Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

30
Ago 13

“O lenhador perdeu-se no início desta história virtual porque estava a operar e a trabalhar com concentração e afinco, não tendo tempo disponível para actividades supérfluas e não reprodutivas de mais-valia: é que tudo o que está para além do pensamento e da acção é naturalmente subversivo”.



Equilíbrio & Sustentabilidade

 

Um dia o Capuchinho Vermelho foi visitar a avó que vivia sozinha numa casa perdida no meio da floresta. A avó gostava muito da netinha que era sempre muito atenciosa com ela e que sempre que a visitava a presenteava com uns docinhos e com um cálice bem aviado do melhor Vinho do Porto.

 

Sabendo que era dia de vinda da jovem e bela aldeã, a avó resolveu então limpar o quintal e arrumar a sua casa, enquanto ia preparando a sua saborosa sopa toda feita à volta duma pedra: com legumes delicadamente arrancados da terra, mergulhados na água fresca e límpida vinda da serra e envolvidos pelo sabor dos enchidos mágicos e tradicionais carregados de aromas poderosos e afrodisíacos, a pedra era apenas o ponto de equilíbrio e a referência catalisadora de todo aquela solução gastronómica.

 

O Capuchinho Vermelho saíra de casa pouco antes do amanhecer, pois pensara fazer um pequeno desvio no seu percurso habitual, não querendo no entanto chegar atrasada a casa da sua avó, que a esperava como tradicionalmente por esta altura do ano lá para o meio da manhã, certamente com algo de aconchegante para aquecer e ao mesmo tempo se alimentar. No caminho tentaria ainda apanhar umas quantas plantas e ervas medicinais, muito apreciadas pelos seus efeitos anti-inflamatórios e analgésicos e que a sua avó não dispensava, agora que o reumático a atacava os ossos nos dias mais frios e húmidos.

 

Dizia-se que a simpática velhota sua avó era uma das poucas descendentes conhecidas e ainda vivas de um antigo caçador e embalsamador de animais natural da região, que um dia numa das suas inúmeras caçadas nocturnas abatera um animal bastante estranho e aterrador, que lhe fizera lembrar um homem mas com corpo de lobo: lobo em toda a sua plenitude física e emocional, enquanto ser vivo em harmonia com a natureza que o rodeava – percepcionando-a, sentindo-a e usufruindo-a; homem desarticulado, desmotivado e sem esperança de recuperação, enquanto objecto decorativo montado num falso cenário familiar e em derrocada acelerada, suportado exclusivamente num sonho futuro de felicidade duvidosa assente em crenças, dinheiro e prepotência divina.


O Lobo Mau e o Capuchinho Vermelho

 

No seu trajecto o Capuchinho Vermelho fez um pequeno desvio no cruzamento que ia dar à ponte sobre o rio, desviando à esquerda em vez de ir em frente e atravessando em passo acelerado a ponte que ia dar à gruta: desde a infância que frequentava este esconderijo secreto que ninguém mais conhecia e que um dia por mero acaso a Confraria dos Sete Anões lhe revelara e oferecera.

 

A gruta era apenas um local de passagem e de convívio utilizada pelos integrantes da Confraria que habitavam uma linda casa muito bem escondida e protegida no meio da floresta. A única dificuldade para chegar à gruta residia na constante alteração do cenário da paisagem que lhe era apresentada e que rodeava o caminho, que aparentemente se modificava cada vez que aí se deslocava, com uma densa e constante neblina que ainda mais confundia os sentidos dos viajantes e o seu sistema de orientação.

 

No entanto o Capuchinho Vermelho tinha um passe Dourado.

