Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

03
Out 17

Reality may be just an illusion, what we see could be just one big projection of holographic anomalies. It sounds crazy but in 1997 theoretical physicist Juan Maldacena already proposed that our Universe is not real and would be merely a hologram. If our entire existence is a program then who is running the simulations?

 

Uma boa maneira de nos abstrairmos da monotonia violenta e indiferente que nos persegue (e se entranha) no nosso dia-a-dia (quotidiano) de miséria será o de esquecermos a Realidade que nos confronta e optarmos pelo Imaginário que (pacientemente) espera por nós (já com pouca esperança, perdidos que estão muitos sonhos ‒ em extensão e em compreensão).

 

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 Imperfeições

(anomalia no céu)

 

Pelo que uma boa alternativa aos canais oficiais de informação (comunicação e manipulação) ‒ cujos Flash (já nem sequer necessitando de ser subliminares) nos entram e saem abruptamente pelos ouvidos (sem utilizar o processador) ‒ que só transmitem a Verdade acordada por determinado Webmaster (in accordance with fact or reality), será o da opção pelo Anormal e se tivermos (sobre) capacidades pelo Paranormal.

 

E segundo este guião de trilho não definido (não indefinido por definido por alguém) e impróprio para o poder (sem estrada nem carro chegando-se a Espaço algum) ‒ surgindo (como por implosão e no meio dos destroços e levando por vezes a interpretações incorretas) inesperadamente o Homem (novo) olhando para o Outro Lado e no meio Conspirando (acreditando à falta de melhor nas Teorias da Conspiração).

 

According to Oxford philosopher Nick Bostrum it is quite possible that an advanced civilization with enormous computing power has decided to run simulations and projecting holographic displays to create an illusion and we are all living in this illusion. If that should be the case then what about the strange light anomaly in the sky filmed from an unknown location on September 28, 2017 that looks like some kind of projection which covers a part of the sky/clouds.

 

No meio infernal (tantos os cruzamentos e controles) constituído por todas as redes de comunicação utilizando todas as infraestruturas representativas do inimaginável Mundo Digital, por vezes saindo dali uma cabeça (saltando mas também puxada por nós) dando a sua opinião e (muitas vezes perdendo a cabeça) despertando a atenção: correndo sempre o risco da marginalidade efetiva (e crescente) ou então um dos imensos casos (o Normal) de sanidade mental.

 

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 Interferências

(objeto não identificado)

 

Sendo aqui a dimensão o objeto de transporte da imagem, como prova da existência, de uma outra no Espelho, num Mundo Caleidoscópico. Falando-se da nossa existência como a projeção num determinado espaço, vindo de um molde original e reproduzido indefinidamente algo no mesmo impresso (como se fosse um código genético), de um qualquer Holograma, registado numa sequência sem fim, num dos (infinitos e divinos) periféricos de Deus.

 

Com a Humanidade vivendo num Sistema Planetário (Sistema Solar) com cerca de 4,6 biliões de anos (pretensamente iniciado no Grande Estouro) e só há pouco tempo tendo a consciência da sua própria existência (ao confrontar-se com a inevitabilidade e o mistério do momento após a morte), olhando o Mundo à sua volta, para baixo, para os lados (e para dentro) e mesmo olhando para os céus, fazendo (sem o saber por drogado) de espetador estático calado na sua cadeira e olhando a projeção sem saber ser o protagonista (a hologram is a three-dimensional photographic image).

 

(texto/itálico/inglês e imagens: ufosightingshotspot.blogspot.pt)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 12:03

22
Dez 14

Ninguém é bom ou mau na cama. Se há um problema sexual, é outra coisa, mas senão há problemas concretos, basta que se goste muito de uma mulher; se isso acontece, ela é a melhor na cama. (António Lobo Antunes – Conversas com António Lobo Antunes – María Luisa Blanco – 2002)

 

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Deep Purple e Blue Jeans

 

No meio de um grande pandemónio causado pela presença de uma pequena multidão de fêmeas em estado de perfeita loucura e que cada vez em maior número se iam acumulando à nossa volta e ao longo de todo o curto percurso, tínhamos finalmente e quase que como por milagre alcançado uma plataforma mais elevada do hall de entrada do Bordel, que dava acesso a uma pequena torre de elevadores: com as portas a abrirem-se de imediato, foi só entrar no compartimento, assistir ao fecho das portas e arrancar dali para fora. E mal o elevador arrancou o ambiente do mesmo alterou-se radicalmente, tornando-se quente e relaxante e até com música ambiente. Quando segundos depois a porta se abriu entramos numa sala de decoração austera mas bem iluminada, onde dois seres curiosos nos aguardavam tranquilamente sentados num amplo e modesto sofá.

