Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

26
Fev 13

Ficheiros Secretos – Albufeira

Realidade, Ilusão e Confusão: Todos Somos Tradutores Inaptos (de Outras Traduções?)

 

1. Introdução ao Pensamento do Mono Simão:


“A realidade é meramente uma ilusão apesar de ser uma ilusão muito persistente”

(Einstein)

 

“Uns escrevem e outros fazem traduções. Neste mundo somos todos potenciais tradutores, porque para escrever – mesmo com erros ortográficos e monstruosas calinadas gramaticais – é necessário ver, pensar e saber estar e nunca plagiar de uma forma mesmo que inovadora, um tempo abstracto e irreal – sempre pago com dinheiro falso e até com falsas virgens. Apesar de que um bom tradutor – desligando-se mesmo que inconscientemente do fio condutor do escritor – pode muito bem produzir uma obra alternativa e mesmo superior ao original”.

 

2. Pensamento que levou o Mono Simão a realizar uma viagem até às estrelas:


Viagem Exterior

 

As espécies só evoluem se aplicarem simultaneamente dois factores (inseparáveis) – espaço e movimento. O falhanço nesta aplicação origina o aparecimento de mutações, a degeneração e a posterior extinção das espécies e a sua substituição por réplicas não conformes com o original. E aí os nossos criadores deixarão de mostrar interesse no que aqui se passa e partirão para outra simulação – só nos restando abrir a porta da nossa casa como elemento físico protector e sairmos à procura da liberdade do mundo, situada para lá do limite das nossas janelas mentais.

 

3. História da Viagem do Mono Simão:

 

Na véspera do Carnaval o Mono Simão veio até minha casa mascarado de macaco, convidando-me a ir com ele numa viagem até às estrelas. Vinha com uma garrafa de medronho e um saco cheio de figos e enquanto colocava as coisas que transportava sobre a mesa da cozinha, mostrou o fato e a máscara que trouxera para mim: faria o papel de gorila atento, prevenido e de banana na mão. O meu nome era Chiclete e estava nesse dia acompanhado de umas amigas que trabalhavam numa reserva cinegética, situada nas redondezas de minha casa e dedicada ao tratamento de macacos e leões: uma era a alentejana Amendoim e a outra a italiana Pistáchio. À meia-noite saímos todos disfarçados e mascarados e dirigimo-nos a um lugar no campo conhecido como Discoteca, onde apanhamos um transporte não identificado que esperava por nós e que nos conduziu de imediato até à base de lançamento de naves espaciais, situada na proximidade de uma das mais activas pedreiras algarvias, adjacente a um grande complexo industrial – com as suas rampas de lançamento – e à Via do Infante. Vestimos então os fatos de astronauta sobre o nosso corpo de primatas e lá partimos num cruzeiro em direcção a Marte e Enceladus.

 

Marte – e a sua pedra brilhante

 

          

Marte

 

A nave dispunha de um sistema de refrigeração adaptável a cada uma das espécies que transportava, criando com a utilização desta super estrutura tecnológica todas as condições ideais de ambiente exigidas pelos seus múltiplos e ininterruptos utilizadores e contribuindo assim de uma forma decisiva – com este aspecto fundamental – para o sucesso de todas as missões a ela cometidas, de uma forma segura e com a aplicação de vários níveis circulares de segurança: parecia mesmo que estavam num ambiente terrestre, em conformidade com o expectável e de acordo com os parâmetros normais. Num instante já estavam a orbitar o planeta Marte – menos de oito minutos cronometrados pela Amendoim – e a apreciar pelo enorme visor disponível, a superfície avermelhada deste misterioso planeta. Mono Simão coçava freneticamente o pescoço, demonstrando um nervosismo repentino que eu não entendia. Amendoim e Pistáchio juntaram-se então connosco junto ao visor, perguntando logo o que é que se passava, face ao rosto preocupado do Mono Simão e à minha indefinição. De início parecia que Mono Simão não tinha ouvido a questão, mas alguns segundos passados o seu braço levantou-se lentamente, com o seu indicador a apontar algo que se encontrava no centro da imagem.