 

A avozinha tinha acabado o seu trabalho diário de todas as manhãs e sentara-se aliviada sobre a sua cadeira de balancé. Lá fora o dia estava com uma temperatura amena e acolhedora e sentia-se uma ligeira brisa vinda do lado das montanhas, que se viam lá ao longe com os seus cumes gelados a espetarem o céu, enquanto que o Sol caminhava vagarosamente para oeste. A neta já estava atrasada e a sopa a arrefecer. Poucas vezes fizera isso, mas ultimamente a avó já reparara nesses atrasos pontuais, apesar da pouca importância que lhe dera: os jovens eram todos irrequietos e sem horas a cumprir e agora que a jovem estava perto de alcançar a puberdade menos se devia ligar apenas ajudar.


O Lobo Mau em acção

 

O Lobo Mau andava no seu passeio diário para desentorpecer as suas pernas e apurar o seu olfacto, apreciando como habitualmente a beleza da floresta que sempre o acarinhara e concessionara, quando reparou que algo começava a perturbar os seus sentidos, introduzindo-se sorrateiramente pelo nariz e perturbando a sua calma organoléptica: ao fundo um cheirinho a especiarias, a legumes e a outros produtos que lhe provocavam água na boca, vinham dum modo ininterrupto a descontrolar a sua concentração e o seu sentido inapto de orientação, deixando-o num estado de fome e ansiedade. Só podia ser mesmo mais uma das habilidades culinárias e intrusivas da velha.

 

O seu nariz pontiagudo e olfactivo de puro caçador conduziu-o rapidamente até à casa da velha. Pela janela viu que ela estava a dormitar na sua cadeira habitual, que o caldeirão da sopa já fumegava sobre o lume da lareira e que se encontrava sozinha, apenas com o gato remeloso aconchegado no seu colo e acompanhada por um jovem rato que se passeava perto da panela. A fome apertava e a sua resistência ao aroma subtil e profundo que o penetrava era demais para as capacidades de resistência animal: saltou pela janela entreaberta e dirigiu-se para a lareira onde a panela da sopa da pedra o chamava, clamando pelo seu nome. Mas num instante o João Ratão saltou imprudentemente sobre a borda da panela, falhou o salto mal calculado e chiando como uma ratazana caiu lá dentro e morreu: “sopa de rato é que não” pensou o Lobo azarado. Ou não!

 

Em desespero – e enquanto a velha dormia, sonhava e suspirava – saltou como um predador para cima dela, abafou-a debaixo do seu corpo, sentiu a carne desta a estremecer em convulsões atractivas e repulsivas sob o seu corpo peludo e sem hesitar devorou-a, degustando até ao tutano o maior e mais saboroso osso da velha, a deliciosa coluna vertebral. Sempre ouvira dizer que para além da cabeça e dos membros – incluindo o SDE (sistema directo de erecção) – também existia o tronco. E no torpor anestesiante dum prazer totalmente consumado adormeceu esquecendo que para sobreviver teria que estar sempre alerta e atento e usar o método preservativo.


Arbustos atrás dos quais se escondia o Lenhador

 

E foi assim que o Capuchinho Vermelho chegou a casa da avó, encontrando-a a dormir profundamente e sem que esta notasse a sua presença. Descarregou o seu saco com as coisas que trouxera para a avó, comera uma rica sopa bem quentinha e deliciosa e finalmente fora acorda-la: já eram horas de almoço e ainda tinham muito que falar.

 

Quando acordou o Lobo Mau teve uma pequena surpresa: o Capuchinho Vermelho olhava para ele muito espantada e de olhos arregalados, tentando levantar sem o acordar a manta que o cobria e procurando debaixo do tecido meio moído e roto nalguns sítios, uma explicação satisfatória para o aspecto que a avó apresentava, toda escarrapachada ao comprido na sua típica cadeira, com uma cara estranha e nunca por ela vista que mais parecia um focinho e apresentando contrariamente ao que devia suceder na sua idade, uma boca de dentes vigorosos, afiados e salientes. Com pelos de tal forma abundantes, que nem se notava o seu conhecido e abastado bigode; e de tal forma estava alterada a sua imagem que de tanto querer ver a avó nem se apercebeu que diante dela estava o Lobo Mau.