 

Enquanto Afro e o Negro se retiravam (eram evidentes os sinais libidinosos da fêmea em direcção ao Negro, num sinal claro de fúria substitutiva por ter sido sexualmente recusada por outro ao qual ela não reconhecia estatuto) ficamos os três abandonados na sala a olharmos uns para os outros: Ella saíra de junto de nós sem nada nos dizer e à frente deles só viam os dois bonecos a observar estranhamente estáticos. Reconheci de imediato o tema como sendo dos Deep Purple, enquanto duas boazonas utilizando unicamente um mini top como cobertura dos seus peitos bem guarnecidos e vestindo uns jeans que lhes torneavam o corpo esbelto e bem preenchido e prestes a explodir de desejo, se dirigiram ao Hipólito e ao Tiago raptando-os de uma forma de tal maneira vertiginosa, que nem tiveram tempo de dizer ai. Dirigiram-se para os módulos 27 e 28 e reservaram-nos para 60 minutos de sexo. Então e na presença dos dois estranhos desconhecidos, sentei-me junto deles e aí tive a minha última conversa.

 

Carlos e David Koch controlavam conjuntamente como irmãos de sangue e sobretudo como homens de negócios que eram, uma das maiores empresas coloniais ao serviço das hierarquias máximas e prevalecentes do sistema decisório e administrativo de então, a eles concessionada nestes últimos séculos por estrangeiros vindos do espaço profundo exterior e que pretendiam simultaneamente, continuar o seu processo de expansão noutras zonas inexploradas do Espaço, sem deixarem para trás outros pontos de interesse e experimentação. Como era o caso do Sistema Solar e particularmente o exemplo extraordinário do ínfimo mas grandioso planeta Terra, por essa altura a caminho de fasquias sucessivas e significativamente crescentes de triliões de habitantes, constantemente em conflito e originando por sistema guerras extremamente violentas (mas julgadas depuradoras por motivos que passavam completa e razoavelmente despercebidos aos estrangeiros) e no entanto sempre acompanhados por rituais procriadores e de sustentação da espécie baseados na pratica sexual e nos delírios religiosos daí resultantes (a favor ou contra): era como se a nossa esperança residisse num momento de extremo prazer, o qual só poderia suceder a um momento de percepção sensorial também extrema e se possível replicadora – violência, sexualidade, religião e criação de outros mundos mais para além e de carácter substitutivo.

 

E como o acaso os tinha convertido nos representantes preferenciais neste sector da Via Láctea, o mesmo acaso os tinha lançado para o negócio do lucrativo e eterno mundo do prazer tornado máximo e assim, aproveitando o conhecimento profundo dos terrestres nessa área e o aparecimento de raças interessadas nestas experiências, maioritariamente passadas e esquecidas e agora de novo (e por necessidade evidente) recuperadas, levando-os a expandir o sector e diversificar as suas aplicações. O único entrave na engrenagem fora o caos climático que destroçara o planeta e toda a sua organização social e a chegada abrupta, inesperada (mas quase previsível) dos chamados Fantasmas do Tempo, fanáticos religiosos e supostamente separadores de almas: só o sexo os derrotaria, ao assumirem a partilha (e não a oferta) dos seus corpos e compreenderem como duas almas se juntavam, simplesmente sem pedirem nada em troca e no entanto formando um todo. Agora bastava esquecer o tempo, sobrevalorizar todo o espaço existente e transformá-lo num outro Universo talvez coincidente talvez concorrente por atribuição de movimento e simples trocas de energias (corporais e espirituais). Sexo, sexo, sexo – deveriam era ocupar-se com ele (e promover ainda mais o Bordel)!

 

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ZZC acompanhado por três alienígenas

 

Deixei definitivamente para trás todos aqueles que nos tinham acompanhado nestes últimos tempos (de aventura, descoberta e conhecimento) e fui ter com os meus verdadeiros amigos Hipólito e Tiago (os quais me tinham socorrido sem contrapartidas prévias, na minha inesperada e atribulada chegada). Os módulos 27 e 28 para os quais tinham sido encaminhados equivaliam parametricamente à concretização ideal dos seus mais profundos desejos, traduzidos não só na introdução de Hipólito e de Tiago num cenário por eles já usufruído e nunca esquecido, mas agora aperfeiçoado na sua projecção espacial (por sobreposição e escolha) e colocado numa realidade paralela simulada.

