Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

07
Fev 14

Ficheiros Secretos – Albufeira XXI

(Mundo Sequencial – Transmissão Indiferenciada por Pulsação e Contacto)

 

“Acordei às oito no cumprimento do dever: duas horas depois abdiquei definitivamente dos meus direitos”. Simplesmente por Intervenção Exterior: Divina, Alienígena ou Humana.

 

Duas horas depois abdiquei finalmente dos meus direitos

 

 

Duas horas depois o meu despertador tocou o alarme: eram agora seis horas da manhã. Mas o quadro que me rodeava deitado na cama no meio da penumbra do quarto parecia-me algo estranho e deslocado: pensava que era um pouco mais tarde do que a hora que o relógio indicava e tinha a sensação de que já o ouvira a tocar antes. Mas na verdade o despertador só estava programado para as seis ou para as oito. Acendi a luz do candeeiro e pus-me a olhar para a janela: lá fora ainda era de noite e não se via ninguém a circular. Levantei-me e dirigi-me até à cozinha. Ao passar perto do hall de entrada a campainha exterior soou e alguém bateu ao de leve do lado de lá da porta, chamando-me com um sussurro pelo meu primeiro nome. Ainda um pouco confuso com a situação e dada a insistência na minha presença, ignorei um pouco a minha segurança e lentamente abri a porta: três elementos parecendo fardados esperavam-no à sua porta, apresentando-se como pertencendo a uma organização governamental de segurança ambiental e solicitando para que eu os ouvisse. Espantado com esta situação que agora vivia e presenciava, nem me lembrei sequer de me opor à sua entrada: sentaram-se os três no amplo sofá da sala – um dos elementos era do sexo feminino – abriram os fortes sobretudos que os protegiam talvez de frio – e aí eu reparei nas armas que transportavam consigo – e logo foram ao assunto que ali os tinha trazido – eu. Segundo a sua apresentação inicial a terra donde os três vinham não seria a minha, não deixando no entanto as duas de pertencerem à mesma Terra. Logo aí fiquei ainda mais confuso e comecei de imediato a perguntar-me no meio de quem me teria enfiado: já antes tinha deixado em pleno bar alguns amigos bem despachados e não era agora que tinha vontade de os ouvir. No entanto eles continuaram com uma conversa que não consegui acompanhar na sua totalidade, em que falavam dum acidente que iria cronologicamente ocorrer dentro de muito pouco tempo e que poderia ter consequências terríveis para uma das linhas reprodutivas e evolutivas fundamentais do que seria a base da humanidade futura: e eu faria parte dum desses links fundamentais a preservar antes da concretização temporal desse acidente, razão pela qual justificavam a sua presença no local e a necessidade urgente de darem início à sua intervenção preventiva. Apresentaram-se então a Máxima – muito parecida com uma miúda com a qual trocara alguns olhares no interior da Universidade – e explicaram-me de seguida o que tínhamos que fazer. Resumidamente e para não causar muita confusão, o que me diziam e pediam que fizesse era apenas isto:

- Os três elementos ter-se-iam deslocado do seu futuro para o meu presente – que pelos vistos pertenceriam ao mesmo mundo e sequência – com o único objectivo de manter intacto no seu futuro uma ligação aparentemente imprescindível para o funcionamento das suas estruturas e que por diversas ligações e cruzamentos iam dar a um ponto do passado em que ele era o foco assinalado na sequência genética a defender. A Máquina Preservadora havia detectado uma possibilidade de incidente numa das curvas passadas do tempo, como consequência da tentativa de intrusão agressiva no sistema de segurança da base de dados centrais, que se suspeitava ter sido bem sucedida e poder estar relacionada com uma tentativa de eliminação dum ramo inteiro dum grupo de orientadores importantes, tentando criar o caos social e uma janela de oportunidade para a concretização das suas ambições no futuro de onde vinham. Mas sendo ele o ponto vermelho assinalado como o mais que provável foco deste incidente passado, os técnicos vindos deste futuro em perigo e sequencial e desconhecendo a data dessa intervenção intrusiva (que deveria estar mesmo muito próxima), só viam a aplicação dum método preventivo directo e contando com a presença dos dois principais interlocutores, como a única solução viável. Então desisti de vez de compreender o que se estava na realidade a passar e enquanto dois dos elementos abandonavam o apartamento dirigi-me pela mão de Máxima para a cama do quarto. O espaço-tempo de sexo foi de mais e acho que foi a partir daí que cheguei à conclusão que tinha mesmo de conhecer a miúda com a qual trocara olhares na Universidade.