 

Chiclete e Amendoim foram os primeiros a abandonarem a nave e a dirigirem-se para o local onde se encontrava o objecto misterioso. Mexiam-se com facilidade no interior dos seus fatos epidérmicos de astronauta, que assentavam espectacularmente e como uma luva sobre os seus corpos agora bem expostos, fazendo realçar em cada um deles os seus melhores atributos físicos conhecidos e pondo à vista de todo o mundo os seus contornos corporais e musculatura associada – o que os ia excitando cada vez mais, só com a visão dos movimentos eróticos e corporais do sexo oposto, associados aos momentos de acção de toda a estrutura muscular e óssea associada à locomoção. O que viram à chegada ao local atrás referenciado desiludiu-os profundamente e foi com uma enorme tristeza que Mono Simão e Pistáchio pegaram no conjunto que constituía o artefacto e o colocaram na mochila transportadora: para mim e para a minha colega Amendoim o que ressaltava logo ali e à primeira vista era o forte odor de uma das partes – os fatos espaciais estavam equipados de detectores de odores, através da utilização de um transdutor sensorial – e a aparente inutilidade e funcionalidade da outra parte deste artefacto, que apesar de tudo e infelizmente aparentava ter algo de comum connosco.

 

No regresso à base marciana e após a sua chegada e entrada na sala esterilizada, Pistáchio retirou lentamente o artefacto da sua mochila, colocando-o sobre uma bancada e mostrando-o a todos os presentes. Os alienígenas presentes riram-se de imediato e numa algazarra de sorrisos e provocações constantes retiraram-se da sala e foram continuar a executar as tarefas normais do seu dia-a-dia. Na sala e para além dos quatro terrestres apenas ficou o psicólogo de serviço que não parava de olhar para nós de soslaio, enquanto ia registando no seu caderno algumas notas rápidas, ao mesmo que sorria para nós muito divertido. Mas afinal o que era, o que continha, o que representava o artefacto?

 

A bancada de trabalho com os seus diferentes níveis de percepção

 

Aproximaram-se todos do objecto colocado e exposto sobre a bancada e de imediato o forte e desagradável odor – oriundo da sua base de apoio – se fez sentir entre todos os presentes: parecia um objecto constituído por um qualquer tipo de metal (ou liga), que devido à acção de agentes externos actuando durante um longo período de tempo sobre ele se encontrava num estado adiantado de corrosão e desagregação – contínua e acelerada – lançando à sua volta um cheiro muito intenso e prolongado no tempo, com uma acção exercida sobre nós muito semelhante à do enxofre e com um aspecto visual muito parecido ao efeito provocado pela ferrugem. Essa base de apoio sustentava dois objectos idênticos na sua estrutura e forma, que se assemelhavam muito a duas lentes normais muito utilizadas em óptica. E foi precisamente isso que o psicólogo presente nos confirmou, indicando que estávamos diante de um tipo particular de extensão binocular, capaz de transformar a visão dicromática de alguns primatas em visão tricromática, tornando-os assim capazes de perceber três cores diferentes do espectro luminoso: o azul, o verde e o vermelho. E explicou que o sorriso deles não era por desrespeito para com eles ou para com os da sua espécie, mas sim pelo espanto e surpresa demonstrado pelos terrestres diante de um objecto para eles estranho e misterioso – veja-se o interesse dos técnicos responsáveis pelo envio das sondas a Marte, com pormenores particulares como o desta imagem na superfície do planeta – mas construído sem o saberem pelos próprios há muitos e muitos anos atrás: lembrou-nos que os primeiros primatas nossos antepassados tinham aparecido no nosso planeta há já uns sessenta milhões de anos – percorrendo diferentes etapas e caminhos na sua evolução – e que já outras civilizações entretanto desaparecidas de antropóides tinham atingido elevados índices de desenvolvimento técnico e estabelecido contactos privilegiados com civilizações extraterrestres, capazes de partilhar experiências e conhecimentos e de os convidar para visitas de estudo e amizade a estes territórios colonizados. O artefacto seria assim um objecto abandonado pelos nossos antepassados durante uma anterior passagem em Marte, num ciclo evolutivo já perdido e esquecido na nossa história e talvez obliterado definitivamente por um qualquer tipo de evento catastrófico entretanto ocorrido. “Era incrível. Quem diria que da Terra observávamos no longínquo planeta Marte, vestígios de artefactos terrestres utilizados pelos nossos ancestrais!” – pensou o Mono Simão.