 

Sincronizou o módulo adjacente com os de Tiago e Hipólito e colocou a aplicação a correr: instantaneamente viu-se colocado num dos últimos andares da maior torre de Portimão (cerca de 85 metros de altura), observando à sua volta tudo aquilo que esta região já fora e oferecera – paisagens, calor, mar, multidões, convívio, acção – enquanto que num dos lados do amplo piso e sobre um estrado de madeira luxuosamente decorado, os seus dois amigos se deixavam subjugar por várias acompanhantes de luxo, nuas, oleadas e brilhantes e desejosas de entrar em acção. Para desse modo confirmarem os seus créditos ao Administrador da ZÉZÉ C & Herdeiros (uma empresa de originais e derivados sexuais, fundada na região durante o século XX por ZZC) e assim servirem com entusiasmo e na perfeição as suas outras metades, os clientes. Nos Jardins da Rocha a vida celebrava-se agora sem controlo nem limitações temporais ou morais e com o prazer a ser o único critério de vida capaz de esmagar a monotonia crescente do nosso quotidiano, quase sempre imutável e como tal miserável.

 

Num dos pisos do poderoso edifício da Praia da Rocha o que todos os presentes ali viam e idealizavam, era um geométrico e grandioso pénis erecto com os seus dois respectivos testículos funcionando como uma raiz (fortemente ligada à terra e pronta a expulsar para o Céu a sua seiva inspiradora); fazendo pulsar desenfreadamente e em toda a sua extensão (e definição) o membro periférico primordial e provocando nele por implosão celular uma forte onda de choque, tornando-o rígido (apesar de adaptável) e erecto (na realidade curvo). E por associação de razões associadas num só tema mas com ligações infinitas, estavam todos ali para eleger uma grande personalidade Universal que em si personificasse o ponto central desse tema, em toda a sua profundidade, múltipla capacidade de penetração e conhecimento de todas as zonas envolventes: rodeado por três das suas maiores fãs de origem alienígena, ZZC recebia o Prémio Nobel da Paz por serviços relevantes prestados aos homens (pioneiro da utilização de termos como boi e vaca) e (especialmente) às mulheres. Seguiu-se uma grande orgia contando (sem uma única excepção) com a participação de todos os presentes, finda a qual todos se dirigiram até à praia para se lavarem na água do mar e secarem com os ares da natureza as suas preciosas partes íntimas.

 

O Verde vislumbrou então os compartimentos privados. Abriu a porta do número 28, entrou no seu habitáculo, ligou o monitor que se encontrava na parede e enquanto fechava a porta seleccionou o menu: partilhado com o 26 e o 27 e com oferta aleatória. Mal foi aceite o seu pedido entrou logo na simulação já em curso e encontrou-se de imediato integrado num mesmo cenário proposto e partilhado, na companhia de Hipólito, de Tiago e de mais duas belíssimas mulheres: surpreendentemente ambos utilizavam aparentemente dois dos seus maiores fetiches sexuais, enquanto em consciência penetravam as fêmeas. E mal sentiu o seu membro começar a interagir a bela Ella reapareceu. “Dormir, comer, fazer sexo, há coisa melhor na vida?” (Web)

 

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Centro Paralelo ZZC

 

E enquanto o Hipólito (disfarçado de palhaço) continuava a exercer a sua tradicional ideologia e prática quotidiana (aqui desmascarada por atitude de posse), em sentido aparentemente contrário o Tiago (aqui induzido como alienígena) ia progressivamente deixando-se descair sobre o perfeito e curvilíneo corpo da sua fêmea, apalpando-lhe os seus seios modelares enquanto a ia penetrando fisicamente como um pêndulo e usufruindo-a espiritualmente.

 

Com muita dificuldade lá consegui que o Hipólito e o Tiago abandonassem os seus objectos particulares de desejo e me acompanhassem (apesar de bastante contrariados) até ao interior da limusina graciosamente cedido por ZZC, partindo o grupo de imediato e na companhia dos dois irmãos Koch (Deep Purple e Blue Jeans) para a sua curta viagem até à vila de Alvor. O encontro estava marcado para a área rodeando o aeródromo de Portimão, na tentativa de localizar o ponto preciso onde a minha nave se despenhara e da sua possibilidade de recuperação (no local). E lá chegamos todos à entrada principal do aeródromo por volta do início da tarde. Um dos irmãos Koch assinalou as nossas coordenadas no seu equipamento portátil e por comparação do trajecto simulado pela minha nave com outras situações de matriz semelhante, tentou desmontar as diversas soluções possíveis de modo a assim encontrar a resposta adequada: o ponto encontrado situava-se mais para noroeste da ponta mais afastada da pista, num local agrícola com algumas pequenas árvores e outra vegetação dispersa e com um pequeno e pouco visível declive, talvez formado pelas margens de pequenos cursos de água (e com a zona da Penina nas suas proximidades). Mas teriam que abandonar o mais rapidamente que pudessem o local, pois a limusina onde se encontravam, já começava a despertar a curiosidade de muitos dos transeuntes. Nem perceberam o que aconteceu: num momento lá estavam, num outro nunca estiveram.