 

Abdiquei provavelmente de muitos momentos de felicidade, mas aquele não sabendo bem porquê, parecera que sempre fizera parte de mim: só que não percebia muito bem se tinha sido pelo momento passado, se por outra coisa qualquer que me sugerisse algo no futuro, que não conhecendo ainda parecia querer dizer algo. O corpo dela ainda se enrolava quente e ávido em torno do meu, tentando puxar-me de novo para a luxúria e para a volúpia contorcionista dos nossos corpo ávidos de contactos e de novas e poderosas sensações, quando repentinamente me desequilibrei, cai da cama e acordei: eram oito horas da manhã.

 

 

Finalmente chegara o dia em que eu previra antecipadamente que caíra no chão proveniente desta cama traiçoeira: os lençóis tinham a tendência para caírem sempre para o mesmo lado – talvez por ser por este lado que na maior parte das vezes entrava na cama – enquanto o colchão se deslocava em sentido contrário, criando uma ligeira depressão susceptível de causar acidentes. E eu tinha caído num deles e batido mesmo que levemente com a cabeça no chão: estendido no soalho sob a acção dos primeiros raios do Sol que atravessavam a janela e que pareciam já querer começar a trabalhar em módulo extra, aquecendo o meu corpo e despertando-me a alma, comecei progressivamente a recordar-me do sonho vivido na noite passada, lembrando-me do tempo passado com a gostosa e simpática “miúda da universidade” e dos seus dois acompanhantes, ausentes da cena principal mas pertencendo ao grupo dela. Parecia tudo tão real neste sonho persistente e incoerente, que a própria realidade ambiental que me envolvia ainda mais me confundia – sentimento causado por uma mistura sem critérios de todos os parâmetros de tempo e de espaço envolvidos, mas nem todos descortinados e compreendidos – dado esta ser para além do mais sempre a mesma, mas com algumas alterações pontuais (de imagens) projectadas. Dirigi-me à casa de banho e fui molhar abundantemente a cabeça para ver se arejava a mente e organizava um pouco mais as ideias: as pessoas começavam já a aparecer nas ruas e a vida regressava de novo à cidade. Pensei em arranjar-me e ir dar um salto até à Universidade. Certamente que os meus amigos me iriam contar o que tinham feito no resto da noite após os deixar, tal como eu estava ansioso por lhes falar desta minha experiência. Foi aí que notei no quarto dois pequenos detalhes que me despertaram a atenção: a cama estava fora do sítio e mais desarrumada do que seria normal e junto a ela, já encoberta pela placa que quase ao nível do chão suportava o colchão, encontrava-se uma pequena bolsa que não era minha contendo pequenos objectos e uma identificação com retrato – a imagem da miúda que agora não me largava.

 

Dos meus direitos pelos vistos ninguém queria saber. Telefonei para alguns dos meus amigos e ninguém me atendeu. Tentei ligar o computador mas a rede apresentava-se sempre “não acessível”. Se antes o cenário ilusório dos sonhos me proporcionara momentos agradáveis e repetíveis, a realidade pura e dura que eu agora percepcionava pouco se importava comigo, muito menos com os meus inoportunos e inconfessáveis desejos: tinha que me desenrascar sozinho e esperar que o guião se melhorasse. Liguei então a TV e apanhei-me a olhar fixamente para uma notícia transmitida por um canal informativo local, que se referia ao avistamento nos últimos segundos de um pequeno meteorito atravessando os céus em direcção ao centro da cidade. Desloquei-me até à janela e pus-me a olhar para os céus: o Sol já iluminava a cidade e em todo o seu redor o céu apresentava-se claro e azul, prenúncio de mais um dia de bom tempo e duma vida agradável. Do lado oposto surgiu um pequeno rasto luminoso, acompanhado dum ruído em crescendo, muito semelhante ao dum avião. Em menos de dez segundos o objecto que atravessava os céus explodiu, lançando dezenas de fragmentos em todas as direcções e provocando múltiplos impactos sobre a superfície que agora atravessava. A sua grande maioria não trouxe consequências significativas para a cidade, mas três fragmentos de maiores dimensões ainda atingiram zonas industriais e habitacionais: dois deles com locais de impacto situados muito próximos um do outro e atingindo uma fábrica abandonada e um bloco de habitações em construção e o terceiro mais grave além de bem visível e que teria provocado algumas vítimas num prédio habitacional no centro da cidade.

