Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

13
Ago 13

O que será uma SIMULAÇÃO?

 

·        A constante de proporcionalidade entre a realidade – o que somos – e a ficção – o que sonhamos?

·        Ou um compromisso aleatório caoticamente estabelecido entre ambas?

·        Ou nada disso apenas um acto isolado dum criador de Universos?

·        Ou outra coisa qualquer reflectida no espelho?

 

No entanto uma coisa é clara: a realidade (os objectos) nunca se poderá sobrepor à ficção (as imagens), apenas porque a primeira nunca existirá sem a segunda, se os espelhos nada tiverem para mostrar que justifique a sua existência.

Nessa simulação Alice foi uma das pioneiras.


Nave

 

A Nave Extraterrestre continuava no mesmo local onde o Zé a tinha encontrado: no meio da sua horta, esmagando as suas verdes e deliciosas couves e com uma porta lateral aberta dispondo de uma rampa, como as já existentes em muitos edifícios modernos, para o mais fácil e rápido acesso a deficientes motores.

 

Estava um Sol abrasador e o vento não se sentia. O estranho veículo brilhava intensamente à frente da casa, reflectindo impiedosamente os raios solares que a atingiam em vagas sucessivas, sob o calor abrasador que inusitadamente se registava a sul: não se conseguia olhar para ele durante muito tempo, como se estivéssemos a visionar directamente o Sol, sem qualquer tipo de protecção.

 

Tinha visto pela primeira vez a nave extraterrestre manhã cedo ao levantar – ainda o dia começava a nascer – aquando da saída de casa em direcção à capoeira, onde ia buscar uns ovos para o seu pequeno-almoço. De início ficou espantado por ver o que parecia ser um carro tipo “carocha” ali imobilizado, o que o deixou muito intrigado com tudo aquilo que estava a ver e sem perceber como este lá tinha ido parar.

 

Uma coisa era certa: aquilo não era dele e não estava lá na noite anterior. Ainda se aproximou um pouco do veículo, mas um ruído pouco audível mas persistente e incomodativo acabou por o assustar e interromper a sua marcha. O som parecia vir daquele lado e para mais, qualquer coisa parecia ter-se movido numa das suas partes laterais. Então o Zé decidiu regressar ao interior de sua casa e no seu Jipe arrancou em direcção à propriedade do seu vizinho e presidente da junta, o engenheiro Caldas.


Tranquilidade

 

O Caldas não estava em casa quando o Zé lá chegou. Tinha viajado no dia anterior para uma reunião urgente a realizar durante a parte tarde na capital e que reunia alguns presidentes de juntas da região, de modo a tratarem certamente de alguns problemas locais com que se debatiam os seus cidadãos e autarcas. Regressaria ainda hoje para almoçar e talvez nessa altura fosse o melhor momento para falar com ele.

 

A Maria ficara no entanto curiosa com o motivo da visita que o Zé acabara de fazer à procura do seu marido. Ele estava um pouco preocupado e estranhamento parecia um pouco assustado com qualquer coisa que decerto se estava a passar com ele. Ainda lhe perguntou se queria deixar algum recado para o Caldas, mas agradecendo o pedido, este balbuciou um agradecimento e pedido de desculpas qualquer, despedindo-se educadamente e partindo então no seu jipe. A única coisa que lhe ficou na memória foi o momento em que na despedida ele disse algo – com uma voz interior, mal audível e envergonhada – em que o mesmo parecia dizer “que alguém tinha abandonado na noite anterior, um carro desconhecido no seu terreno”. O que no mínimo era esquisito.

 

De novo à porta de sua casa verificou que lá para o fundo o veículo continuava imobilizado no mesmo sítio e com a rampa ainda descida. À volta não descortinou nada de diferente ou mesmo de estranho, parecendo que no terreno o quotidiano diário da vida das plantas e dos animais, decorria dentro da normalidade a que se tinha habituado. Um pouco nervoso com a situação que estava a viver e com o impasse temporário em que se encontrava, decidiu ir beber e comer qualquer coisa – já que nem sequer tomara a sua primeira refeição do dia – de forma a mais eficazmente espairecer as suas baralhadas ideias e esquecer um pouco tudo o que para ele de inacreditável lhe estava a acontecer.

 

Pela porta das traseiras foi buscar uns ovos das suas galinhas de modo a fazer uma das suas deliciosas omeletas. O quintal das traseiras da casa estava mais fresco do que esta, dada a grande profusão de árvores ali existentes e à sombra que elas provocavam, tornando o ambiente bastante ameno e muito agradável, para aí se estar e desse espaço usufruir. Caminhou então até à gaiola onde se encontravam as suas galinhas poedeiras e ao abrir a porta, ficou logo surpreendido e de imediato em estado de alerta: as galinhas estavam todas assustadas a um canto da gaiola, enquanto os ninhos se encontravam todos remexidos e de pernas para o ar, vendo-se por todo o lado alguns ovos quebrados ou mesmo esmagados no meio de poucos que ainda se encontravam intactos. E faltando muitos mais.


