Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

01
Fev 13

As palavras servem para justificar muitos actos

Mas os actos não se concretizam apenas com palavras

 

Cais de Albufeira

 

Quando um dia cheguei a Albufeira para aí morar, ainda existiam na Praia dos Pescadores barcos, apetrechos e claro está pescadores. Estes no entanto já eram obrigados a partilhar o local de trabalho e de sustento de toda a sua família, com a invasão anual de milhares e milhares de turistas sobretudo na época das férias do Verão, que os transformavam – num momento lúdico e de diversão de um espectáculo (tipo feira popular) onde os turistas eram espectadores – em personagens fictícias de um mundo virtual, criado durante três meses do ano para entreter a bolsa de milhões de incautos viajantes.

 

A zona do cais já não era bem como a da foto mas ainda lá estava o mercado do peixe – todas as manhãs cheio de vida e de movimento constante – a tasca do Viegas – com a sopa apetitosa e quentinha de grão e de massa da D. Ana e os seus deliciosos peixinhos fritos – e a rua que vindo do lado do jardim da parte velha da cidade – posteriormente esmagado sobre toneladas de cimento – passava de seguida pela frente do café Oceano – como era bom tomar uma amarguinha debaixo dos primeiros raios quentinhos da manhã – e ia dar às casas de apoio aos pescadores, encostadas à arriba protectora do farol do Pau da Bandeira.

 

Hoje Albufeira não passa de mais uma nódoa urbanística a juntar a tantas outras que preenchem a paisagem algarvia, idealizada por um punhado de arquitectos e engenheiros vendidos à legião do cimento e da construção civil – com as câmaras a exigirem o seu dízimo e reverência prática ao seu Presidente – e que por dinheiro seriam capazes de emparedar o Algarve entre duas grandes muralhas de apartamentos turísticos e com o mar de preferência no meio delas. O povo lá vai vivendo como pode e com o avanço avassalador dos efeitos da crise – aliado a um Estado que se alheou deliberadamente das suas responsabilidades, muitas delas criminosas – poucas soluções lhe restam para sobreviver: emigrar ou desaparecer! E assim se mata a memória de uma terra e se viola a cultura de um povo, sem o mínimo respeito pelos nossos antepassados (que nos criaram) nem pelos nossos filhos que abandonamos à sua sorte.

 

Praia dos Pescadores

 

Hoje em dia os pescadores e todo o cenário envolvente desapareceram definitivamente do local. Só lá ficou o mar, a areia e um ou outro edifício antigo salvo das ruínas e reconvertido à restauração. Já não é do meu tempo a utilização da praia e do cais para o transporte marítimo de mercadorias – no passado a indústria pesqueira e conserveira tinha um peso enorme no sustento de muitas famílias algarvias que tinham apenas como alternativa o também duro trabalho no campo – mas ainda me lembro do colorido que os barcos davam à praia, dos pescadores a repararem as suas redes de pesca – enquanto punham as suas conversas em dia e preparavam uma caldeirada bem fresquinha – e até dos gatos que todos os dias marcavam encontro com eles e com eles gostavam de morar – muitos deles nas casas de apoio – trabalhar – ao limpar a praia dos desperdícios da pesca e dos ratos invasores – e até conviver.

 

Os interesses mudaram, as pessoas mudaram e o casario mudou. Tudo se alterou. E passados mais de vinte anos sobre a minha chegada, esta terra começa a estar irreconhecível mesmo para os que cá não nasceram e até as pessoas que connosco partilhavam a vida foram partindo, morrendo ou desaparecendo. Ainda me recordo como se fosse hoje – terão passado no mínimo uns dez anos – da realização de um conselho de turma em que os professores analisavam o caso de desinteresse e abandono escolar por parte de um jovem (e rebelde) aluno: chegaram à brilhante conclusão de que a sua desmotivação e rebeldia se devia a uma desintegração crescente do jovem no ambiente geral da sociedade que o envolvia e que muito dificilmente seria travada e evitada. O jovem nascera e sempre residira em Albufeira, adorava a terra onde vivia, era filho de pescadores e queria continuar a arte e a vida de seu pai e do seu avô – mas tudo estava a ser destruído e abandonado e ele nada podia fazer; os professores eram esmagadoramente todos de fora e não o reconheceram, condenando o jovem por omissão e por além disso nada fazerem. Quem era aqui afinal o elemento desintegrado? E quem é que ajudou a que se consumasse este acto?

 

(imagens – google.com)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 15:33

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