 

Fim da 2.ª parte de 3

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 01:19

07
Out 13


O espelho exerceu desde sempre um grande fascínio sobre o espírito humano pois gera um espaço de ambiguidade: a imagem que reflecte é simultaneamente idêntica (ainda que invertida) e ilusória. O espelho assume, assim, sentidos radicalmente opostos: representa a verdade (símbolo mariano) e a aparência (símbolo demoníaco). A crítica de Platão (427-347 a. c.) sobre o simulacro assenta precisamente nesta relação entre o objecto real e o seu enganador reflexo. Inscrito no campo animado da experiência e da actividade psíquica, o espelho veicula o sentido de verdade equívoca, sendo considerado “o símbolo por excelência do Simbolismo”. (Michaud, 1949). Nesta medida, assume uma função estética de destaque em todos os campos artísticos. (Espelho – Tomás Baêna – Filosofia da Arte)

 

Ficheiros da Desintegração

As Necessidades Extraordinárias do Gato Tobias

(sob critério SMALL)

 

Recolha de indícios, de lacunas e de outras descompensações, entre os mundos imaginados e a realidade dos humanos.


A Negação de São Pedro

 

  • Ideias

 É a sucessão da criação de espaços diversos e renovados que suscita a falsa noção de tempo, quando na realidade apenas nos referimos e por associação, ao Movimento desses espaços em constante transformação: é que só existe Matéria e Energia e aquilo que as une não é decididamente a velocidade – variável dependente do tempo e como tal um parâmetro abstracto – mas a dimensão espacial do Salto realizado. No fundo só temos que nos projectar no espaço e instantaneamente teletransportarmo-nos por sobreposição para a nossa imagem, como fiel reprodutora do nosso object(iv)o original. E o que seria então o tempo, se a morte não existisse? Certamente uma monotonia, que nunca teria existido.

 

  • Tobias o ET

 O Tobias era um gato de meia-idade nascido numa noite de Verão no sul de Portugal, filho duma gata selvagem que resolveu dar à luz junto do muro de nossa casa e que um dia se escapou de junto dos seus irmãos, aparecendo perdido e esfomeado já no interior da nossa cozinha: curioso e atrevido aproximou-se sem medo de nós como se já nos conhecesse, roçou-se pelas nossas pernas, ronronou um pouco e logo à comida. Acabamos por ficar com ele não só por ser pequenino, engraçado e desenrascado, mas principalmente pelo agradecimento que nos demonstrou a seguir: virou-se para nós ainda a lamber os beiços com a sua língua bem comprida, “dizendo” para nosso espanto e para quem o ouviu e compreendeu, “obrigado patrão”. Com o seu miar imitou espectacularmente a voz dum humano e logo a Diana e a Daniela lhe deram o nome de Tobias, o ET: “de certeza que o gato tinha vindo do espaço para cumprir uma missão importante no nosso planeta”, disse então a mãe a sorrir.

 

  • As Ideias do Tobias

Geologia da Terra

 

Estávamos no primeiro dia de aulas e em casa tudo estava acelerado. Os pais já se tinham levantado há muito tempo, já tinham posto a casa em ordem da bagunça do dia anterior e até tratado do mais que importante pequeno-almoço, retemperador e calórico e obrigatório para toda a gente. Até o gato Tobias andava irrequieto com todo aquele movimento anormal, correndo dum lado para o outro meio louco e sem parar – para descarga da sua transbordante energia e alegria – e até subindo as paredes da casa, nas curvas mais apertadas do corredor.