 

E enquanto um dos Koch chamava a nossa atenção (para o seu irmão) apontando um indicador determinado, carregando no teclado (do seu portátil) logo o outro respondia, consensualmente carregando Enter: lá fora o cenário mudava radicalmente no espaço e o tempo indicado era o da queda da minha nave. Mas nem sinais nem vestígios dela. Sobre a superfície gelada onde se situaria o aeródromo nada se mexia, com umas pequenas ruínas mal sobressaindo dos sucessivos montes de gelo pontuando aqui e ali a paisagem, quase se assemelhando a vegetação naquele cenário gelado. Aí o monitor detectou sinais de movimentos muito ligeiros duzentos metros mais para à direita e oriundos dos restos amontoados de antigas habitações de nível menos elevado (e por essa razão mais protegidas da acção difusora e penetrante do vento), destacando-se por sua vez no pequeno ecrã a imagem de três pontos dinâmicos concentrados em redor de um único corpo de referência e emitindo considerável e já não considerada (nos seus processos de obtenção) energia térmica.

 

Sem se fazerem notar, mantiveram os critérios mínimos de invisibilidade e aproximaram as câmaras: em torno de uma fogueira extremamente pequena mas de rara beleza nos seus instantes finais, dois homens assistiam com os seus corpos curvados e já paralisados ao estertor de um terceiro, morrendo por infecção sanguínea irreversível sobre um espelho inóspito e gelado mas por ventura reflector do Sol e da Vida. Quando o fogo se extinguiu o terceiro homem já morrera: cobriram-no cuidadosamente com pedras, beberam mais um largo trago daquele irrepetível Medronho e sem pensarem demais (o tempo agora era extremamente precioso) retomaram o seu caminho (teriam que atravessar o antigo Arade antes das próximas três horas). E foi quando se viraram para nós que eu vi quem eles eram: diante de mim os pretensos viajantes de S. Marcos da Serra e seus perigosos medronheiros originadores de consequências mortais eram nada mais nada menos que os meus queridos amigos Hipólito e Tiago. Olhei para eles ao meu lado e francamente não me consegui conter mais: enquanto me ria com a situação criada, via-os atrapalhados olhando para si próprios, enquanto olhando para mim confessavam incrédulos e face à fatal evidência, os contornos virtuais (ou pequenas imprecisões) da sua história. Mas algo estava claramente incorrecto nesta repetição do que deveria ser a mesma sequência. No fim rimo-nos evidentemente de tanta palermice, talvez provocada pelo prazer talvez suscitada pelo excesso: apenas nos tínhamos esquecido do pequeno pormenor, da mudança localizada da hora.

 

Tinham partido a bordo da minha nave sem demonstrarem dúvidas nem suscitarem qualquer tipo de receio com a decisão por eles tomada. Hipólito e Tiago mereciam por simples comprometimento o espaço de aventura e descoberta a eles oferecido e por outro lado (e vantagem), sempre eram uns bons exemplares de uma raça com certos pormenores a preservar mas infelizmente talvez em vias de extinção. E não faltou total entretenimento enquanto a nave não ultrapassou definitivamente os limites desta galáxia, após os quais e iniciado o período de hibernação dos seus tripulantes, se ejectou num único salto para outro mundo e se perdeu para (este) sempre e em todas as suas dimensões no espaço (e no vazio).

 

Fim da 4.ª parte de 4

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 13:32

21
Dez 14

Toda a transformação se baseia em contínuas transferências energéticas entre diferentes pontos do espaço, fornecendo a Energia todos os parâmetros evolutivos e necessários para a sua transformação em Matéria, por aceleração das partículas, seu deslocamento e projecção simulada (realística ou imaginária) noutro referencial.

 

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Hologramas sexuais

 

Enquanto nos afastávamos da habitação onde tínhamos passado a noite anterior, íamos observando preocupadamente a evolução da tempestade que se avizinhava e que já cobria com nuvens densas e carregadas quase todo o nosso horizonte visual: pelo seu aspecto e pelo grande arrefecimento que já se registava deveria ser bastante violenta, fazendo-lhe lembrar o recente relato do extremo evento meteorológico ocorrido no ano de 2033 e a ele contado pelos seus dois amigos terrestres, onde os poucos sobreviventes urbanos (com todos os apoios básicos já completamente destruídos) acabariam por não resistir e morrer rapidamente por hipotermia. À frente da coluna de seis elementos ia Afro e o seu Negro, com os dois amigos terrestres logo atrás e com Ella um pouco mais afastada a encerrar a fila acompanhando-me. E de vez e quando sorria-se para mim, coincidindo com os momentos em que Afro se virava para trás e abria provocatoriamente a sua boca de lábios carnudos.

