Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

20
Set 16

Diga o que disser o Porto foi a cidade onde nasci. Da janela do sótão da casa onde então habitava (a janelinha do Douro) podendo vislumbrar entre uma floresta de árvores vivas e verdejantes (quase que lhe sentindo o cheiro), o rio Douro serpenteando como um jovem réptil entre as suas duas margens certinhas e curvilíneas ainda antes do Palácio do Freixo (projetado no século XIX pelo arquiteto italiano Nicolau Nasoni).

 

Vindo do lado da Ribeira e após transpormos o rio Douro atravessando a plataforma inferior da ponte de D. Luís (na superior circula agora o metro ligando o Porto a Gaia) entramos na moderna área de restauração alternativa à outra margem. Para um turista acidental (mas conhecedor da cidade) dando um banho à Ribeira e elevando o cais de Gaia a novo postal publicitário (da região Gaia/Porto).

 

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Barcos rabelos no cais de Gaia

Barcos construídos na altura para navegarem no leito dum rio Douro então muito mais agitado e por vezes movimentando-se entre margens abrutas e estreitas (em partes do seu percurso); utilizado para o transporte dos barris de Vinho do Porto da região vinhateira às caves de Gaia (até cerca de 100 barris); numa altura em que a região não dispunha de comboios ou de estradas só disponíveis para o final do século IXX; data que inicia o fim da utilização destes barcos para esta função concluída por volta dos anos sessenta (1964) e reconvertidos atualmente ao turismo – lutando selvaticamente contra os novos predadores (os novos barcos turísticos); pelo menos não morreram e como tal serão sempre recordados.

 

Com uma verdadeira Feira Popular plantada numa das margens do Douro, mas a um ritmo mais calmo um pouco do tipo Gourmet: pretensamente com bom aspeto (talvez pela surpresa do cenário inicial) mas sabendo a muito pouco (como um mero ritual de passagem). Com transportes, peões, pontes, mergulhadores, barcos de recreio, comida, bebida, helicópteros, artesanato e todo um mundo sem fim, carregado de animais e de muitos dos seus artefactos.

 

 

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Reserva Natural do Estuário do Douro

Talvez uma das zonas menos visitadas e conhecidas do estuário do Douro (para os aí residentes não certamente) e que pela sua beleza e enquadramento rio/oceano (pequena fronteira de areia estática separando parcialmente os dois enormes volumes líquidos e dinâmicos) nos deixa ainda alguma nostalgia do passado (afinal de contas já se trata de um reserva), face a uma certa selvajaria do presente (encoberta pelo progresso); numa iniciativa conjunta Gaia/Porto com menos de dez anos, tendo como objetivo proteger as aves e conservar este seu belo refúgio; como guarda-rios, garças-reais, papa-ratos, maçaricos-das-rochas, rolas-do-mar, tarambolas, seixoeiras, piscos-de-peito-azul e gaivotas.

 

Um rio nascido em Espanha e desaguando entre o Porto e Gaia após um extenso trajeto de cerca de 850Km (desde a serra de Urbião). Integrando a Região Vinhateira do Douro Património da Humanidade: com as suas barragens, a sua fauna e flora caraterística (aves, outros animais e vegetação), a topografia particular do seu terreno (com os seus montes, encostas e fragas), a sua gastronomia e claro como a água o precioso Vinho do Porto.

 

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Costa Atlântica na zona da Afurada

Na zona de contacto entre o rio Douro e o oceano Atlântico; integrando do lado da cidade Invicta o Porto de Leixões (o maior da região norte) e desde o Verão do ano passado o novo terminal de cruzeiros (com a construção a ser iniciada no segundo mandato de José Sócrates); do lado que mais me diz respeito (da Afurada até Espinho) até porque vivi no Porto e na terra dos vareiros (costa de S. Jacinto até Espinho), vejo logo a diferença entre passado e presente – não reconheço a terra nem mesmo os seus habitantes (passada uma só geração); num litoral pejado de gente, antes apenas com casas (para dormir e trabalhar) agora com diversão (para descansar e pensar); certamente melhor e por simples transformação.

 

Terminando o seu trajeto (desde Espanha) no Estuário do Douro, ao confrontar-se na foz com o oceano Atlântico. Num passeio que a partir do tabuleiro inferior da ponte D. Luís nos transportará desde esta margem do Douro até às praias do litoral, situadas mais a sul e até com um passadiço (incompleto?): por uma extensa marginal das Caves até Espinho (onde se localiza a Feira mas também o Casino – agora com o comboio definitivamente afastado).

 

(imagens: Produções Anormais)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 19:11
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02
Mar 11

Vila Nova de Gaia - Rio Douro - Porto

 

Nasci no Porto por volta da hora do almoço. Vivi com os meus avós maternos no Bonfim, muito perto do antigo Estádio das Antas e por vezes, à segunda-feira, lá íamos até à Feira de Espinho – era grande e tinha de tudo, desde ourivesaria, até à venda de animais – dando na hora do descanso, um pulinho até à outra casa. Nas férias passávamos lá o Verão.

Isto tudo a propósito do Porto, cidade de altos e baixos, difícil para qualquer ciclista. Veja-se o caso da Igreja do Bonfim, bem lá no alto, com Campanhã lá para baixo e o Rio Douro bem lá para o fundo. A casa tinha umas águas-furtadas onde ficavam os quartos das crianças e da empregada. De lá, de uma janela bem lançada no espaço, via-se um bom recorte da cidade, com o campo ainda a rodeá-la ou mesmo ainda nela presente, com os seus jardins, com o seu lago e uns tantos patos e cisnes dispersos. Nas traseiras da casa existia uma serração, onde entravam grandes camiões carregados de enormes troncos de árvores para aí serem cortados e transformados.

Frequentei a primária do Campo 24 de Agosto e ainda andei pelo Liceu Alexandre Herculano – acabando o liceu, já em Espinho, terra por essa altura ainda simpática, com os seus pescadores ainda na labuta do mar, com a sua industria ainda florescente e arrancando com firmeza na implantação de serviços para usufruto da sua população, ainda que de uma forma um pouco ingénua e sem projecto bem definido. Hoje já tudo isso se perdeu e a queda definitiva do carisma que esta cidade poderia mais tarde alcançar, está bem reflectida no acto criminoso de aos poucos se ter destruído a Feira de Espinho sob pretextos impensáveis e ainda do nojo arquitectónico em que se tornou a passagem do caminho-de-ferro pelo centro da cidade: será que tal coisa atrai turistas? Eles acham que sim, até porque já instalaram as suas tendas e barracas de comes e bebes. Depois, é só ir jogar no casino, bem lá à sua frente! Espinho tornou-se mesmo em mais uma daquelas terrinhas do litoral de Portugal, neste caso caracterizado pelos seus cruzamentos e ruas paralelas ou perpendiculares ao mar, enfiando-se por ele dentro e apanhando por vezes umas ventanias e humidades de arrasar.

Prefiro o Porto, e o Rio Douro correndo nas suas margens, com Gaia do lado de lá e o mar salgado do Atlântico, aguardando a chegada da água deste país, limpo e doce.

 

Foto "Natinal Geographic"

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 15:37
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