 

O Lobo Mau levantou-se da cadeira e para espanto do Capuchinho Vermelho não era a sua avó que ali estava, mas apenas um lobo para o jovem e ainda pujante fisicamente, como o pode comprovar imediatamente ao ver-se diante dele completamente nu, sobre as duas patas traseiras e nitidamente erecto. Naturalmente teria sido um choque para qualquer jovem da idade do Capuchinho Vermelho, posta perante uma situação de violência extrema consumada e adicionalmente podendo agora evoluir com a sua participação pessoal, para outro tipo de situações alternativas tipo “sexo, drogas e rock and roll”: e nessa já não cairia de novo especialmente desde que despachara com um pesado machado o atiradiço e viril lenhador e oferecera os miolos da sua cabeça vermelha a uma fêmea desesperada.

 

A cerimónia oficial de desagravo teve lugar na nova casa de diversões nocturnas BWSH (Bad Wolf Streap House) localizada por força dos decretos legais fora dos limites de protecção da aldeia e que já funcionava em pleno há mais de um mês, aproveitando as férias de Verão de muitos dos seus moradores e a passagem ocasional pela zona e pelos mais variados motivos de muitos visitantes exteriores. Estiveram presentes muitas das imagens que acompanharam a juventude da maior parte dos adultos que preenchiam e comandavam o mundo actualmente e que desde muito cedo os tinham influenciado decisivamente, de tal maneira que esse peso no subconsciente transportava constantemente os anseios desses adultos para projecções vivas, animadas e em movimento aos quais estes não eram capazes de resistir, introduzindo sem razão ou consciência cronológica oficial, os velhos e maduros marretas em corpos de jovens ingénuos, irresponsáveis e como fruta verde ingénua e ignorantes, sem a mínima noção dos medos e possíveis consequências imprevisíveis e incontroláveis, daqueles que procedem sem regras e limites dispensando os efeitos curativos da terapêutica sequencial dos armários. A ver e a salientar: além do Lobo Mau e do Capuchinho Vermelho também compareceram no acontecimento os Sete Anões – acompanhados como cola pelo Príncipe Encantado – a Gata Borralheira agora preocupada com o desaparecimento das suas novas sapatilhas NIKE, a Bruxa Má sempre acompanhada pelo seu aio que lhe transportava o precioso e reconfortante Espelho Mágico, os Três Porquinhos como colegas de aventura dum primo do Lobo Mau denotando perseverança mas com um acentuado atraso mental – quando a fome apertava pensava arranjar comida aplicando apenas um sopro provavelmente de mau hálito às suas potenciais presas julgando anestesiá-las – e muitos outros colegas do Mundo Real da Criança, tornado Virtual por violação sistemática por parte de adultos do seu mundo original, uterino, consciente e visualizador do verdadeiro objecto e da sua imagem, mesmo sem ter a necessidade de recorrer a qualquer tipo de espelho para uma nova recaracterização.  

 

E já a noite ia adiantada quando todos os bonecos regressaram a sua casa, ocupando cada um deles o espaço anteriormente ocupado pelos seus donos nas suas elaboradas brincadeiras e agora esquecidos e atormentados pelo desprezo a que tinham sido votados por subalternização do objecto percepcionado manualmente, face à mecanização e automatização do sujeito/objecto e simultaneamente devido à adjectivação abusiva de toda a sociedade, desde os seus tempos vivos até à passagem de todos os seus tempos designados como mortos.

 

“A partir duma imagem podemos construir um texto que mesmo que não tenha nada a ver com a estrutura escrita original, será sempre o reflexo duma realidade importante para nós, apesar de reflectida num espelho não identificado mas objectivamente pessoal e intransmissível, ao contrário dos vampiros, sanguinários e irreflectidos”.

 

(imagem – huffingtonpost.com)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 13:09

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