 

Durante a caminhada verificamos que o veículo esférico já não se encontrava no local tendo desaparecido: nem sequer tínhamos ouvido qualquer ruído que indicasse a sua partida mas pelo rodado deixado no terreno ele chegara ali, não se mexera e simplesmente deixara de ali estar. Não havia sinal de rodados a sobreporem-se e até a neve que começava agora a cair e o vento que se fazia sentir, já começavam a apagar os vestígios da sua anterior presença. Mas o que tinham mesmo que fazer era apressarem-se pois as condições meteorológicas começavam a tornar-se visivelmente insuportáveis.

 

O grupo acabou por ser apanhado momentaneamente por um fenómeno local extremamente violento, dividindo-se em dois: enquanto o Negro acompanhado por Tiago e Hipólito se dirigiram de imediato para o ponto de encontro, os restantes elementos refugiaram-se no abrigo que os dois amigos terrestres tinham descoberto na sua investigação matinal. Mal entraram fecharam de imediato a porta da casa, mas como as condições atmosféricas continuavam a agravar-se de uma forma deveras preocupante, acabaram por seguir o seu caminho e descer até à cave – aí procurando refúgio. Segundo Afro teriam que se proteger o melhor que pudessem durante cerca de uma hora (o tempo de passagem da espessa e brutal frente da tempestade, antes de atingirem o olho da mesma e aí poderem abandonar em segurança o local), após o que poderiam sair e ir ter com Negro ao ponto de encontro, que esta afirmada seguro e protegido.

 

O frio fazia-se sentir já intensamente quando verificaram a existência de uma reentrância num dos lados da parede da cave e onde provavelmente teria existido uma porta. Afro pegou então no pequeno periférico que trazia à sua cintura, consultou-o apressadamente e num instante virou-se para nós e com toda a sua certeza pediu para a seguirmos. Percorremos algumas dezenas metros e finalmente fomos ter a um corredor que ia dar a um beco sem saída, terminando numa sólida e estranha parede: perfeitamente vertical e apresentando uma superfície suave e completamente limpa, a parede brilhava com o impacto dos raios de luz, parecendo divisar-se por momentos e para além dele um cenário colorido mas ainda bastante confuso. E no meio do frio extremo que já suportávamos e do barulho da tempestade que nos rodeava, a parede dilui-se, demos três passos em frente e vimo-nos então fechados e protegidos numas instalações que poderiam ser as de um qualquer empreendimento hoteleiro de luxo, apresentando o seu melhor aos seus estimados clientes. Era inacreditável o contraste.

 

Fomos recebidos por uma realidade inesperada. Até para um alienígena como eu passando por ali como um visitante acidental e com poucos ou ocasionais conhecimentos sobre a galáxia onde me encontrava, o objectivo de todos aqueles privilegiados que até agora por ali encontrara, parecia demasiado restritivo e contraproducente por se dirigir apenas a uma única unidade temática: como uma obsessão a sexualidade parecia ser o único motivo de acção destas criaturas, parecendo estas querer demonstrar que a sua exclusividade de intervenção local (nesta parte da galáxia) poderia ser o motivo temporário e fundamental do seu próximo passo na evolução. Ou não fosse o resultado dessa função a causa de existência de vida.

 

Ainda nos estávamos a adaptar às novas circunstâncias e já Afro se deslocava na minha direcção. Enquanto isso Ella e o Negro tinham-se movimentado até ao ponto onde Adão e Eva os esperavam (já em contacto e unidos fisicamente por penetração), aguardando tranquilamente a chegada da serpente. Fora a serpente que ali os colocara, fora a serpente que ali os projectara e seria a serpente que decidiria os novos cenários onde seriam replicados. Não era por acaso que tinham sido para ali convidados e certamente que as suas fobias sexuais muito tinham contribuído para o seu estágio preparativo e condicionante do acesso ao prometido e desejado Bordel. E o mesmo se passava no outro cenário contíguo com a presença da fêmea cornuda (um fauno). E a serpente era o nome de código da Boa Empresária conhecida como Afro (hierarquicamente uma Jibóia Constritora), ali presente de momento e actual directora do famoso Bordel. Mas para mim fisicamente esta mulher não fazia o meu modelo. Com a sua força e destreza ainda me atirou violentamente ao chão, tirou rapidamente a sua curtíssima tanga que se escondia entre suas duras e volumosas nádegas e sacando do meu pénis por introdução da sua forte mão direita no interior das minhas calças, ainda o enfiou na sua vagina mas sem reacção vital correspondente. E já com Ella tendo iniciado a sua interacção bilateral com a bizarra e enigmática fêmea cornuda (com o Negro sentado a observá-las, aguardando instruções da serpente), Afro levantou-se furiosa e com cara de poucos amigos desligou abruptamente a projecção em curso. Viram-se de novo sozinhos na cave: os seres adicionais tinham desaparecido, apesar de o nosso cérebro continuar ainda a processar elementos objectivos, mas já sem presença física complementada pela sua imagem (agora ausente). Aproveitaram a acalmia temporária e completaram o seu percurso exterior até chegarem ao ponto de encontro. Entraram então no cilindro.