Caçadeira

 

A caçadeira que o Caldas lhe oferecera o ano passado por altura do seu aniversário, ainda se encontrava escondida debaixo da sua cama (tal e qual como ali a colocara no primeiro dia) carregada e pronta a ser utilizada de imediato em qualquer tipo de situação e em qualquer tipo de emergência ou acontecimento similar.

 

Descontrolado pela sucessão de eventos que se desenrolavam inexplicavelmente diante dele de tal modo bizarros na sua projecção apresentada e percepcionada da realidade (e em contraponto simétrico com os seus hábitos anteriormente assumidos) que o acabavam invariavelmente por deixar completamente alienado da sua própria representação (cuidadosamente montada e idealizada, por esta ordem), Zé dirigiu-se sem qualquer tipo de noção racional e resolutiva dos acontecimentos com que se deparava ao seu quarto, apoderou-se sem hesitação da sua arma, confirmou indubitavelmente que estava carregada e sem pestanejar retirou o travão: estava pronto a entrar em acção.

 

A sua sorte assentou na chegada do Caldas. Maria avisara-o da visita efectuada pelo seu amigo Zé logo de manhã e de como ele se comportara enquanto o procurara, nervoso mas denotando simultaneamente alguma preocupação, cujo sentido no entanto ela não conseguira perceber na sua causa e justificação mais directa e profunda. O certo é que o marido não pareceu ficar muito admirado com as atitudes do seu amigo, revelando na sua expressão uma surpreendente curiosidade brilhante e exponencialmente crescente e não aguentando nem mais um segundo sem arrancar no seu automóvel em direcção a casa do Zé. Estava-se na hora do almoço. E de arma em punho Zé contornou a casa e dirigiu-se para o local onde o carro que acabara de chegar estacionara: diante dele o Caldas observava silenciosamente e sem se mexer o local onde estacionara o carocha desconhecido, consentindo inconscientemente que a sua visão se deixasse levar pelo cenário que se lhe apresentava diante de si, ao mesmo tempo que o intenso calor que se fazia sentir e que se repercutia na atmosfera por vagas sucessivas e ondulantes de calor, o ia mentalmente absorvendo e transformando numa profusão de miragens e pensamentos no mínimo bizarros e nada comuns.


Alienígenas

 

O Zé tocou no ombro do amigo e pediu-lhe que o acompanhasse. Sentaram-se debaixo do pequeno alpendre que protegia a fachada principal da casa dos efeitos do calor e nos primeiros minutos ainda ficaram a olhar para o estranho veículo, ali parado, sem ninguém ou nada de importante a assinalar à sua volta e com o pequeno casebre à sua esquerda fechado e sem indícios de qualquer tipo de actividade. Apesar do brilho intenso que emitia sob a acção dos raios solares naquela terrível tarde de calor, os contornos do veículo pareciam atribuir-lhe a dimensão aproximada dum comum carro ligeiro, com uma forma oval, mas parecendo desprovido de rodas. Socorrendo-se dos seus óculos de sol, a estrutura destacou-se com melhor visibilidade do meio que a envolvia e foi mais fácil confirmar a sua forma e verificar que esta se apoiava sobre vários suportes metálicos assentes no terreno. Era impossível ser um veículo terrestre, fazendo Caldas pensar noutras coisas, que não em coisas da sua terra: se fosse criança pensaria em invasores vindos do espaço e ali sozinho não perderia um único segundo sem sair dali a correr aos gritos e gritando por socorro.

 

Inesperadamente o veículo deixou de reflectir todos os raios solares que colidiam com a sua superfície metalizada, assumindo agora uma cor intermédia entre o branco e o cinzento e absorvendo a partir desse momento parte da energia que o ia continuando a atingir: os seus contornos eram agora muito mais precisos e definidos, tornando-se claro aos olhos dos dois amigos que o observavam surpresos e boquiabertos, que tal veículo nunca poderia ter sido um ordinário automóvel, mas outro tipo qualquer de objecto não identificável e que só lá poderia ter ido parar exclusivamente por via aérea. Sem saberem muito bem o que fazer resolveram contactar o seu conhecido Sr. Manuel, um dos naturais mais conhecedores da zona e já por diversas vezes envolvido na resolução de casos difíceis e inesperados como este e que nesse instante lhes pareceu ser alguém a quem poderiam desde já recorrer, contando tudo o que lhes estava a suceder. E foi nesse preciso instante que dois seres de pequena estatura se destacaram à sua frente – tendo como pano de fundo o estranho objecto oval – dirigindo-se silenciosamente na sua direcção. Ficaram paralisados! Um dos seres parecia transportar um pequeno objecto, numa das suas mãos.

 

A vida gregária e sem movimento que nos servem diariamente sem grandes sobressaltos ou preocupações ou qualquer outro tipo de acções que envolvam grande dispêndio (desnecessário) de energia, é por vezes de tal maneira monótona e alienante do pouco de nós que ainda possuímos, que em determinados momentos de maior recato e intimidade nos preocupamos e enredamos noutros mundos em que possamos estar sempre presentes e participarmos nele activamente, movimentando-nos sem limites nem preocupações de espaço num Universo inexplorado e indeterminado, apenas por ainda não ter sido sonhado. Ninguém pode negar o sonho como uma componente da nossa realidade.