 

Amendoim e Pistáchio ainda repararam por acaso num cartaz afixado numa das paredes da sala que as deixou logo excitadas com a sua descoberta, acabando por nos chamar com gestos rápidos e frenéticos e não descansando enquanto ali não chegamos. Era um poster publicitário de uma organização sediada na Terra e que dizia:

 

Colonização humana de Marte em 2023

 

 

Em 2023, a MARS ONE levará a humanidade a Marte. Lá, estabelecerá as bases de uma colónia permanente que nos ajudará a prosperar, aprender e crescer. Antes das primeiras equipes chegarem, a MARS ONE já terá instalado acampamentos habitáveis e sustentáveis, projectados para receber novos astronautas a cada dois anos. Para conseguir isso, a MARS ONE elaborou um plano realista e preciso, completamente baseado em tecnologias já existentes. Ele é economicamente e logísticamente viável, pois conta com fornecedores já em actividade e especialistas em exploração espacial.

Nós o convidamos a participar dessa jornada, compartilhando nossa visão com seus amigos, apoiando nossos esforços e, quem sabe, se tornando o próximo astronauta de Marte.


 

Deixamos Marte após uma conversa muito interessante tida com alguns elementos da equipa técnica e dirigente habitando aquela colónia. Entregaram-nos algumas cartas adicionais do Sistema Solar, indicando-nos a melhor opção para a nossa viagem até Enceladus e recomendando-nos veementemente a realização imediata desta nossa visita a este satélite de Saturno, para aproveitarmos para vermos ao vivo e em directo a criação e formação de um novo mundo, talvez produzido para nosso usufruto futuro e de muitas outras espécies vivas partilhando este e outros Universos.

 

Enceladus – a lua misteriosa de Saturno

 

          

Enceladus

 

Partimos em direcção a Saturno no nosso “veleiro solar” movido a fotões – baptizado com o nome de SPIN 1 e equipado com um prisma quântico – utilizando um processo revolucionário de propulsão de alta energia conhecido como pressão de radiação. A esta velocidade – 300.000km/s – e sabendo a distância que nos separava de Saturno – cerca de 1.300.000.000 km – deveríamos estar na sua periferia em menos de hora e meia. Passamos rapidamente pela Cintura de Asteróides, em direcção ao gigante do nosso Sistema Solar o planeta Júpiter – um planeta gasoso tal como Saturno, Úrano e Neptuno, considerado por muitos astrónomos como uma estrela falhada. Pistáchio ainda deu uma pequena espreitadela no monitor situado ao lado da mesa de comando da nave espacial e eis que lá já aparecia bem visível e saliente a tremenda Grande Mancha Vermelha – situada no hemisfério sul do planeta – fenómeno resultante de uma violenta tempestade a decorrer na sua atmosfera. Tivemos ainda o privilégio único de assistir a uma gravação espectacular da colisão do cometa Shoemaker-Levy 9 com o planeta Júpiter (ocorrida no ano de 1994) que provocou inicialmente o aparecimento de uma bola de fogo e que posteriormente levou ao surgimento de manchas na sua atmosfera provocadas por esse impacto. Foi uma visão do outro mundo! Só tivemos mesmo pena de não termos dado uma olhadela a uma das mais misteriosas luas de Júpiter – Europa – à procura da sua superfície e oceanos gelados e de alguns sinais de vida que muito provavelmente existiriam neste satélite. O Mono Simão chamou-nos então à atenção para a mensagem que tinha acabado de receber – originada nas coordenadas de Mimas – dirigida ao chefe de missão Chiclete – eu próprio – solicitando-nos que nos fossemos preparando para a última fase da nossa viagem e que arrancássemos desde logo com os sistemas automáticos de desaceleração e colocação orbital estacionária instalados no módulo VF. No centro do ecrã Saturno já aparecia bem visível – mas talvez com cores menos contrastantes comparando-o com as de Júpiter – com a sua estrutura envolvente de anéis e dos inúmeros satélites que o orbitavam.

Acabamos por aterrar em Mimas – no hemisfério virado de costas para Saturno – numas instalações situadas numa das muitas crateras, existentes à sua superfície.

