Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

16
Jan 14

(Contra-Ficheiros Secretos mas com Contornos Alienígenas) – 1/2

 

Esta história envolve velhinhas, porcos e seres não identificados, talvez anjos ou talvez demónios. Retrata a confusão que existe e persiste entre sonho e realidade e entre caos e ordem. Mas como os pares se complementam, estes fazem parte da mesma coisa e mesmo na maior confusão, se pode dar o início a algo ordenado.

 

As Três Senhoritas

                                                                          

Esta é uma história de província sobre três senhoritas bem formadas, sem marido e sem idade, que num dia dum mês solarengo de muito calor e divertido, se reuniram nas belas e frescas escadas, da sua rude casa de pedra.

 

Um caldo de legumes bem quentinho acompanhado por um bom naco de broa, abrira-lhes o apetite e confortara-lhes o estômago. O arroz de míscaros e os restos do guisado de vitela deram o toque final à refeição. Nunca desprezando um queijinho de cabra e um copo de tinto para limpar a garganta.

 

Ao meio-dia já estavam todas comidas e despachadas e antes que a sonolência invadisse o seu corpo distendido e satisfeito, ergueram-se rapidamente, levantaram a mesa e lavaram a louça, tomaram um cafezinho e foram logo até lá fora.

 

A porta da casa um pouco empenada pela forte humidade da noite anterior, quase que lhes ia negando os seus desejos, mas contrariada e com um forte pontapé bem dirigido, lá se abriu finalmente fazendo entrar o Sol com a luz a acompanhar.

 

Estava um dia lindo e muito claro, com uma aragem muito tímida fazendo ondular muito levemente pequenos ramos e algumas flores e com o Sol a bater fortemente no rosto das senhoritas e a aquecer as pedras dos degraus da sua escada.

 

Reconfortadas e acarinhadas pelos quentinhos raios de Sol as três senhoritas lá foram descendo os degraus, acabando por se sentarem no último desnível da escada e por usufruírem o calor da tarde perfeita, enquanto o granito lhes aquecia o rabiosque.

 

A história veio depois de cumprimentarem alguns dos vizinhos que não deixando de as olhar iam passando diante da casa e fora uma ideia repentina da mais velha das três, que recordando os inesquecíveis tempos passados da sua juventude, se lembrou da história rocambolesca do leitão da Mealhada (perdão Bairrada).

 

O Leitão

 

A história começou nas imediações da vila do Luso mais precisamente na serra do Buçaco, tendo como protagonistas um porco e a porca da sua mulher, fugitivos duma pocilga situada no concelho da Mealhada, que tinha como função pôr os porcos a fornicar e pôr a porca a parir leitões sem parar.

 

Cansado duma vida monótona de puro sexo e prazer, o porco acabara por entrar em depressão perdendo a sua erecção, o que acarretara grandes problemas de produção para a porca, pondo-a em risco de vida por tão pouca bacorada.

 

A ocasião surgiu mesmo em cima da hora, quando o camião que transportava os porcos improdutivos e excedentários para o matadouro municipal se despistou, saiu da estrada e espalhou toda a sua carga pelo chão: uns morreram logo ali, outros não paravam de grunhir e os mais capazes fugiram pelo campo.

 

O porco e a porca da história faziam parte desse último grupo. Ainda meio desorientados pelo acidente em que tinham estado envolvidos e aterrorizados com o cenário de morte que os envolvia – com bocados de porco espalhados por todo o lado desde o chispe ao cabaço passando pelo entrecosto – fugiram sem olhar para trás e com o rabo a enrolar.

 

Na sua fuga desenfreada percorreram campos e mato, atravessaram o Luso de passagem – onde ainda mataram a sede na Companhia das Águas do Luso – e sem parar se dirigiram para a mata do Buçaco. Foi nesse trajecto que encontraram o leitão e vendo-o meio perdido, o porco o convidara para acompanhá-los. De início o leitão ainda hesitara em segui-los, mas vendo o sinal de aprovação da porca aderira prontamente.

 

Apresentemos então e desde já esta terceira personagem, como que caída do céu no trajecto de fuga destes mamíferos não ruminantes e dizendo-se fugitivo duma vara das redondezas: era nem mais nem menos que o jovem Camarinha da terra e por onde ele andasse o sarilho andava por perto. Sobretudo se envolvia uma porca com uma rosca bonita e perfeita.