 

Eram oito da manhã duma segunda-feira amena e de céu brilhante, quando todos saíram de casa enfiados numa 4L e se dirigiram até cada um dos seus respectivos depósitos institucionais: dois ficaram na escola, um ficou-se pelo mercado, outros dois seguiram para o emprego e até o pobre cão foi prestar voluntariado, ajudando a vizinha velhinha e fazendo-lhe companhia na horta. Em casa os gatos ficaram livres dos donos e sem alguém no controlo da situação, continuaram a sua implacável destruição: afinal de contas constava-se que eram irracionais e ainda por cima independentes.

 

Às dez já a Diana e a Daniela abandonavam a escola, com os alunos ainda sem aulas e sem os desejados professores e com estes últimos a aguardarem na bicha autorização de colocação: a bicha já se estendia por uns bons pares de metros num dos cantos exteriores do mercado, onde ainda há poucos dias se fizera uma outra concentração popular, mas aí para a distribuição de roupas e de alimentos a famílias necessitadas. Sem saberem o que fazer lá se decidiram ir até à zona do Mirante do Rossio, comprando no caminho um sumo e um pastel e indo ver como estava o mar azul de Albufeira. E foi perto do elevador que descia até à praia do Peneco, que as duas irmãs repararam que no areal lá em baixo um número considerável de pessoas pareciam rodear algo que não identificaram – caído e coberto com um tecido sobre a areia – curvando-se curiosas a observá-lo e não deixando espaço para espreitar.

 

Ficaram por uns minutos debruçadas sobre o muro do caminho que corria ao longo da falésia sobranceira ao mar, não conseguindo descortinar grandes pormenores que lhes indicasse verdadeiramente o que se passava. E como a escada de acesso à praia também estava bloqueada por obras e muitos mirones, decidiram contornar o problema – já que tinham algum tempo até à hora do almoço – dirigindo-se em passo acelerado até à Praia do Túnel e virando já no areal à direita em direcção ao rochedo do Peneco: já muito perto do rochedo e do ajuntamento de pessoas que tinham visto antes a partir do cimo da falésia, repararam que em dois ou três locais em seu redor a areia parecia ter afundado ligeiramente, apresentando um pequeno desnível num raio de dois a três metros, considerando um ponto imaginário como foco central. Nervosas as duas irmãs afastaram-se rapidamente desses pontos em forma de cone invertido, com medo de poderem ser engolidas e aí mesmo desaparecerem.

 

Aproximaram-se do local onde se situava a plataforma inferior da torre, no interior da qual circulava o elevador que transportava as pessoas entre a praia e o cimo da falésia, ficando as duas a olhar para a chegada dos bombeiros e de outros socorristas, que acabaram por levantar o tecido e contribuir para o fim do mistério: o que viram deixou-as espantadas e de boca toda aberta, vislumbrando-se do local onde se encontravam um buraco redondo na areia onde podia muito bem caber uma pessoa. Mas dali não se apercebiam da sua profundidade, o que as fazia tremer ainda mais de medo e desejar sair dali o mais rapidamente possível: se aquilo já era estranho, o que quer que fosse que o tinha provocado, certamente ainda mais esquisito seria.

 

Os pais da Diana e da Daniela acabaram por saber por colegas de trabalho o que se estava a passar na praia, até porque tinham ouvido a meio da manhã a sirene dos bombeiros a tocar: as pessoas falavam dum buraco bastante profundo descoberto na praia junto ao rochedo do Peneco, com algumas delas a comentarem desde logo o bizarro fenómeno e associando-o a quase tudo, desde as várias grutas subterrâneas – conhecidas e desconhecidas – que se distribuiriam pela zona litoral do concelho de Albufeira, passando pelo anterior abatimento – ocorrido ainda este ano – de parte do areal numa zona muito restrita da praia de Quarteira e chegando até à elaboração de teorias sobre a presença de extraterrestres no local, os quais seriam os únicos responsáveis pelo aparecimento daquele buraco no areal daquela praia.


O cão de Tobias

 

Ao meio-dia as duas irmãs já esperavam pelos pais à porta do café do mercado. Ainda comentavam com os colegas ali presentes aquilo que antes tinham visto na praia, quando eles chegaram: afinal de contas elas tinham visto o buraco ao vivo e tanto elas como os colegas não tinham resistido ao relato desta história fantástica e misteriosa – e com a realidade, logo ali tão perto. Só não podiam comentar com os seus pais, que nem imaginavam onde elas tinham estado antes.