Sonhos

 

E o que lhes aconteceu de seguida poderia muito bem ter sido enquadrado num cenário idêntico ao conjunto resultante desta intersecção evolutiva – mas não utópica – de sonhos e de realidades.

 

Apesar de estarmos debaixo da protecção dum guarda-sol e muito perto da rebentação das pequeninas ondas do mar, o calor por vezes tornava-se de tal maneira insuportável, que nada mais podíamos fazer senão mergulharmos nas águas do oceano e aí nos deixarmos ficar meio sonolentos mas refrescados por deliciosos e largos períodos de tempo. Foi num desses momentos de isolamento e relaxamento que nos apercebemos do esvaziamento de todo o areal e reparamos na sinalização de um dos nadadores-salvadores: preocupados dirigimo-nos para ele e estupefactos ouvimos sair repentinamente da sua boca, o alerta lançado pela capitania local da chegada próxima de uma onda gigante. Deviam estar todos loucos. Olhamos o mar até ao seu mínimo pormenor e distância e então reparamos que alguém ali presente apontava para uma massa cinzenta que se destacava no horizonte e parecia estender-se progressivamente para os dois lados. Até podia ser um mero fenómeno atmosférico mas não ficamos ali à espera para ver. Sem demora e por cautela deixamos a praia e dirigimo-nos para casa. Da varanda escutamos então a sirene dos bombeiros começar a tocar, enquanto observávamos o céu escurecendo rapidamente, fenómeno esse acompanhado do aparecimento repentino duma forte e inexplicável ventania, que agitava cada vez com maior intensidade a copa das velhas árvores do jardim, deixando-nos perplexos e verdadeiramente assustados. Afinal de contas era de dia ou não era?

 

Subimos ao terraço da habitação. Do lado do mar o dia tinha escurecido repentinamente e poucas luzes se avistavam no local; ao contrário do que acontecia do lado oposto da cidade, onde a leste a claridade era a normal, para uma habitual tarde de Verão. Durante alguns instantes podemos escutar um barulho intenso e um tanto confuso – tanto parecia vir do mar como ser proveniente do ar – que parecia aproximar-se rapidamente do sítio onde nos encontrávamos a observar o que estava a acontecer, ao mesmo tempo que o céu era atravessado por clarões sucessivos que o iam iluminando à vez, durante pequenas fracções de segundos: desse modo, era difícil apercebermo-nos claramente do que se estava a passar mais à distância, até porque de imediato fomos submergidos por uma muralha negra e impiedosa de água, que se precipitou sem qualquer tipo de aviso do céu, já tão congestionado e martirizado.


Litoral

 

Então o céu abriu-se abruptamente sobre nós e podemos aí constatar estupefactos que toda a orla marítima situada diante de nós tinha sido invadida pelas águas do mar, inundando toda a zona urbana até muito perto do local onde nos encontrávamos e fazendo desaparecer debaixo das suas vagas, todas as estruturas que apareceram à sua frente: as vagas quebravam a cerca de cem metros da nossa casa enquanto no meio da confusão instalada na cidade, se viam alguns clarões provocados por curto-circuitos em linhas e postos de electricidade e algumas pessoas em fuga ou no cimo dos telhados de habitações sobreviventes ao acontecimento.

E a seguir os céus foram invadidos por centenas de luzes estranhas que atravessaram a atmosfera silenciosamente mas a grande velocidade, largando no seu trajecto outros objectos não identificados mas de menor dimensão, que iniciaram por sua vez um movimento descendente em direcção à superfície terrestre, onde naturalmente nos encontrávamos: eram umas esferas de média dimensão e fortemente luminosas que pareciam dirigir-se para locais previamente determinados, mas sempre onde fosse visível a presença de qualquer tipo de actividade ou presença humana. Ao meu lado um dos amigos ali presentes soltou então um grito inesperado, apontando com o seu indicador direito um local da cidade situado mais para o seu lado sul e cedendo-me prontamente os seus binóculos para uma melhor observação: o que vi a seguir deixou-me logo assustado – senão mesmo aterrorizado – e foi num ápice que todos saímos dali numa correria louca e desenfreada, procurando qualquer tipo de refúgio ou de esconderijo, que nos fizesse desaparecer como um relâmpago e sem qualquer tipo de rasto. As pessoas estavam agora a ser perseguidas e abduzidas e novas vagas dessas esferas brilhantes desciam sem parar sobre a cidade, dirigindo-se invariavelmente para os edifícios ainda de pé e com seres visíveis à sua volta – exactamente na situação em que nos encontrávamos e por esse motivo algumas dessas esferas para cá já se dirigirem! Fugimos descontrolados e sem olhar para trás, caímos no meio da confusão atropelando-nos uns aos outros, gritando impropérios por medo e por falta de fé e até mesmo perdendo completamente a noção de onde estávamos e do que ali andávamos a fazer. Cheguei a empurrar algumas pessoas que encontrei durante a minha fuga, enquanto irritantemente alguém me sussurrava algo ao meu ouvido, espetando-me simultânea e dolorosamente algo no meu corpo.


