Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

22
Jul 12

O assédio sexual é uma coisa natural – o problema está na artificial organização social

 

A faca como símbolo fálico definitivo

 

1

Estava completamente alcoolizado. Tinha sido um dia intenso de calor, só na sombra e debaixo do ar condicionado é que se aguentava este ar morno e asfixiante e a necessidade de ingerir imediatamente algo de fresco e de revigorante, era maia forte que qualquer indicação médica que anteriormente nos tivessem fornecido – e assim bebia-mos álcool sem parar e suávamos por todos os nossos poros, ininterruptamente e na mesma proporção.

 

2

Subi as escadas do prédio que estavam diante de mim. No seu interior a elevação dos tetos de cada andar, facilitavam alguma da pouca circulação de ar aí existente, melhorando um pouco o ambiente que nos rodeava e tornando-os mesmo que aparentemente, mais frescos e mais fáceis de suportar. O elevador já não funcionava provavelmente desde há muito tempo, sendo visível a sujidade aí acumulada e mesmo alguns vestígios de se tratar de um local ideal para se pernoitar, devido a certos casos imprevistos e não desejados, ocorridos durante um dos lapsos da vida de qualquer um de nós e analisados imparcialmente e sem objetivos pré-determinados, de qualquer um dos ângulos possíveis e imagináveis.

 

3

No cimo destas escadas, no último andar deste prédio antigo e degradado, descobri duas velhas portas fechadas e uma outra aberta, que devia dar acesso ao terraço comum do condomínio e que pela sua elevação, devia proporcionar uma bela vista da cidade, mesmo de noite e sob a luz da iluminação exterior. Não subi ao citado terraço e meio sonolento por ação conjunta do calor e da bebida, encostei-me ao corrimão das escadas e fixei o meu olhar numa das portas fechadas e no som que daí podia emanar. Não me apercebi de nada e adormeci.

 

4

No outro dia de manhã, debaixo de uma ressaca tremenda provocada pelo álcool e com todos os ossos do meu corpo a gritarem de dor – parecia ter levado uma tareia estilo “caixão à cova” – encontrei-me sem qualquer tipo de explicação numa cama da prisão, fechado numa cela escura e subterrânea e acusado de homicídio de alguém, que julgava nem sequer conhecer. Fora encontrado na cama de uma mulher assassinada à facada, completamente desfigurada e brutalmente mutilada, completamente nu, com o meu pénis ainda ereto e enfiado na vagina artificialmente mantida húmida, do ser do sexo feminino comigo encontrado e oficialmente há muito, declarado morto e desativado.

 

5

Fui declarado culpado e condenado à morte por opção. Mais tarde e por interesse de entidades relacionadas com o acaso e com as necessidades – mas nunca declaradas, de modo a não obstruírem o normal decorrer e aplicação da justiça – veio a saber-se que o esperma encontrado na vítima não coincidia com o meu ADN. Levado o caso ao Tribunal Constitucional, este confirmou a minha inocência e a injustiça sobre mim praticada e para alegria dos meus amigos e familiares, limpou-me o registo criminal mesmo depois de morto. No entanto decretou a amnistia sobre o verdadeiro criminoso, porque este provavelmente se quereria vingar sobre o vizinho da frente e do mesmo andar – à frente do qual eu adormecera e por isso o engano na porta – devido a adultério continuado e não declarado, ainda-por-cima praticado pelo seu chefe sobre a sua mulher, num verdadeiro assédio inadmissível “de e na empresa”. Foi-lhe concedida a equivalência depois de exaustiva análise das condições a que se tinha sujeitado o arguido – a sua encenação para me atribuir o crime foi considerado pelo psicólogo uma ação desculpável, devido aos maus tratos sofridos pelo arguido em criança e que ele associava à figura do pai, que neste situação era eu – sendo de imediato libertado e licenciado para a vida. Eu continuei bem morto e enterrado.

 

6

Esclarecimento final: completamente desnorteado e no meio da sua vingança assassina, o homem nem reparou que a sua suposta vítima-homem era uma mulher, isto porque o seu chefe – e como ele já sabia há muito tempo – era hermafrodita, dado este ter feito com ele tentativas de assédio e quase ter concretizado o ato, num dia para esquecer e em que o apanhara psicologicamente desprevenido. Afugentado o chefe e sentindo-se este humilhado com o sucedido, tinha prometido a quente e como retaliação à humilhação sofrida, que tal não ficaria sem retorno – até ao dia em que conheceu a mulher deste e a seduziu com o seu duplo impacto sexual.

 

(imagem – menspulpmags.com)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 10:52

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