 

Saturno, Mimas e Enceladus

 

Fomos recebidos pelos responsáveis locais que nos deslocaram de imediato para uma das suas salas de comando operacionais, onde nos puseram ao corrente da etapa seguinte da nossa viagem que nos levaria até Enceladus. Seríamos enviados a bordo de uma nave de carga adaptada, utilizada ocasionalmente para o envio de colaboradores e equipamento tecnológico de apoio e que nesta viagem teria a tarefa suplementar de acomodar confortavelmente no seu interior, seres vivos vindos de diferentes áreas do espaço e interessados no estudo da evolução e transformação (única) – e bem visível – que se estava a verificar nesta lua de Saturno. Ficamos logo todos entusiasmados – e um pouco nervosos – com o momento ímpar que iríamos viver: Amendoim e Pistáchio estavam de tal maneira envolvidas pelo ambiente de suspense que se criara, que acabaram por se abraçar emocionadas e quase que em lágrimas. No fundo nunca tinham estado em contacto directo com seres alienígenas muito diferentes da morfologia do nosso corpo humano – seríamos todos mutações de um ser comum original – e a possibilidade de conhecerem outros seres completamente diferenciados a nível físico ou mental, não deixava de os colocar num estado de alerta e de prevenção contra qualquer tipo de choque emocional. Passado algum tempo o Mono Simão apontou para a porta que se abrira no fundo da sala, onde um dos tripulantes da nave esperava pacientemente para nos conduzir de seguida a uma zona de lazer, comércio e restauração e posteriormente até à zona de embarque, onde segundo o que ia dizendo – enquanto nos esclarecia sobre algumas dúvidas por nós colocadas – já alguns passageiros se tinham começado a instalar. A partida estava marcada para dentro de uma hora, o que deixou ainda algum tempo para experimentarem alguma da gastronomia saturniana e deste modo relaxarem um pouco mais.

Iam instalados em fracções habitacionais integradas, com capacidade limite para seis indivíduos tipo H por cada módulo, completamente equipados e com uma excelente visibilidade (directa e indirecta) de todo o espaço exterior. O momento da chegada à nave tinha sido mais passivo do que o esperado, com a grande maioria dos passageiros já instalados e recolhidos aos respectivos módulos e os restantes estrangeiros que ainda viram passar ao seu lado, minimamente aceitáveis segundo os seus conceitos de forma e estética corporal. Amendoim ainda se assustou na altura quando uma massa semi-gelatinosa passou por ela a correr, balouçando lateralmente e com uma grande amplitude os seus seis membros superiores e quase provocando uma colisão com a sua amiga Pistáchio. Mas nada mais aconteceu e enquanto os presentes se olhavam entre si verificando se tudo estava normal, o embarque concluiu-se e a nave lançou-se finalmente em direcção a Enceladus.

 

Processo de formação de géisers em Enceladus

 

Na aproximação a Enceladus fomos surpreendidos por uma imagem que ainda hoje temos bem registada na nossa memória: da superfície desta lua de Saturno erguia-se uma coluna de material que atravessava a sua atmosfera e que se dirigia para o espaço exterior que a rodeava de uma forma muito parecida com o que acontecia com os géisers na Terra. E o que era mais espantoso era que os instrumentos de análise química que apetrechavam a nave e que tinham sido postos à disposição de todos os passageiros indicavam a presença de água e até de componentes orgânicos de estrutura bem complexa. Para nós era quase que a confirmação da existência de vida nativa em Enceladus, dada a presença de água, de organismos e até de uma fonte interna de calor. E numa rápida troca de impressões – realizada momentos antes de se dar início aos procedimentos normais de aterragem – ainda ficamos a saber através de um estrangeiro vindo da galáxia em espiral NGC 4414, que esta lua possuiria um mar subterrâneo que se encontraria no estado líquido, devido à acção contínua do calor vindo do seu interior. Esse calor seria responsável em determinadas condições de temperatura e pressão pela emissão de gases a alta temperatura até altas camadas da atmosfera. Material que voltaria depois a cair sobre a superfície deste corpo celeste, em constante actividade de transformação e evolução.