Barracão

 

Acordaram os dois ao pôr-do-sol já no interior do galinheiro, ainda um pouco tontos e sonolentos com o seu recente despertar e sem saberem muito bem como ali tinham ido parar. As galinhas rodeavam-nos muito alegres e curiosas, cacarejando como se estivessem a trocar impressões entre si – iam rodando compassadamente em torno de ambos, virando a cabeça umas para as outras e batendo as asas como se estivessem enviando sinais – colocando-se duas delas sobre a barriga do Zé e entretendo-se a debicar o botão da sua camisa de ganga. De tal forma e intensidade, que até já o tinham magoado no abdómen e rasgado um pouco o tecido. Levantaram-se cuidadosamente, verificaram o estado do galinheiro e dirigiram-se então os dois para a porta: estranhamente a fechadura estava fechada pelo lado de fora, mas tal não os impediu de abrir a partir do interior e sair sem qualquer tipo de dificuldade. E assim as galinhas foram finalmente dormir, enquanto que o galo chateado provavelmente pela anterior presença de ambos no seu território e harém, lá saiu do seu canto escuro e finalmente foi ter com as suas amigas: faltavam-lhe algumas penas no seu rabo e apresentava um ferimento ligeiro numa das patas.

 

Ao fundo o pôr-do-sol caminhava rapidamente para o seu ocaso habitual, com o céu ainda avermelhado a compor maravilhosamente todo o cenário exposto diante de nós e com o Sol que o ia ainda iluminando – desesperadamente mas sem esperança – a desaparecer para lá do horizonte, misterioso e indecifrável. Esfomeados e com necessidade de assentar as suas maltratadas ideias e convicções (talvez o medo fosse um dos motivos adicionais) dirigiram-se sem pensar para o interior da habitação, mentalmente paralisados e temporariamente descontextualizados da projecção disponibilizada e sem sequer se atreverem a deslocar o seu campo de visão para outras áreas comprometidas e que desse modo, lhes pudessem acelerar o seu estado de desassossego. O Caldas sentou-se então no sofá, deixando-se ficar de olhar fixo e pensativo a inspeccionar detalhadamente o tecto e as paredes, enquanto que o Zé, mais prático e esfomeado, fritava uns ovos que encontrara na pequena bolsa que transportava sempre consigo. E enquanto comiam o seu ovo biológico – estava uma delícia – sentiram o barulho de um velho motor a aproximar-se, logo acompanhado pela conhecida buzina do veículo do Manuel, um velho jipe UMM ainda do tempo da outra senhora.

 

Com o Manuel vinha a sua sobrinha Isabel e o seu irrequieto cão o Carraça. Ouviram as portas do jipe a ser fechadas e passados alguns segundos o som dos seus passos a chegarem ao alpendre, enquanto falavam entre si e chamavam pelo cão que vinha logo atrás deles. Como era já hábito verificaram se a porta não estava fechada e como tal sucedia, entraram imediatamente no interior da casa, fazendo-se anunciar com um sonoro “boa noite”: o Carraça ficara para trás e o Zé caminhava para eles vindo da cozinha.

A noite tinha arrefecido bastante desde o fim do dia devido ao aparecimento dum vento húmido vindo de noroeste, tornando-se agora a exposição às condições nocturnas um pouco mais desagradável, devido há grande amplitude térmica registada nesse dia. Não se via a Lua e a noite era apenas iluminada por um ou outro ponto luminoso espalhado pelo campo, ou então pela luz emitida pelas estrelas colocadas no céu. No terreno que envolvia a casa estava tudo muito tranquilo e quem ali estivesse a olhar a paisagem, só poderia estar a passar por um momento de tranquila normalidade e a usufruir desse momento de calma e de relaxamento. Não se avistava nada de animal que se mexe-se – a não ser os ramos das árvores oscilando sob a força do vento – com a excepção do Carraça, que continuava lá para o fundo do terreno a ladrar aos saltos e sem parar, provavelmente a algum coelho que estivesse escondido entre as moitas. Pelo menos tinha sido essa a primeira sensação que a Isabel tivera antes de entrar definitivamente em casa, acabando finalmente por fechar a porta atrás de si, já que o Carraça estava obcecado com o que encontrara – boa sorte e que se entretece com isso, pensara ela.

O cão, esse lá continuou a ladrar à porta do barracão que inesperadamente encontrara no terreno – o Carraça conhecia muito bem aquela zona desde pequeno – e que para o seu órgão do olfacto, largava um forte odor a qualquer coisa de curioso e estranho mas animal. E saltou quando as luzes se acenderam subitamente e começaram a piscar sem parar. Aí fugiu a toda a velocidade e pôs-se a raspar assustado a porta da entrada da casa.