 

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O Bordel – localizado nos limites do Sistema Solar

 

À chegada do grupo fomos logo introduzidos no interior da famosa unidade de prazer e orgasmo instalada no planeta anão Éris e conhecida entre os sistemas mais próximos como o Bordel. A esmagadora maioria eram mulheres e o curioso era que elas eram os únicos clientes. Não sendo pois de espantar que passados pouquíssimos segundos estivéssemos rodeados de dezenas de fêmeas esfomeadas, pressionando cada vez com maior intensidade o pequeno grupo acabado de chegar (quatro machos quatro novidades), numa tentativa desesperada de nos tocarem e deixando em muitos maus lençóis os pequenos e inocentes Hipólito e Tiago. Com muita dificuldade ainda conseguiram descortinar aos balcões do estabelecimento umas quantas mulheres de estrutura corporal muito rectilínea e mesmo nada apelativas (e com um rosto expressivamente masculino), sendo coadjuvadas na prestação de serviços (associados aos contratos determinados pelos seus clientes) por outros elementos mas aqui móveis – e que vagueavam de uma forma bem visível e sobressaindo do cenário aqui exposto, pelo número crescente de fêmeas que os iam rodeando. Olhando com curiosidade e soberba para o membro que o cinto guardava. Se ao balcão eram fêmeas (apesar do seu mau aspecto) estes certamente que seriam machos (até pela protuberância apresentada).

 

Mais de 90% dos clientes distribuídos pelas cinco colónias de Éris pertenciam a uma raça alienígena bastante antiga e de origem humanóide imprecisa, que optara violentamente há já muitas gerações por uma organização matriarcal da sociedade onde viviam, a qual infelizmente e à imagem dos piores momentos protagonizados pelos homens (os machos) se radicalizara na sua evolução. Perseguidos ferozmente pelo fanatismo assexuado de certas fêmeas, exibindo provocatoriamente as modernas máquinas biológicas que os iriam substituir nas funções que estas consideravam estritamente necessárias, os machos vislumbraram apenas três cenários realistas que os poderiam proteger da extinção: ou se transformavam em mulheres, ou se tornavam em escravos ou o seu destino seria o desmembramento servido com morte lenta. Nesses mundos distantes em milhares de quilómetros não se via um macho e a vida sensitiva era digitalizada: o prazer só tinha que ser parametrizado e introduzido no ponto do espaço particular, já que a realidade virtual assente no objecto se encarregaria de nos orientar por simples análise e tradução da nossa imagem protegida (subconsciente).

 

Mas as memórias nunca se perdiam, estampadas como estavam na cultura do seu povo. Nem que se restringissem à sua componente física e estritamente sexuais. O momento original nunca fora esquecido e o ponto de contacto entre corpos continuava a ser considerado como o ponto máximo nas interacções virtualmente materializadas: e então as fêmeas sentiram que algo as impedia de atingir um novo nível de percepção e interacção mais intrusiva e penetrante, apenas porque o novo quotidiano (por elas estabelecido) se tornara infinitamente monótono, por extremismo de aplicação das normas e regras legais. E o acto sexual concretizado entre dois corpos anatomicamente diferentes mas naturalmente adaptáveis, poderia ser o escape perfeito e com máximo prazer. Assim se lançaram no espaço chegando até Plutão e aí criando um dos seus mais famosos e importantes entrepostos sexuais, na altura com a Terra ainda em lume brando mas já há muitas décadas famosa pelas suas extravagantes e fantásticas experiências sexuais de múltiplas penetrações e parceiros, numa orgia tremenda de violência e prazer ininterrupto.

 

O único percalço acontecera há oito anos levando à transferência imediata e definitiva do Bordel para o quase que vizinho planeta anão Éris e à fundação de mais quatro dependências de aperfeiçoamento. Um dos motivos invocados fora a despromoção de Plutão do estatuto superior de nono planeta do Sistema Solar, transformando-o em mais um comum calhau orbitando o Sol e pertencente à cintura de Kuiper. Mas o que na realidade teria sucedido (segundo o entendimento do Negro) fora a persistência alarmante de certos rumores que iam chegando a Plutão oriundos de um dos planetas interiores do Sistema Solar, aparentemente lançados por uma outra raça alienígena desconhecida e provavelmente originária do lado oposto deste Universo, que não estando disposta a abandonar o seu protagonismo ancestral naquela região do espaço, nem tendo a vontade de suportar a estrutura organizativa desta sociedade fanática no seu feminismo ideológico (além de ser baseada na replicação vazia por inalterada do indivíduo), avisavam solenemente os recém-chegados para que por respeito abandonassem o antigo planeta e levassem consigo as suas construções e restante tralha dita tecnológica. Sempre ficariam mais longe. Mas de facto a história que se contava não era mesmo bem assim.