 

Pólo sul de Enceladus

 

A nave desceu suavemente até à plataforma de aterragem, localizada num local árido e desértico do hemisfério sul de Enceladus. Terminados todos os procedimentos normais de segurança, a plataforma iniciou o seu movimento descendente para o interior da base subterrânea, imobilizando-se instantes depois no porto espacial, situado num dos pisos inferiores ainda relativamente próximos da superfície. A base era composta por cinco sectores distintos de actividade – comunicações/transportes, armazéns/oficinas, exploração/investigação, habitação/lazer e comando/segurança – ligados em diferentes níveis de profundidade por um labirinto de túneis subterrâneos que se interligavam na sua periferia e que confluíam em quatro vértices de um losango que definiam a sua área de influência. Nestes quatro postos fronteiriços estavam localizadas estruturas de apoio a comunicações e transportes a realizar à superfície, além das instalações do Centro de Investigação Alienígena (CIA), responsável máximo e tutelar por todas as acções a desenvolver no espaço exterior à base – como era o caso das expedições realizadas ao pólo sul do satélite para observar os géisers de água, das expedições a algumas das maiores falhas tectónicas existentes na sua superfície e até de outras iniciativas complementares associadas, como era o caso da nossa visita e da visita de muitos outros curiosos vindos de todo o lado. Saímos da base atravessando um dos postos fronteiriços mais utilizados pelas actividades da CIA, a bordo de um veículo com capacidade de deslocação em meio terrestre, aéreo e aquático e tripulado por dois técnicos especializados colocados à nossa disposição: seriam eles os responsáveis pelo nosso transporte até à zona que pretendíamos visitar e a partir daí dariam todo o apoio necessário à nossa exploração exterior, acompanhando-nos até ao momento de regresso à nave.

 

Um dos sectores da base – módulo habitacional

 

Na sua primeira paragem – e sobrevoando até aí a superfície gelada e deserta do satélite – o veículo imobilizou-se sobre uma saliência rochosa de média altitude, de onde se podia observar com boa visibilidade a linha do horizonte – e onde se encontrava o pólo sul.

Saímos do nosso veículo de transporte a bordo de quatro BITS (bolhas individuais de transporte secundário) comandadas automaticamente através de chips colocados na camada superficial da nossa epiderme – como um interface de ligação entre a máquina a ser operada e o seu utilizador – e dirigimo-nos em fila indiana atrás do Mono Simão, em direcção a sul e fazendo-me recordar no início da viagem, as caravanas de camelos e as suas misteriosas aventuras no deserto. Os quatro BITS eram constituídos por duas bolhas concêntricas de um material transparente, resistente e com um coeficiente de atrito praticamente nulo, sendo que a bolha exterior protegia os BITS (e os seus ocupantes) do meio ambiente agressivo que os rodeava, enquanto que a bolha interior lhes proporcionava as condições necessárias de habitabilidade e de desempenho, para a execução correcta das suas funções. O espaço entre as duas esferas estava ocupado por um componente líquido biotecnológico que além de não permitir o contacto directo entre as duas esferas, tinha também uma função de estabilização do veículo e controlo da sua velocidade. O veículo era ainda dotado de um sistema redundante de segurança, que em caso de aparecimento de algum problema técnico inesperado poria imediatamente em acção os seus estabilizadores automáticos. As BITS eram assim comandadas através da emissão de impulsos biológicos (por parte do utilizador) e tecnológicos (da parte do sistema operativo aplicado) podendo facilmente atingir velocidades Mach3 (na ordem dos 4.000km/h): fáceis de comandar e atingindo rapidamente velocidades incríveis, eram como um brinquedo nas mãos de uma criança!

 

Os primórdios da vida em Enceladus

 

Debaixo de nós a superfície do satélite natural Enceladus estendia-se árida e sem vida – cheia de poeira e pejada de pequenas rochas – aqui e ali com uma escarpa mais elevada, destacando-se em toda a extensão da sua paisagem. No fundo deste cenário era notório que se estava a passar algo de estranho na superfície da lua de Saturno, com uma claridade a surgir diante dos nossos olhos, cada vez com maior intensidade e impacto visual – à medida que nos aproximávamos do pólo sul e com a atmosfera que rodeava o satélite (em profunda convulsão) a “ver passar” violentas ejecções de material, em direcção ao espaço e com origem no seu subsolo. Andamos ainda largos minutos nas nossas BITS, até que chegamos finalmente a um ponto limite de segurança, onde estacionamos os veículos e fomos apreciar o espectáculo. Amendoim aproveitou a altura para distribuir por cada um de nós uma óptica PS (de protecção com filtro selectivo) de modo a defender-nos dos intensos reflexos que poderíamos ter de vir a suportar, no nosso passeio pela superfície de Enceladus.