Nave-Mãe

 

Quando já iam no sexto medronho o Carraça apareceu inopinadamente na sala a correr vindo da zona do galinheiro – verdadeiramente assustado e com falta de ar – atirando-se de imediato para o colo do seu dono, parecendo procurar refúgio contra algo que o perseguia mas que nenhum dos presentes conseguiu descortinar. Estavam todos já um pouco ébrios – o Zé, o Caldas (marido da Maria), o Manuel e até a sobrinha deste a Isabel – quando o Carraça entrou pela sala dentro, tendo a primeira reacção do grupo sido de espanto e de riso face ao comportamento bizarro do animal. Mas aí o Zé lembrou-se do que vira no terreno e levantando-se repentinamente do sofá apontou sem hesitar a porta da sua casa, quase caindo de seguida sob a acção dos efeitos inebriantes e paralisadores provocados pelos vapores do álcool e provocando como consequência nos presentes o riso generalizado, quando sem nele reparar, este tropeçou no Carraça – que continuava agitado e sempre a rosnar baixinho. Meios presentes meios ausentes lá se dirigiram todos para o exterior da casa, pondo-se a olhar para a profundidade da escuridão nocturna que os rodeava e procurando divisar algo que lhes motivasse e desperta-se de novo os seus sentidos e a sua percepção da realidade. O Carraça como animal irracional e de memória limitada, ficara à porta a aguardar a evolução dos acontecimentos.

 

Já passava da meia-noite e o tempo continuava fresco e um pouco húmido, com uma ligeira brisa vinda do litoral, a tornar os nossos corpos um pouco pegajosos, devido à presença do suor resultante de um dia de muito calor. Sentaram-se todos no banco de pedra adjacente à cisterna da casa e acompanhando os olhares espantados do Zé e do Caldas, viraram-se os quatro para o mesmo lado, fixando-se num ponto de referência que parecia localizar-se num dos extremos do terreno: os dois primeiros pareciam estar hipnotizados por algo que pareciam não compreender muito bem e que claramente os incomodava e assustava, enquanto o Manuel e a sobrinha nada viam nem entendiam. Apenas se escutava – por vezes e por um breve espaço de tempo – um ligeiro ruído vindo lá do fundo e o ladrar que já se tornava incomodativo do alterado Carraça.

 

A vida tem destas coisas: certos acontecimentos ao serem observados por grupos de pessoas independentes, podem ter interpretações diferenciadas ou chegarem mesmo a ser ignorados E foi isso que ali aconteceu. O Zé e o Carlos divisaram logo o barracão iluminado que se apresentava lá ao fundo diante deles, enquanto o Manuel e a sobrinha nada avistaram de anormal senão um monte disperso de sucata, provavelmente com uns vidros à mistura, que reflectiam conjuntamente e em determinadas direcções, alguns dos raios reflectidos pelas suas lanternas. Discutiram os quatro durante algum tempo sobre as suas diferentes “visões” acerca do evento que estavam a compartilhar mas não se entenderam sobre o que lhes estava a acontecer, o que os levou momentaneamente a um impasse na atitude a tomar, ao qual se juntou ainda – apesar da sua curiosidade crescente – um certo receio e incompreensão pela sua situação actual claramente demonstrado por ambas as partes. Decidiram então avançar pelo terreno dirigindo-se lentamente e com alguma precaução para o local: o Carraça vinha escondido atrás dos donos – que não viam nada de estranho no terreno – enquanto por sua vez o Zé e o Caldas caminhavam cautelosamente à frente deles, iluminando o espaço com uma lanterna e dirigindo a outra para o seu foco de referência. E foi quando estavam já perto, que o céu por cima de nós se iluminou.

 

Todos viram o clarão repentino que iluminou momentaneamente o campo à sua volta, deixando-os paralisados e sem qualquer tipo de reacção, a olhar fixamente para o espaço disponível. Tudo se passara num curto espaço de segundos, como se uma grande tempestade instantânea e de passagem os tivesse atingido sem aviso – com uma grande descarga eléctrica e luminosa a cair perto deles – seguido dum grande estrondo que lhes fez tremer todo o seu corpo, acompanhado posteriormente pelo aparecimento dum objecto voador estranho pairando sobre as suas cabeças, que visível durante uns quantos segundos, acabou por arrancar em direcção a sul desaparecendo rapidamente na escuridão dos céus algarvios. E o barracão lá continuava.