 

Num certo dia da nossa ainda curta História e já com o Homem utilizando ferramentas pelo próprio construídas depois de imaginadas e ensaiadas (para a transformação da Natureza e para seu próprio benefício), um grupo constituído por cerca de uma centena de elementos chegara ao outro lado do Sol vindos dos confins do nosso Universo. Intitulavam-se como os Fantasmas do Tempo e afirmavam-se como Profetas enviados por uma Entidade Espiritual de Nível Superior a este Sistema, a qual os teria incumbido da divulgação da sua Palavra e da organização dos diversos estados de convergência e de divergência dos seus futuros e mais que potenciais fieis. Depois de analisarem detalhadamente todo o Sistema tinham optado por se instalarem em Júpiter e aí sediar a sua Igreja. A grandeza imperial deste gigante gasoso rodeado pelos seus múltiplos e magníficos anéis, pelas suas luas activas e misteriosas e proporcionando complementarmente um excelente refúgio para todos os seus membros e assistentes, tinha-os conduzido a uma decisão que se revelaria correcta e de fácil execução e implementação. Tendo como cenário um planeta e a introdução simulada de um factor extraordinariamente abstracto: tendo o período entre o nascimento e a morte como referência, o triângulo Céu/Purgatório/Inferno como destino e a Alma como o objecto da transformação. E enquanto a Matéria se transformava, o Movimento existia e a Energia evoluía. No centro do planeta concentrar-se-iam os Santos, nos anéis os arrependidos, enquanto que os pecadores seriam enviados em direcção ao Sol para sentirem os terríveis horrores do Inferno. E tudo funcionara na mais perfeita conjugação (espiritual), até ao dia em que os materialistas chegaram: o Bordel era um pecado e uma afronta e por consenso e estratégia simbólica acabara por se retirar, mas não para muito longe.

 

Fim da 3:ª parte de 4

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 16:01

17
Jan 14

(Contra-Ficheiros Secretos mas com Contornos Alienígenas) – 2/2

 

Esta história envolve velhinhas, porcos e seres não identificados, talvez anjos ou talvez demónios. Retrata a confusão que existe e persiste entre sonho e realidade e entre caos e ordem. Mas como os pares se complementam, estes fazem parte da mesma coisa e mesmo na maior confusão, se pode dar o início a algo ordenado.

 

A Letra Extra do Alfabeto

 

Se pensarmos num Universo percorrido por uma infinidade de correntes correlacionando o espaço e o movimento (nunca integrando aqui e directamente o tempo abstracto) e pensarmos na curvatura do mesmo, poderemos imaginar facilmente duas curvas formadas a partir da fractura do círculo perfeito inicial provocadas pela acção das forças criadas a partir do Big Bang e da esfera perfeita original – onde as forças equilibrando-se no seu estado neutro formavam a esfera perfeita – que abrindo-se ou fechando-se conforme as acções/reacções sofridas, possam a vir a fazer coincidir os seus ramos e criar assim um novo fluxo agora em circuito parcialmente fechado: essa nova junção de correntes poderia levar-nos à possibilidade de se poderem estabelecer no presente, contactos entre o passado e o futuro.

 

A porca Matilde corria como uma louca no interior do cercado, perseguindo sofregamente o gato preto do velho curandeiro – que subindo as árvores e saltando pelos muros a parecia querer desafiar – demonstrando desde logo e duma forma clara e exuberante, que já recuperara a sua boa condição física anterior: ultrapassada a emergência que trouxera a porca prenhe e doente ao curandeiro, restava-lhes despedirem-se e regressar a casa. A Tia Vitória já as aguardava há alguns minutos à entrada do portão – tendo já acondicionado no carrinho a porca e alguns alimentos e sementes que entretanto adquirira na mercearia da terra – quando a mula lá se resolveu começar a mexer, dando as primeiras indicações que estava pronta a arrancar e a começar a viagem de regresso.

 

Mas a história envolvendo o nobre da freguesia com pacto celebrado com o Diabo e registo de violação de menores – além da sua ligação com os bastardos pretensamente gerados pelas três senhoritas – não se podia ficar por esta bizarra explicação, envolvendo seres estranhos e misteriosos acompanhando eventos inexplicáveis, mas que não podiam pela sua incredibilidade e falta de demonstração justificar tudo e ilibar todos.