 

Era um cenário de tal modo tremendo face a tudo o que viramos até hoje na nossa vida e no nosso planeta, que nem conseguimos abrir a boca, ficando completamente paralisados de fascínio e simultaneamente de terror: toda esta zona situada no pólo sul de Enceladus parecia estar numa situação de guerra declarada, com enormes colunas de água e outros componentes minerais a subirem na atmosfera e a serem posteriormente ejectados para o espaço, a muitos quilómetros de distância da superfície. Registamos nas nossas observações iniciais que nesta zona existiriam grandes massas líquidas subterrâneas – geladas à superfície – que devido ao aquecimento provocado pelo calor vindo do interior do satélite e ao atingirem valores de temperaturas e pressões muito elevadas, explodiam violentamente, provocando enormes erupções de água e material, que voltavam de seguida – como se cumprissem um ciclo determinado – a cair sobre o solo. Perto do local onde nos encontrávamos ainda constatamos a existência de pequenas bolsas líquidas acessíveis (periféricas), apresentando registos de temperaturas/pressão dentro dos limites físicos suportáveis, além de boa permeabilidade superficial. Dirigimo-nos então para as bolsas mais próximas e a Pistáchio acabou logo por nos sinalizar uma delas aparentando deterioração mais acentuada – à medida que nos aproximávamos do nível 0 de profundidade – devido a efeitos de compressão entre duas placas confluentes e com muitos vestígios de DSP (descontinuidade superficial pelicular). Apontamos as quatro BITS para um sector com menor coeficiente pelicular e segundos depois encontrávamo-nos mergulhados num imenso oceano vivo e colorido, completamente preenchido por água, minerais e uma floresta virgem primordial.

 

Os quatro BITS deslocavam-se lado a lado no interior desta imensa massa líquida subterrânea, afastando-se aceleradamente do ponto da costa onde se tinham introduzido anteriormente e mergulhando lentamente no vasto oceano misterioso que se abria graciosamente diante deles. No início a viagem foi tranquila e com visibilidade aceitável, mas à medida que prosseguimos com o nosso trajecto em direcção ao sul, a agitação das imensas massas líquidas oceânicas aumentou, ao mesmo tempo que os registos de temperatura e pressão subiam rapidamente e que a visibilidade – em sentido contrário – diminuía drasticamente. Para os quatro e como principiantes que eram, cada vez se tornava mais difícil controlar os veículos nestas condições, acabando todos por optar pela utilização do respectivo piloto automático, escolhendo a rota a cumprir através da aplicação de um menu disponível. Chegamos ao ponto assinalado na carta com um X – que Pistáchio catalogou logo como curioso e enigmático – e aí os BITS suspenderam de imediato o seu movimento, ficando como que suspensos (a aguardar algo) no interior profundo deste oceano. Então ligamos os projectores de águas sujas, equipados de diversos tipos de filtros de análise em grandes profundidades e instalados no exterior dos veículos: o espectáculo diante de nós tornou-se então fabuloso e inacreditável!

 

A floresta que tínhamos visto inicialmente dispersa por pequenos aglomerados aparecia agora cobrindo toda esta área onde nos encontrávamos, estabelecendo um contraste fantástico entre a sua cor verde “vegetal” e a leve tonalidade azul da massa líquida que a rodeava. Com o aumento da distância o aspecto da água tornava-se mais turva, devido à presença de outros componentes nela dissolvidos. E com a ajuda do computador de bordo pudemos ainda assistir em directo e em segurança às brutais ejecções de material para a atmosfera de Enceladus – originadas em compactas massas de água e de outros materiais que sujeitos a altas pressões e temperaturas explodiriam, provocando erupções de grandes dimensões. Ficamos por ali hipnotizados sem darmos pelo passar do tempo, até que os veículos nos sinalizaram o momento do regresso. Ainda tentaríamos passar por uma das grandes falhas tectónicas do satélite – pelo menos para vê-la ao vivo, nem que fosse de relance – mas na altura já a bordo do veículo de transporte que nos iria levar de regresso à base.

 

A fractura que vimos na volta da nossa inesquecível viagem pela superfície de Enceladus, estendia-se por muitos e muitos quilómetros, era enorme e profunda, fazendo-nos lembrar uma ferida sujeita a tratamentos mas ainda por cicatrizar: verdadeiramente indescritível, num cenário de outro mundo.