 

Chegaram à entrada da mata já era noite cerrada. Instalaram-se num pequeno refúgio que encontraram ao lado do caminho e que percorria toda a serra, prepararam com ramos, folhas e alguma caruma a cama onde se iriam deitar e lá foram tratar das suas coisas antes de irem dormir: a porca tratou do local, o porco foi em busca de comida e o leitão ficou a olhar.

 

Bairradinos

 

O leitão na realidade não era natural da Mealhada, sendo considerado entre os seus amigos leitões que com ele habitavam numa quinta perto da zona da Vacariça, como um verdadeiro penetra: no meio onde vivia era já há muito tempo conhecido como o Pilareco da Bairrada, pelo carinho e afecto com que tratava todas as porcas – que parecendo carentes não mais o largavam – e pelo gosto que tinha pelas suas tetas.

 

Mas a fama dos porcos da Bairrada já vinha de longe. Tal como o Pilareco eram porcos carinhosos e afectuosos e entre o porco e a porca o respeito era mútuo e correspondente: mesmo a nível sexual o porco convivia sempre cordialmente com a porca, sendo adepto fervoroso dos preliminares e dum romance verdadeiramente aporcalhado.

 

Assim nunca “o porco iria à porca” como muitos outros o faziam, nem esta se desculparia nunca com as inevitáveis dores de cabeça. Pelo contrário. Eram adeptos das fantasias do parceiro e o seu orgasmo durava meia hora. E tinham carne tenrinha.

 

Entretanto o porco ainda não regressara da batida. A porca e o leitão tinham descoberto umas bolotas por ali caídas e tinham-se deliciado com uns restos de comida que alguém deixara para trás, descansando agora à entrada do refúgio e esperando pelo regresso do ausente.

 

Quanto ao porco este perdera-se no meio do mato e acabara inadvertidamente por atravessar uma estrada que o colocara fora do perímetro do parque. Uma hora depois de ter deixado para trás a mulher, rondava ainda uma casa onde alguns porcos ainda comiam os últimos restos, antes de se recolherem à pocilga: mas o frio apertava e a primeira coisa a fazer era tentar regressar.

 

O frio apertava cada vez mais em torno do refúgio onde a porca e o leitão se encontravam instalados e nem mesmo a folhagem colocada à sua volta os protegia do vento frio que atravessava a serra do Buçaco. Não tiveram alternativa senão aproximarem-se um do outro e enredarem totalmente os seus corpos como se fossem um novelo.

 

A porca não resistiu às investidas pretensamente sem intenções do rosado leitão, certamente e inicialmente causadas pelos espasmos de frio que atravessavam o corpo da jovem e inadaptada criatura. Sensibilizada pela juventude do leitão e pelo sofrimento que este poderia estar a suportar, não foi de espantar que as investidas consecutivas e determinadas do leitão se tenham finalmente coroado de êxito, impulsionadas decisivamente pela atracção e excitação crescente da porca na presença deste jovem e pelas situações difíceis e de carência afectiva que tinha vivido nas últimas horas. O porco nunca mais regressou.

 

As Três Corujas

 

As três senhoritas eram consideradas pela centena de pessoas que residiam na aldeia como bruxas e feiticeiras, um sentimento talvez provocado por nunca terem casado, sempre terem vivido juntas e ainda a outras histórias envolvendo homens, dinheiro e traições. Nada que fosse algo de muito estranho numa aldeia perdida no interior secreto da província, cenário propício a mistérios, encantamentos mas também distúrbios.

 

Corria o boato entre o círculo de beatas que todos os dias acompanhavam o padre na abertura da Igreja, que todas teriam filhos bastardos todos eles já homens, resultado do pacto que teriam feito enquanto jovens moças com um nobre duma freguesia próxima da delas e que se suspeitava ter ligações com o Diabo: engravidara duas gémeas menores de idade que afirmavam nunca o ter visto – apesar de ter sido apanhado a fugir meio nu de madrugada de casa delas – e fizera um aborto a uma outra jovem sua amiga de infância e que muitas bocas afirmavam ter sido por ele causado.