Portal

 

Decidiram entrar uns agarrados aos outros pela porta de entrada do barracão, já que nem todos sabiam onde é que ele estava, simplesmente por não o conseguirem ver. Para espanto do Carraça os quatro amigos desapareceram como que por milagre de invisibilidade no preciso momento em que puseram os seus pés no interior do barracão, não se apercebendo nada nem ninguém que permanecesse ou se movimenta-se no corredor – com alguma profundidade – que se seguia à zona da entrada. O Carraça ainda torceu o pescoço, olhou um pouco de lado, arrastou-se um pouco para local mais próximo, mas nada ajudou para o convencer a ir lá dar uma espreitadela. E como estava a ficar com fome e fraqueza lá resolveu ir até casa comer o resto da omeleta que o Zé e o Caldas lhe tinham deixado, mal sabendo o Manuel e a sobrinha, a delícia daquilo que tinham perdido: “um Ovo é a Origem e a sua utilização sem regras para a concretização de um determinado objectivo, pode ter consequências que mesmo que neutras ou inactivas, podem condicionar a perspectiva com que vemos o mundo e os seus limites – que confluem nos interesses dos outros e se dispersam em todas as direcções numa infinidade de colisões, responsáveis pela transmissão pelo espaço da massa e da energia, sob a forma de movimento e de aceleração”.

 

De início não entenderam logo o que estava a desenrolar-se diante dos seus olhos. Tinham ficado especados a observar a sucessão de formas geométricas que preenchiam toda a sala – enquanto o Zé e o Caldas se deixavam cair, encostando-se como gomas às paredes – e nada fazia prever que estivessem a exercer algum tipo de influência activa, que pudesse modificar reactivamente a realidade conjunta que partilhavam.


Universo

 

“Vivemos num Universo Holográfico em que percepcionamos o que está à nossa volta e o transformamos na nossa realidade. Apenas porque é assim que tudo fica registado nas nossas células de memória, após todo um processo selectivo de catalogação e de pormenorizado arquivo, solidificado na posterior projecção destes nossos cenários sólidos e credíveis e posteriormente elaborados e aperfeiçoados no mundo que idealizamos e construímos à nossa imagem. Aquilo que os nossos órgãos dos sentidos registam como uma individualidade partilhando um conjunto, é simultaneamente armazenado – começando desde logo a interagir entre tudo – e consecutivamente transformado e adaptado ao cenário mais previsível – elaborado por conhecimentos adquiridos através da repetição da experiência – convertendo a nossa realidade numa das possíveis resposta a um estímulo vindo exterior, já anteriormente adquirido e agora adaptado. O que significa que todas as nossas certezas – naturais e racionais – adquiridas através da vivência directa de determinados acontecimentos, não são por si só garantia da solidez das nossas convicções e dos alicerces científicos e filosóficos em que assenta o mundo que criamos, mas a projecção de outra entidade representativa, que não a nossa. Ou não pareça ser tudo a obra de uma Divindade”.

 

As galinhas surgiram do nada talvez vindas dos fundos do cenário e passaram diante deles em passo acelerado e a cacarejar de medo e de confusão, logo seguidas por dois pequenos seres que as perseguiam atabalhoadamente, transportando com eles uma cesta onde um número indeterminado de ovos se encontravam colocados e devidamente protegidos. Saíram todos disparados pela porta sem sequer notarem a presença de elementos estranhos no local e passados alguns segundos de calma e de silêncio, os quatro viram um grande clarão vindo do exterior seguido por um baque curto mas profundo. Era tudo muito estranho, mas a partir do local onde se encontravam, era possível visionar claramente toda a zona exterior que circundava o habitáculo: as galinhas continuavam na sua correria a caminho do galinheiro, enquanto os dois seres que as perseguiam desde o interior, se debruçavam agora sobre dois corpos inertes estendidos no terreno. Cuidadosamente os dois pequenos seres transportaram os corpos à vez para o galinheiro, depositaram aí os ovos que consigo carregavam com todo o cuidado e no regresso, talvez como precaução, fecharam a gaiola pelo exterior e regressaram. Viram-nos a passarem de novo diante deles e a desaparecerem de novo, sem aviso e inexplicavelmente, como se eles não existissem.


Galinhas

 

Ficaram ali durante algum tempo a olhar para o fundo da sala e a decidir o que deveriam fazer de seguida. A noite já ia bastante longa e cansativa, faltando poucas horas para o Sol começar a aparecer no horizonte e a iluminar de novo todo o campo situado à volta deles. Pela cor do céu que recordavam do fim da tarde da noite anterior, adivinhava-se mais um dia de intenso de calor e convinha apressarem-se o mais que pudessem: o Zé tinha que cuidar dos seus animais e até o Caldas tinha as suas obrigações diárias e habituais – que a mulher jamais deixaria passar, nem que este tivesse passado toda a noite fora de casa, sem no mínimo a avisar.

 

A parte central do fundo da sala dava a clara sensação de flutuar no espaço que sustentava a estrutura triangular, parecendo a mesma oscilar lateralmente num fenómeno induzido de pura paralaxe, que na realidade surgia como resultado duma intersecção de planos, que originavam esta simetria paralela e repetitiva. O que o polígono reflectia (na verdade) na estruturação do cenário agora a todos apresentado era, em imagens repetidas indefinidamente a partir de outras imagens – imagens essas previamente guardadas em memória e resultantes de episódios semelhantes ocorridos no passado – o seu poder e capacidade de projecção por sobreposição holográfica e presencial de diversos níveis confluentes de realidades, reocupando no decorrer deste processo novos pontos referenciados em relação a um foco de energia e sendo simultaneamente capazes de integrar noutros pontos desse mesmo conjunto – em expansão previsível – outros pontos centrais de ruptura ou mesmo associados a buracos negros.