 

No entanto todos falaram disso durante a hora do almoço, com os quatro e o tio Jorge debruçados sobre os seus pratos, mas sem deixar de participar no intrigante e acalorado diálogo. Os pais no final do almoço foram de seguida para o trabalho, com o tio a acompanhá-las até chegarem a casa e dirigindo-se de imediato a casa da velhota para recolher o cão das miúdas. Entraram em casa e foram logo ligar a televisão, com o Tobias muito atento a vê-las correr entre a sala e a cozinha ao mesmo tempo que iam vendo TV, enquanto comiam um pastel de natas e espreitavam para o computador: no facebook um colega de escola falava já na evacuação da praia.

 

O cão era um rafeiro que um dia tinha sido acolhido em casa, entregue às irmãs por um dos seus vizinhos de então, numa das muitas buscas que no passado tinham feito por causa do Tobias. Na altura ainda muito novinho e sempre com a mania de fugir até ao jardim para brincar com tudo o de vivo e com movimento que encontrasse, era com muita regularidade que o gato aproveitava por vezes a distracção de todos para se escapar para o exterior, deixando as irmãs sempre muito preocupadas e aflitas, pois como era muito novo e irrequieto facilmente se poderia afastar demasiado de casa acabando por se desorientar e perder. O que para as irmãs era impensável e impossível de suceder, pois para elas seria sempre possível que algo de mau pudesse acontecer-lhe e isso jamais elas permitiriam. Daí as constantes saídas destas na sua procura e o acaso do encontro e posterior adopção do pequenito rafeiro, perdido e sem dono. O nome escolhido e unanimemente adoptado por todos – além de sugerido pelo tio Jorge e decidido pelo gato – foi simplesmente e duma forma britânica e não redutora, DOG (referindo-se ao cão do Livro de Tobias). E por associação dirigida – mais uma vez por acção indirecta do gato – à sua imagem reflectida no espelho: GOD.

 

As aulas acabaram por volta das cinco da tarde. Como não tinham nada de importante a fazer e ainda por cima os pais só chegariam lá para as sete, resolveram não ir logo directamente para casa, onde o tio as esperava para o lanche e foram com os colegas ver como estava o buraco. Desde que tinham entrado nas aulas da tarde tinham perdido o fio à meada e convinha porem-se de novo actualizadas com o que se estava a passar. No cimo da falésia o número de curiosos era bastante elevado, impedindo-os mesmo de olhar para o areal situado abaixo e ver o que ali se passava: o local parecia um circo, com os espectadores nas bancadas a olharem atentamente para o que se passava lá em baixo, enquanto ao mesmo tempo e trocando impressões e sugestões sobre o acontecimento que iam visionando, bebiam uns sumos e umas cervejolas. O filme era o buraco, que apesar de não ser visível das filas de trás, era fortemente apontado pelo público, não só pela sua estranheza mas também pela sua dimensão. O que se comentava agora entre os espectadores mais comunicativos e efusivos com este inopinado acontecimento que tinham estado a presenciar, era o que aconteceria daqui a algumas horas quando a maré começasse a subir: engoliria o buraco toda a água que ali chegasse ou seria que algo fora do comum sairia dali disparado com a presença desta? Mas antes de poderem ver ou compreender algo mais, o tio Jorge telefonou-lhes deveras chateado com a ausência de ambas e logicamente tiveram de ir para casa.

 

O gato Tobias não era um gato qualquer, mas apesar da sua compostura e sabedoria fora do normal que com alguma atenção e independência mental qualquer um de nós poderíamos facilmente constatar, os seus donos talvez como medida de protecção e segurança contra as mais que prováveis bocas irónicas e provocatórias dos outros, nunca o tinham querido reconhecer: afinal de contas era um ser irracional, locomovia-se na horizontal e ainda por cima não sabia falar. Quanto ao cão do Tobias era um ser prestável e sociável, algo lento na acção e um pouco confuso nas suas etapas sucessivas de compreensão, mas muito útil em trabalhos mais pesados e que envolviam a massa muscular: em resumo um bom amigo e uma utilíssima companhia, sem necessidade de ser um estranho assalariado, maltratado e mal pago.