 

Como se pode ver a voz do povo chega sempre a qualquer lado, especialmente se se basear em boatos e rumores que alguns “inocentemente e sem intenções” apenas transmitem: ora como não serve de nada matar o mensageiro, isso dá a certas pessoas a garantia da inimputabilidade. O que se passava é que toda aquela história era falsa, mas o caso de tal facto se ter enraizado na cabeça das pessoas e não mais ter sido desmentido, até que tinha sido muito útil e agradável para as três senhoritas: talvez por medo ou por algum receio nunca mais as tinham aborrecido com assuntos fúteis e dispensáveis, deixando-as fazer a sua vida simples descansadas e em sossego e até tendo para ali chamado com a divulgação destas histórias alguns curiosos susceptíveis à acção de adivinhos e de cartomantes, que ali lhes vinham pedir ajuda e solução para os seus problemas financeiros, de saúde ou passionais e que sempre de lá saíam pelo menos bem bebidos, bem comidos e satisfeitos com o carinho e compreensão (apesar de sem solução) por elas demonstrado.

 

A verdadeira história era muito típica desses tempos de juventude do século passado, com três jovens da província fechadas num mundo auto-suficiente mas sem grandes comunicações com o exterior, que um dia tiveram a oportunidade de sair do seu mundo fechado e percorrer um outro mundo que por vezes não compreendiam nem que fosse pela sua extensão indeterminada e sem fronteiras conhecidas. Partiram com a sua Tia Vitória no carrinho puxado pela sua velha mula a caminho do curandeiro local, transportando consigo a porca Matilde que nos últimos dias ia passando mal agora que estava cada vez mais próxima de parir: não poderiam perder nenhuma das crias da porca Matilde já que todos e tudo eram importantes para o orçamento e sobrevivência da família. Naquela época viviam-se tempos belos mas muito difíceis.

 

Mas tal como os mochos e as corujas as três jovens de então eram reflectidas, responsáveis e extremamente práticas e directas nos actos que praticavam. O que por vezes também trazia inconvenientes e muitos problemas adicionais, dada a sua juventude e gosto pela aventura e pelo risco, que as três jovens transportavam e exteriorizavam continuamente. Daí não ser de estranhar o que aconteceu e compreender o aparecimento de tantas inverdades e delírios.

 

Chegaram a casa do curandeiro já a tarde ia bastante adiantada. A culpa fora da mula que se recusara a puxar o carrinho numa das passagens da serra, o que obrigara a uma longa pausa até que a convencessem a pôr-se de novo ao caminho: talvez tivesse sido o uivar do lobo que incomodara a caminhada até ali normal da mula, mas tal facto e o atraso registado iria obrigá-las a refugiarem-se por ali, para passarem a noite que aí vinha. E foi já no período em que se iam deitar após uma pequena ceia para aquecer e confortar um pouco mais o estômago e se enfiarem no leito onde iriam pernoitar – iriam ficar no rés-do-chão da habitação juntamente com os animais – que as três jovens sem o saber iniciaram a sua aventura.

 

E tudo começara com o aparecimento de algo muito estranho e inesperado que surpreendera as três jovens, ainda elas brincavam com os animais – vacas, ovelhas, porcos, galinhas e patos – que compartilhavam alegremente com elas o dormitório desta noite.

 

          

Anjos dos Céus

 

A partir da porta do celeiro tinham avistado a algumas centenas de metros uma luz que parecia ter descido do céu e estabilizado atrás do arvoredo que rodeava um dos lados do lugar onde se encontravam a pernoitar. Ao princípio tinham ouvido um pequeno silvo e algumas luzes coloridas que posteriormente tinham estabilizado num único ponto iluminado. Curiosas saíram para o exterior para observar melhor o que seria, fechando de imediato a porta atrás de si, mas não conseguindo evitar que um dos bácoros saísse a correr. E foi nessa correria atrás do irrequieto animal que foram surpreendidas por dois seres aparentemente humanos, mas belos e magníficos como anjos: um homem e uma mulher olhavam-nas aparentemente à sua espera.