 

Decidiram que a Isabel regressaria a casa e tentaria contactar a mulher do Caldas. Ao mesmo tempo trataria do Carraça e das pobres das galinhas, certamente ainda inquietas com o que lhes tinha acontecido e sem milho para se distraírem e entreterem a sua fome. Dirigiram-se então para o centro da sala e atravessaram a linha vermelha. Estavam agora num pequeno e estreito corredor iluminado artificialmente, que comunicava directamente com uma porta: abriram-na e viram-se num túnel de grandes dimensões, com outras portas disponíveis de acesso e terminando numa saída bem visível, pela luz vinda do exterior.


Túnel

 

O túnel era constituído por uma forte estrutura cilíndrica apoiada em fortes tubos metálicos, que lhe davam a forma e a solidez necessária para suportar e absorver todos os choques e forças a que este fosse sujeito, na área de influência onde o mesmo fora implantado. Inicialmente a luz vinda do exterior ofuscou-lhes um pouco a visão, não os deixando divisar claramente e em profundidade a zona de saída, nem se alguém ou algo por ali se encontrava ou movimentava. Foi só passados alguns minutos – enquanto se encontravam todos numa acalorada troca de impressões – que o Manuel os interrompeu no seu diálogo, apontando nervosamente o seu indicador direito em direcção à saída do túnel: alguns indivíduos acompanhavam tranquilamente e no que parecia ser uma amena cavaqueira, um pequeno ser de parecença humanóide e que aparentava no momento que então vivia estar bastante calmo e bem ambientado aos seus companheiros e a tudo o que o envolvia. Passaram muito tranquilamente diante deles sem se aperceberem da sua presença ou demonstrarem qualquer tipo doutra preocupação, desaparecendo de seguida ao atravessarem uma das portas de acesso que entretanto se abrira na parede do túnel e de imediato – após a passagem de toda a comitiva – (e literalmente) desaparecera. Confirmada a ausência de qualquer tipo de movimento nas proximidades da entrada por eles utilizada, os três amigos decidiram sair do local de conforto onde se encontravam há já alguns minutos, dirigindo-se sem hesitar – e talvez mesmo sem pensar – para a luz que os chamava lá bem ao fundo e que se infiltrava com bastante intensidade, pelo terminal desta estranha construção cilíndrica.

 

E então ficaram a olhar para a fantástica paisagem que inesperadamente se abriu diante deles. Um ligeiro arrepio percorreu por uns escassos segundos os corpos do Zé e do Caldas e nesse ponto as suas recordações começaram a afluir como que atraídas por um íman genético, funcionando de início subliminarmente e duma forma caoticamente organizada e agregando-se progressivamente em fases posteriores de concretização como informação, consolidação e edificação dum edifício virtual, assim denominado apenas porque sonhado e ainda não realizado.


Mundo

 

A antecipação imprevista da data de referência do início do Primeiro Impulso Solar, apanhou de surpresa e sem qualquer tipo de reacção primária, todos os intervenientes na organização e planificação deste processo, envolvendo a transferência de milhões e milhões de indivíduos de um planeta no seu estado final de habitabilidade para outro na sua fase inicial de colonização. No planeta Nergal todos sabiam desde há centenas de anos – através da análise dos ciclos solares de outras galáxias adjacentes – que um dia chegaria a hora em que o povo na luta pela sua sobrevivência teria que dar o salto para a frente e terminado o período de vida solar do planeta este teria que ser inevitavelmente abandonado, na procura de um novo lar que os acolhesse e protegesse: na sequência normal do processo evolutivo e de desenvolvimento dos três planetas interiores a este sistema solar – rodeando uma estrela-mãe e tendo como referência o planeta Nergal – chegava agora rapidamente e sem qualquer tipo de possibilidades de recuo ou de desaceleração, o momento da Primeira Migração e da colonização maciça do primeiro planeta interior, a Nova Terra-Mãe.

 

As terras do litoral tinham sido completamente devastadas pela acção destruidora das grandes vagas vindas do Atlântico, que dum modo inesperado tinham varrido praticamente na totalidade toda a costa portuguesa, aquando da acção brutal do tsunami (artificial) que tinha acompanhado a Invasão Alienígena ao planeta Terra. Na altura em questão o mundo terrestre andava de tal maneira ocupado e preocupado com a evolução da Guerra Fria e com as consequências nefastas resultantes duma possível Terceira Guerra Mundial, que ninguém pareceu ligar aos primeiros indícios estranhos de que algo de anormal se estava a passar, como o foram por exemplo os casos, da malograda missão Apollo 18 e simultaneamente da destruição inexplicável da base lunar e dos misteriosos e enigmáticos assassinatos envolvendo o clã dos Kennedy, tudo isto passado numa das maiores potencias militares mundiais da época e sem qualquer tipo de reacção visível, excepção feita ao seu encobrimento. Aquela que seria a próxima Nova Terra-Mãe era por essa altura dominada por três grandes Corporações Mundiais, apenas interessadas na reprodução infinita e revolucionária – por impossível e utópica – da mais-valia e na supressão gradual e definitiva da mão-de-obra tradicional – os humanos analógicos – e a sua substituição por mão-de-obra facilmente descartável e sem grandes custos comparados de manutenção – as máquinas digitais.