 

Após o jantar o resto da noite foi passada a realizar as últimas tarefas ainda por cumprir, acabando todos por se retirar ainda antes das onze da noite para os seus aposentos e aí se entretendo a ver as últimas notícias e novidades chegadas pela Net, com o particular interesse de ver se falavam do estranhíssimo buraco que entretanto surgira na praia. Mas nada lhes chegou aos ouvidos enquanto pesquisavam na Web, na rádio e na TV, acabando todos por adormecer levados por mais um dia cansativo de trabalho – para os adultos – e de aventura – para as crianças e restantes animais. Porém para o Tobias a noite ainda mal começara.


O Buraco

 

Como já era habitual, à medida que se aproximava o fim-de-semana e o cansaço acumulado no trabalho aumentava exponencialmente – tornando-se mesmo insuportável e irresistível ao poderoso sono redentor – por vezes o pai das duas irmãs acabava por adormecer em frente da televisão, ficando a dormir no sofá e continuando com a TV ligada toda a noite. Nessas alturas e quando não tinha nada para fazer ou o tempo frio e chuvoso não propiciava as condições ideais para sair, o Tobias gostava muito de se esticar ao longo do sofá, deixando-se levar pelas imagens que iam saindo do aparelho. Com o tempo fora-se habituando a algumas séries que iam passando periodicamente na TV e até já estabelecera mentalmente uma lista de prioridades para os programas: ultimamente deliciava-se muitas das vezes a acompanhar séries científicas como as que passavam nos canais Odyssey e Discovery – o canal History só quando se queria divertir com as estranhas teorias alienígenas e conspiracionistas dos humanos e do que eles imaginavam que os estrangeiros quereriam deles – estando desde a semana anterior a acompanhar sempre que podia e duma forma fiel e pontual, uma série irreal, extravagante e fora do comum, mas que o tocava profundamente como era caso de “The Walking Dead” – especialmente pela capacidade ilimitada que o Homem demonstrava na sua luta diária pela sobrevivência, mesmo em ambientes difíceis e inimagináveis: seria essa capacidade mesmo real e um factor intrínseco ao seu processo evolutivo ou apenas mais uma demonstração inequívoca do seu processo degenerativo e que o levaria à extinção? É que a violência acabava sempre por estar presente em todos os actos significativos em que participava, sobrepondo-se invariavelmente a todos os outros sentimentos e suas respectivas aplicações práticas.  

 

Na garagem o cão ia escavando persistente e metodicamente em volta do monte de entulho que se amontoava num dos seus cantos, tentando criar um desequilíbrio na sua base que provocasse a derrocada de tudo o que se sobrepunha quase até ao tecto. A estratégia adoptada pelo cão tinha sido muito boa e o Tobias esperava que dentro de poucos minutos todo o monte entrasse em derrocada, espalhando todo o seu conteúdo a céu aberto sobre o chão circundante: assim seria muito mais simples e rápido de encontrar o velho skate há muito tempo abandonado pelas irmãs das suas brincadeiras juvenis e que o Tobias procurava encontrar no mais curto espaço de tempo, para o utilizar já na sua próxima missão nocturna. Encontraram o skate de imediato, transportando-se para o outro lado da garagem perto da porta elevatória de acesso ao quintal, local onde o seu dono guardava as ferramentas e onde o Tobias escondera o dispositivo, num esconderijo (indetectável) localizado na parede junto ao interruptor do ponto de luz colocado sobre a bancada de trabalho e onde ninguém suspeitaria de nada. Aplicado o dispositivo na parte inferior do skate saíram da garagem, dirigindo-se para o exterior e fechando atrás de si o portão da casa, que agora os separava da protecção do ventre familiar e os libertava mesmo que temporariamente para as aventuras nocturnas e solitárias de dois nómadas irracionais mas não irreflectidos, à procura da aventura e do significado da vida.