 

As duas personagens nunca lhes suscitaram qualquer tipo de sensação de medo, despertando-lhes pelo contrário um sentimento de confiança e de partilha que levou as três jovens a segui-los sem hesitar mal foi feito o convite. Ao fundo podia-se ver um veículo estranho e sem rodas que de certo os transportara até ali no qual os dois seres se introduziram convidando-as a acompanhá-los. Ainda pensaram uns segundos antes de entrarem, pois poderiam estar diante de mais uma das obras do Diabo, não fossem os dois um casal de uma extrema e estonteante beleza particularmente no caso do homem, ou não fossem elas mulheres, jovens e prontas a acasalar.

 

A vista que tinham a partir do veículo agora em movimento e atravessando como que suspenso os céus da região era fantástica, com as três jovens paralisadas por fortes emoções como que estivessem a viver um sonho indescritível e inacreditável, só possível de existir noutro mundo que não o delas, mais superficial e com horizontes mais limitados ao nível da observação horizontal.

 

Foram até à zona do convento de Nossa Senhora da Lapa, tendo sobrevoado toda aquela zona beirã e apreciado a região onde o rio Vouga nascia. De noite poucas luzes se viam e só uma ou outra casa uma ou outra rua se encontrava iluminada, mas a Igreja essa era bem visível mesmo no cimo do monte, com os poderosos penedos a rodearem-na e a fazerem parte dela.

 

Voaram ainda por outros céus mais profundos e distantes que o veículo alcançou, nunca se esquecendo no entanto daquele ponto particular sobre a superfície de Portugal onde os dois seres misteriosos tinham projectado um futuro, no qual uma enorme multidão debaixo de um Sol em eclipse e na presença de visitantes luminosos vindos do Além, deu voz à sua profunda fé e esperança num mundo melhor e ao qual todos tinham direito na Terra como no Céu. Para as três jovens foi emocionante verem em antecipação o milagre de Fátima, contando com a presença de uma linda Senhora recortando-se no Céu – sob um pedestal luminoso provavelmente de nuvens – e contrastando duma forma magnífica e penetrante com a evolução do eclipse como pano de fundo. Não esquecendo a presença bem visível e marcante dos Três Pastorinhos.

 

No regresso passaram de novo pela Senhora da Lapa onde os dois seres lhes entregaram um objecto que parecia um sardão: só o tiveram de colocar sob o suporte do telhado ainda a noite ia a meio e todo o mundo dormia, substituindo o anterior já muito degradado e afirmando desta forma e mais uma vez que é possível e desejado (por complementar) a convivência entre o sagrado e o profano, entre o pobre e o rico, entre o Homem e a Natureza.

 

Antes do nascimento do dia voltaram de novo ao celeiro e quando acordaram de manhã ainda ficaram na dúvida se tudo o que tinham vivido seria realidade ou ilusão. Uma certeza no entanto nunca pode ser desmentida, apesar das três jovens nunca terem percebido como tal poderia ter acontecido: fora a primeira vez que tinham sido impregnadas e tal como a Virgem-Maria estavam grávidas e iam dar à luz.

 

(1.ª parte de 2)

 

(imagens – retiradas da Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 12:42

02
Mai 13

Numa Terra destruída pela barbárie exercida por uma elite que se apropriou da inteligência dos outros através da violência, nem tempo temos para olhar o mundo cronológico que a história oficial nos impingiu, não só porque o que nos rodeia se resume a dor e a morte, mas também porque deixamos de activar completamente os nossos órgãos dos sentidos e aceitamos com uma indiferença cultural e educacional doentia, a lobotomização hierárquica como um fenómeno natural.


Tempestade no pólo norte de Saturno

 

O que é belo está para além do céu. Em paralelo.

Apesar de termos criado a beleza. Sequencialmente.

 

Da época em que “as galinhas tinham dentes” e em que nós ainda usufruíamos de tudo o que a vida nos ia oferecendo, lembro-me claramente das minhas primeiras observações astronómicas realizadas com o meu telescópio adquirido numa óptica da cidade do Porto e de como fiquei fascinado com as imagens detalhadas da Lua, das fantásticas manchas solares e dos estranhos anéis de Saturno. Hoje em dia limito-me a olhar o céu à noite com as estrelas e a Lua como principal pano de fundo, tal e qual como a vida que me é actualmente disponibilizada: por momentos e sem pormenores.

 

(imagem – NASA)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 00:00

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