Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

19
Dez 14

Despenhara-se no planeta Terra em pleno início de um novo período glacial: teria que desprezar as chatices que aí vinham e aproveitar a oportunidade surgida. Ou não fosse este mundo um cenário de sexo e um ícone do mais puro prazer.

 

Encontrara um dia e por mero acaso o Tiago e o Hipólito perto de Alvor, quando a minha nave fora atingida por um brutal e inesperado acidente meteorológico, acabando por se despenhar perto do aeródromo de Portimão: juntamente com um outro amigo (o quarto elemento desaparecido) tinham vindo em meu socorro e nem mesmo a diferença de espécies nos tinha afastado em mais esta adversidade. Juntamos forças e continuamos a nossa luta – num mundo sob ataque e sem grandes perspectivas futuras.

 

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Tiago, Hipólito e o Inverno Eterno

 

Estava um frio do caralho no cimo da serra de Monchique. Mesmo lá em cima na Fóia a cerca de 900 metros de altitude o edifício central estava abandonado, com a estação de radar situada um pouco mais à direita inactiva e com sinais evidentes de acelerada decadência. Abrigados num recanto resguardado do Cerro dos Marrocos, podíamos ver toda a costa algarvia de Faro até Lagos totalmente coberta de neve, com o oceano Atlântico ao fundo coberto por pequenas manchas brancas flutuantes, originadas pela desintegração de icebergues viajando desde o norte distante. Estávamos no dia 24 de Dezembro de 2040, vinte anos após o Inverno Eterno se ter abatido sobre a Terra.

 

No acampamento improvisado junto a um antigo restaurante típico da região encontráramos uma pequena salamandra ainda em bom estado. As paredes grossas da casa, a presença de uma apreciável quantidade de lenha na cave e a descoberta de algumas latas de comida ainda intactas e aparentemente em boas condições, convenceram-nos a aí pernoitar. Apesar de ainda serem três horas da tarde a temperatura ambiente já baixara dos zero graus, pelo que precisavam de se apressar na execução das suas tarefas de modo a assim preparem a passagem de mais uma noite gelada. Há já duas semanas que tinham perdido um dos seus elementos por hipotermia, tendo-o encontrado já morto numa antiga tasca de São Marcos da Serra, onde tinham estado a beber um autêntico e raro tesouro – descoberto numa dependência escondida de produção de medronho utilizando um alambique tradicional da região – e do qual ele não regressara: adormecera com os vapores do álcool, o fogo apagara e a morte chegara depressa.

 

O nosso grupo era constituído por três elementos. Por tudo o que tínhamos passado e com a imagem de morte ainda muito fresca na nossa cabeça (do quarto elemento do grupo inicial), era-nos fácil de verificar que quanto maior fosse o grupo piores seriam as suas hipóteses de sobrevivência. No exterior não se encontrava nada de comer, não eram visíveis animais ou outro tipo qualquer de coisa viva ou em movimento e até as pessoas como nós pareciam extintas ou estarem escondidas – tal a agressividade do tempo e o medo de morrer. Às seis da tarde já tínhamos recolhido ao interior da habitação onde iríamos passar a noite, isolado todos os possíveis pontos de entrada de ar e carregado toda a lenha necessária para o interior da sala colocando-a mesmo junto à lareira. Vários cobertores proteger-nos-iam das temperaturas mais baixas, enquanto várias camadas de tapetes sobrepostos sobre o estrado de madeira nos isolaria do frio vindo do chão.

 

Estávamos juntos à lareira bebendo o que restava da última garrafa de medronho, enquanto por vezes um de nós se levantava e ia dar uma espreitadela na pequena janela de vidro da porta de madeira. Fazíamo-lo por uma questão de segurança mas também na esperança que da noite algo surgisse e nos tirasse dali. A noite já caíra há muito tempo completamente escura e sem nenhuma luz a brilhar e com o céu como uma muralha medonha e pesada encobrindo e fazendo desaparecer estrelas. Nem um ruído nem um grito só o barulho da madeira a arder. Era meia-noite e o termómetro indicava 12 graus negativos.

 

Pelas três da manhã julgaram ter ouvido um ruído (acordaram os três sobressaltados com algo), mas não o conseguiram confirmar e voltaram a adormecer. Mas uma hora depois o frio apertou e a dor provocada voltou a despertá-los: carregaram de lenha toda a boca da lareira, juntaram-se o mais possível uns dos outros e ainda com o corpo a tremer, afogaram-se sob quilos e quilos de roupas. Parecia que não iriam aguentar (a temperatura chegara aos 30º negativos), mas como de costume lá o conseguiram fazer mais uma vez, dormitando ainda um pouco a partir das seis horas da manhã. Às nove o Tiago levantou-se e com uns restos tirados do fundo de um saco foi fazer um último café. Para comer tínhamos uns quantos grãos de milho e uns frutos ressequidos de medronho que encontráramos esquecidos junto do alambique. E ao espreitar pelo vidro vi que nada mudara e que a terra infelizmente continuava como a Bela Adormecida: ainda viva, talvez esperançada mas sempre ameaçada.