 

Já passava da uma hora da madrugada quando retornaram ao Cerro de Malpique, onde tinham anteriormente e por precaução escondido o skate – não interessava nada as pessoas verem durante a noite um cão e um gato a empurrarem um objecto pela rua – antes de irem dar uma espreitadela até à Praia do Peneco e ver com os seus próprios olhos o que por ali se passava. O buraco lá continuava agora coberto por uma enorme lona, com a água da maré-alta a aproximar-se cada vez mais do local onde este se encontrava e contando ainda com a presença de alguns funcionários municipais e da protecção civil, que terminavam por esta noite o seu trabalho e a montagem duma forte barreira protectora que impedisse acidentes imprevistos com o crescente número de curiosos – agora em número cada vez mais reduzido e constituído essencialmente por estrangeiros em férias. Como ali não havia nada a fazer no momento e como o Tobias já suspeitava um pouco das condições particulares que tinham contribuído e proporcionado aquele abatimento de areias, decidiram abandonar o local e dirigirem-se de novo para o cerro onde recolheram o seu futuro transporte e se prepararam para a viagem.

 

Não era a primeira vez que o Tobias fazia a sua viagem até ao interior do Algarve. Numa consulta rápida à sua bio-agenda inserida no seu pequeno cérebro e localizada numa das suas zonas activas responsável pelo processamento inato das suas memórias, o gato apenas confirmou a realização dessa mesma viagem na altura – para si já de médio curso – como a sua primeira, com um itinerário que partia de Albufeira, passava pelo Castelo de Paderne e terminava na vila de Alte, com a visão da Rocha da Pena (com 480 metros no seu ponto mais elevado) lá ao fundo já em plena Serra do Caldeirão, entalada entre Alte e Salir. Partia agora mais uma vez, mas agora em direcção à Rocha da Pena, uma zona mágica tanto a nível histórico como geológico e talvez “o único relevo verdadeiramente vigoroso de toda a Orla Algarvia” (Feio). Os fenómenos ocorridos desde há tempos muito distantes sobre este relevo único do Barrocal Algarvio, eram uma boa hipótese de trabalho e de estudo a seguir, para qualquer curioso interessado nos efeitos da erosão sobre relevos de origem calcária. Mas para o Tobias o que verdadeiramente o atraía situava-se numa zona de fronteira entre o barrocal e a serra algarvia – o Algarve Calcário – num sector da serra virada para Salir e que apresentava um número apreciável de fracturas profundas no seu relevo, com ligações através de canais interiores e descendentes – criados pela força das águas que anteriormente aí circulariam – até grutas mais profundas, que segundo os seus arquivos de memória poderiam ainda hoje estar “transitáveis”, podendo mesmo terminar no mar.

 

A Terra era formada do seu interior para o seu exterior por três camadas concêntricas de materiais rodando a velocidades diferentes, que se estendiam desde o seu núcleo central (1.º) constituído por ferro no seu estado sólido e apresentando um raio de 2.400 quilómetros de diâmetro (e temperaturas na ordem dos 6.000 °C) – dispondo complementarmente de um núcleo externo líquido, com um diâmetro de 7.000 quilómetros – até à fina e exterior superfície do planeta, que representava a crosta terrestre (3.ª). No meio estaria o manto (2.ª), uma camada constituída por inúmeros e aparentes “rolamentos”, que diminuíram o atrito provocado pelo movimento e contacto entre placas. No caso específico das elevações calcárias do barrocal algarvio como a da Rocha da Pena, esta apresentava uma curiosidade particular e exclusiva: terminar num planalto com cerca de dois quilómetros de comprimento. Apresentando fracturas provocadas pela acção erosiva e persistente das águas sobre o frágil material de origem calcária e dando origem ao aparecimento de canais e de grutas subterrâneas: como seria a gruta do Algar dos Mouros localizada no cimo da Rocha da Pena, local onde se teriam refugiado os mouros fugitivos após a conquista de Salir por D. Paio Peres Correia.

 

Ligado o dispositivo electromagnético colocado anteriormente sob a superfície de fibra que suportava a estrutura do skate, este começou a planar sob o terreno. A criação dum campo electromagnético pluridireccional, anulara não só o efeito exercido pela força da gravidade sobre o skate e seus potenciais passageiros, como também pusera ao dispor de ambos – do gato e do cão – de um meio de transporte super-rápido e económico, aplicando duma forma simplificada um único momento propulsor e aproveitando em exclusivo os efeitos da inércia, suscitados por efeitos reflectores e electromagnéticos criados. Em poucos minutos estavam à entrada da pequena Aldeia da Pena.

 

Fim da 1.ª parte de 8

 

(imagens – WEB)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 20:09

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