 

Chiclete, Mono Simão, Amendoim e Pistáchio – a alegria da aventura e o desejo do conhecimento

 

Os quatro jovens esperavam na área de embarque a hora da partida da nave de carga espacial, que os iria levar de volta à lua de Saturno Mimas. Com o aproximar da hora marcada o movimento à sua volta foi-se intensificando gradualmente, o que os levou a irem dar uma pequena volta pela área comercial afecta ao porto e desse modo relaxarem um pouco mais e observarem simultaneamente e com mais atenção, as trocas comerciais e outros negócios que aí aconteciam. Foi aí que sentados à volta da mesa de um bar e na companhia de um técnico local ligado à área de investimento e desenvolvimento, os quatro tiveram a excelente ideia da constituição da PAC-MAN TRADE INDUSTRY, aderindo de imediato à JEEP (jovens empresários de elevado potencial) local e ao revolucionário Sistema SubTrade. A companhia ficaria registada no centro de partilha e negócios sediada na base da CIA em Enceladus, com o registo de interesses ligando-a à investigação e comercialização de pequena tecnologia, em mundos em vias de desenvolvimento como era o caso da Terra. O Sistema SubTrade assentaria na aplicação de um esquema de trocas directas – sem necessidade de investimento ou de utilização de moeda – realizadas entre duas (ou mais) estruturas paralelas e partilhando conjuntamente os mesmos interesses e objectivos finais – e que se regularia sobre dois parâmetros de acção e intervenção básicas: a troca teria sempre que ser benéfica para as duas partes intervenientes e integrar-se no espaço mais vasto do desenvolvimento da galáxia. No caso particular do planeta Terra os destinatários deveriam estar sempre e prioritariamente associados a espaços de intervenção alternativa, capazes de fornecer a todas as espécies locais todos os instrumentos de progresso e de desenvolvimento que até aí e por qualquer tipo de razão incompreensível lhes tinha sido vedado, pelos detentores oficiais da verdade e do dinheiro: a vida e a tecnologia deveriam ser sempre partilhadas por todos, de modo a evitar com a introdução desta estratégia, a sobreposição e o esmagamento destes parâmetros vitais e o fim anunciado de mais uma espécie, a nossa.

 

A viagem de regresso à Terra efectuou-se sem sobressaltos. A bordo da nossa nave partimos finalmente de Mimas em direcção a casa e ainda nos regalamos no decurso da viagem com a visão avassaladora da Cintura de Asteróides – poderíamos lá passar uma eternidade a olhar – e com a passagem mesmo ao nosso lado do cometa ISON, em rota de aproximação à nossa estrela o Sol.

Tinha sido uma aventura inesquecível e com ela (e para além dela) todos tínhamos aprendido um pouco mais: o mundo não admitia limites nem ideias unilateralmente impostas!

 

          

 

À esquerda:

Uma das mais visíveis falhas tectónicas de Enceladus – com cerca de 1 quilómetro de profundidade, 4 quilómetros de largura e mais de 160 quilómetros de comprimento – é a fractura de Labtayt Sulci.

 

À direita:

Um dos fantásticos fenómenos registados no nosso sistema – a existência de actividade geológica em Enceladus, com erupções de jactos de água muitos semelhantes aos géisers na Terra.

 

Algumas notações adicionais de carácter científico, já agregados pelos seus fundadores aos relatórios da PAC-MAN TRADE INDUSTRY e relacionadas com o satélite natural Enceladus:

 

  •  É um corpo muito brilhante pois funciona praticamente como um espelho – reflectindo todos os raios solares.
  • Significa que a sua superfície estará coberta por muitos cristais de gelo.
  • Geologicamente (a sua superfície coberta de gelo) será constituída por grandes vales e lagos gelados, com muitas crateras dispersas.
  • Os jactos de água visíveis no pólo sul – contendo monóxido e dióxido de carbono, sais como o potássio e outro material orgânico – resultam de um mecanismo de aquecimento provocado pela influência de Saturno e de outras duas luas próximas, Tethys e Dione.
  • Apresenta movimentos tectónicos muito semelhantes aos que acontecem na Terra – como por exemplo na falha de San Andreas nos EUA – neste caso devido à poderosa influência de Saturno.
  • Sendo um corpo celeste flexível apresenta condições para a existência de vida.

 

(texto/ mars one – imagens/space.com; nasa.gov; google.com)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 17:12

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