Silvio Berlusconi)

 

[nono e penúltimo título publicado – dum total de dez – para um estudo não científico de como manipular audiências, introduzindo a palavra SEXO]

 

(imagem: Karry)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 16:38
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