Ishtar

 

A Invasão marciana consumara-se rapidamente, com o aspecto de toda a superfície da crosta terrestre a mudar radicalmente, fossem elas terras anteriormente à superfície ou em alternativa alagadas. Toda a geografia mundial mudara, apenas se vislumbrando em certos territórios menos atingidos, alguns indícios ou sensações que nos recordavam ainda – por ser um acontecimento recente – os “cheiros” da Terra anterior. No entanto tudo isto tinha uma explicação bem racional e que em último caso até poderíamos considerar, um problema alargado intergeracional: note-se que os mais novos revertem em si mesmos o progresso tecnológico tanto a nível de software como de hardware, sendo eles os primeiros a reclamarem para si as máquinas e todas as suas virtualidades infinitas, para se livrarem de vez dos humanos incomodativos e não susceptíveis de actualização, formatação ou obliteração.

 

A concretização do ciclo evolutivo no que dizia respeito a este sistema planetário, envolvia uma estrela central, três planetas interiores evolucionistas, um planeta origem – neste caso o planeta Nergal – e mais quatro planetas exteriores, com funções fundamentais na prevalência do sistema, seja funcionando como “verdadeiros polícias” ou “então como corajosos bombeiros”. A Terra anterior seria assim ocupada por uma espécie humanóide inferior, que teria sido enviada antecipadamente como pioneira para este mundo na altura estranho e inóspito, de modo a preparar o terreno para a vinda dos verdadeiros colonizadores. O que aconteceu no planeta Nergal acabou por acelerar todo este processo e no caso da preservação da Terra anterior a antecipação do evento teve um aspecto profundamente positivo, pois evitou todo o período da industrialização selvagem que aí vinha e que noutro mundo, tempo ou espaço, certamente destruiria. Os outros inferiores foram para o planeta Ishtar – o segundo planeta Interior – sendo instalados em pequenas ilhas protegidas do calor infernal e das terríveis radiações ambientais, iniciando aí em condições climáticas inenarráveis e sob total isolamento comunicacional a terra formação do planeta. No que diz respeito à minoritária elite dos inferiores esta era convidada a ficar com o estatuto de animal doméstico – protegidos pela declaração universal dos direitos dos animais irracionais – ou em alternativa em isolar-se duma forma voluntária noutros nichos do sistema, desde que devidamente registados e autorizados e sempre disponíveis a colaborar a qualquer momento com os humanos.

 

O momento era ainda de profunda estupefacção geral, face ao cenário que se apresentava diante eles e que os colocava à entrada dum mundo nunca conhecido mas inequivocamente familiar: recordações vindas do subconsciente individual misturavam-se duma forma caótica com as sensações provenientes da observação directa dos sinais vindos do mundo exterior, tentando dessa forma reconstruir um novo espaço que englobasse esses dois parâmetros naturais e organizasse minimamente as informações aleatórias que iam chegando por vezes sem sentido e em catadupa, ao periclitante edifício mental de cada um dos elementos presentes. Não foi assim de estranhar que o desequilíbrio momentâneo sentido pelo Manuel – e que o fez tombar para a sua esquerda envolvendo o Zé e o Caldas – os tivesse despertado da letargia em que se encontravam, levando-os de novo a pensar na sua situação actual e aumentado exponencialmente os seus níveis de alerta e preocupação, até pelo incerto estado de saúde de um deles e pelo ruído que parecia aumentar progressivamente vindo das profundezas do túnel onde se encontravam. Apressadamente pegaram no Manuel pelos braços e ajudaram-no rapidamente a levantar-se, dirigindo-se sem hesitações para o ponto onde tinham descoberto inicialmente a porta de acesso. Mas com os sons vindos do túnel a aumentar por proximidade e com o nervosismo a galopar os seus corpos e mentes face à chegada eminente de seres estranhos nunca vistos por um ser humano, o pânico começou a instalar-se e a crescer desmesuradamente entre eles e não fosse a acção extemporânea e irreflectida executada pelo Zé, provavelmente teriam sido descobertos e estariam agora em maus lençóis: em desespero o Zé atirara uma das duas lanternas que transportavam consigo contra a parede do túnel e este reagira automaticamente, criando uma abertura com a dimensão necessária para poder ser transposta sem dificuldades, o que eles fizeram de imediato e sem sequer pensarem uma vez. Mal passaram para o outro lado da abertura a fenda fechou-se e viram-se todos noutro compartimento, um pouco escuro e onde nunca antes tinham estado.


Fim da 1.ªparte (de 3)


(imagens - retiradas da Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 14:24

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