 

O Hipólito foi encarregue de fazer uma rápida batida pela zona, tentando observador possíveis trajectos a seguir e fazer uma inspecção mais atenta e cuidada a possíveis movimentos estranhos sobretudo envolvendo pessoas. Se encontrasse algo de comer seria formidável mas que soubessem todos os restaurantes daquela zona há muito que tinham sido limpos e muitos deles destruídos. Eu e o Tiago estaríamos prontos para partir mal o Hipólito chegasse: eram 9:30 e partiriam às 10:00. E nem cinco minutos volvidos ouviram o som de um motor subindo a estrada que ia dar à Fóia (um acontecimento impensável senão mesmo impossível nesta altura e neste local), aproximando-se cada vez mais do ponto onde se encontravam e repentinamente interrompendo a sua marcha e deixando-se ficar num profundo silêncio. Ainda vi o Hipólito a chegar a correr de boca aberta e respirando com sofreguidão, enquanto apontava com firmeza para um vulto que se aproximava de nós a pé vindo da estrada.

 

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Verde e Ella

 

À medida que o vulto se aproximava este foi-se transformando numa mulher de altura mediana, bem feita e torneada e aparentando pela roupa que trazia sobre o seu corpo não sofrer com as condições atmosféricas que se registavam: afinal de contas a temperatura ainda andava pelo ponto de congelação e a noite anterior tinha sido duríssima de passar. Ao chegar perto de nós lançou um olhar rápido e discreto sobre o Tiago e o Hipólito, acabando por virar-se para mim e apontar o seu indicador direito: “Quero o Verde” disse ela peremptoriamente enquanto se encaminhava calmamente para o interior do nosso refúgio nocturno.

 

Ao entrar reparou na lareira ainda acesa, chamou-me para junto de si e autoritariamente impediu que os meus dois companheiros entrassem, fechando de uma forma indelicada e prepotente a porta nas suas caras. Espantado fiquei a olhar para ela enquanto a via despir-se perante mim de uma forma provocadora, baixando-se deliberadamente enquanto tirava a sua roupa interior e pondo à completa disposição dos meus órgãos dos sentidos, todo o seu sexo em sofreguidão de posse, oferecendo-se sem limites à potente penetração ejaculatória e decididamente mostrando pela sua ânsia sexual estar pronta para um momento de puro prazer animal.

 

Na sua presença nem sentia o corpo sofrer com o tempo frio que se fazia sentir naquela sala, parecendo mesmo que a temperatura ambiente tinha subido e que os nossos corpos serviam naquele momento, como autênticos termóstatos. Virados um para o outro e com os nossos sexos a tocarem-se húmidos e palpitantes (com o meu sexo rígido e erecto, comprimido entre as suas coxas quentes e aconchegantes e deslizando suavemente entre elas como veludo), tudo o mais não existia e a perspectiva de um orgasmo fantástico por conjunto e coincidente só os excitava ainda mais. Lá fora o Tiago e o Hipólito ainda protestaram durante algum tempo mas estranhamente pouco tempo depois deixei-os de os ouvir. Incompreensivelmente não me preocupei com a situação deles nem um único segundo.

 

Lá fora os dois amigos tinham ficado estupefactos. O seu amigo tinha-os abandonado, trocando-os por uma fêmea estranhamente funcional e ainda capacitada para apresentar períodos de cio, transformando-os sem aviso nem consideração em meros excedentes desinteressantes e inapropriados para o acontecimento inesperado e privado que vivia (e não queria demonstrar nem partilhar) e como tal esquecendo-os e libertando-os. Só que o efeito era o seu abandono e o desprezo pelo seu tempo e espaço de sobrevivência.

 

Abandonaram então a porta de entrada e foram à procura de um outro refúgio onde pudessem interpretar melhor a sua situação, dando-lhes forçosamente e o mais depressa possível um tipo qualquer de solução. Foi nessa altura que Hipólito viu a viatura estacionada mais acima (num recanto resguardado da estrada que subia até à Fóia), acabando estes sem o esperarem por ouvir alguns sons que com a sua continuação pareciam apresentar um certo ritmo e cadência que lhes fazia recordar os grandes êxitos musicais dos anos setenta e que lhes despertou imediatamente a curiosidade fazendo-os alterar o seu trajecto e dirigirem-se até à viatura.

 

A viatura não lhes era familiar. Tinha a forma de uma esfera, não tinha rodas visíveis nem qualquer tipo de escape que revelasse a sua forma de propulsão e em duas zonas da sua superfície curvilínea apresentava um material transparente que permitia que se olhasse para o seu interior. Não viam portas por onde pudessem aceder ao seu interior nem qualquer espécie de mecanismo de abertura. Apenas uma melodia que se escapava à medida que os segundos se passavam, difundida por algum aparelho nele instalado e agora em funcionamento e que minutos depois Tiago identificou como um tema de James Brown intitulado Sex Machine. Tentaram então espreitar por um dos lados com acesso mais facilitado e enquanto iam apalpando a sua superfície e batendo suavemente em certos pontos da mesma (para verificar a sua textura e profundidade de instalação interna) uma imagem surgiu subitamente diante deles, observando-os a partir do interior do estranho veículo. A mulher que antes os surpreendera à sua chegada (inopinada) não estava sozinha e os seus companheiros pareciam ainda mais estranhos do que ela – talvez alienígenas como o seu companheiro (o Verde).

 

Fim da 1.ª parte de 4

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 18:21

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