 

Elas tinham procurado alguma coisa de surpreendente que as fizesse distinguir da normalidade e apatia adoptada tranquilamente pelos seus semelhantes e no entanto fora um mero acaso da vida que lhes proporcionara um novo caminho a percorrer, oferecendo-lhes de mãos abertas o alargamento a novos limites do seu horizonte de vida e proporcionando-lhes o alcançar de percepções e sensações sempre presentes mas consideradas inalcançáveis: a vida baseia-se na crença em si próprio e na partilha das coisas, nunca na opinião que se tem de algo ou de qualquer coisa relacionada.

 

Em casa da Tia Vitória tudo voltara à normalidade: a porca acabara por parir e os bácoros não paravam de grunhir. Por outro lado a gravidez das três jovens ainda era mantida em segredo e até para as próprias chegava mesmo a ser tabu. Como poderiam estar prenhes se ainda eram virgens? E nessa noite ainda a raposa andara a rodear o lugar do galinheiro, pondo as galinhas em alvoroço e despertando a mais nova das senhoritas. Os futuros leitões também não paravam de gritar.

 

Ao fundo viam-se três luzes com tons coloridos e intermitentes deslocando-se de oeste para este a grande velocidade e que ao atingirem os pinhais do Aquilino pararam repentinamente, ficando por segundos a pairarem no ar sem se mexerem um centímetro. Subitamente as luzes apagaram-se e sob o manto escuro da noite, só se via a Lua e algumas estrelas. E estavam as três jovens a espreitar do interior da habitação com os animais ainda alvoroçados e aglomerados atrás delas, quando um raio atravessou e iluminou o céu parado e escuro, indo estourar violentamente bem em frente delas no meio do pátio do quintal: assente a poeira e restabelecido o equilíbrio visual provocado pelo violentíssimo choque (escuro/claro/escuro), as três jovens puderam divisar no meio da penumbra um veículo semelhante ao que tinham visitado tempos antes e com três seres a deslocarem-se para o seu exterior e dirigindo-se imediatamente para elas.

 

O Símbolo Transcendental

 

Enquanto dois dos elementos ali presentes foram desde logo reconhecidos – com o jovem e esbelto homem, a ser o objecto responsável pela identificação imediata – tornara-se por outro lado demasiado evidente com a dissipação da poeira levantada pela chegada dos visitantes e com sua rápida aproximação, que o terceiro elemento que seguia entre o casal não era um ser humano nem algo que se assemelhasse: tinha a forma dum corpo humano, era constituído por componentes semelhantes – similares à cabeça, tronco e membros – e comportava-se em atitudes e movimentos como se fosse mais um deles, imitando-os, seguindo-os e enquadrando-se quase duma forma natural no cenário que os envolvia. Só que o seu conjunto brilhava sob os efeitos da luz artificial e a sua cabeça não era de certeza humana: com os dois hemisférios cranianos completamente simétricos e apresentando uma perfeição de detalhe absoluta, o aspecto global de distribuição facial externa dos seus órgãos dos sentidos, era incompatível com todas as formas e estruturas até hoje atribuídas aos seres humanos. E o mais curioso era que sobre a parte intermédia do seu corpo – onde no homem se situaria o tórax – apresentava um símbolo bem saliente e visível: a letra “π”.

 

Esta letra extra deste alfabeto estrangeiro para elas simplesmente estranha e desconhecida, tinha sido popularizada na Terra no século XVIII pelo matemático suíço Leonhard Euler. Adoptada inicialmente a partir da palavra grega associada ao termo perímetro, esta letra acabou por descobrir a sua exacta correspondência numérica, associando-se a um número também ele único e estranho e representado matematicamente através de uma dízima infinita não periódica – um caso muito particular de número irracional. Belo mesmo numa expressão limitada:

 

3,14159 26535 89793 23846 26433 83279 50288 41971 69399 37510 58209 74944 59230 78164 06286 20899 86280 34825 34211 70679 82148 08651 32823 06647 09384 46095 50582 23172 53594 08128 48111 74502 84102 70193 85211 05559 64462 29489 54930 38196 44288 10975 .......

 

No entanto se este símbolo era aqui transformado numa mera expressão numérica, no nosso caso esse símbolo não se limitava à sua particular irracionalidade, estendendo a sua influência universal a um nível de compreensão superior e a um estado de transcendência espiritual: se era impossível resolver o problema da quadratura do círculo – já que nunca se poderia obter um quadrado com área igual à de um círculo – no caso destes estrangeiros π tinha um significado muito mais extenso, podendo no infinito significar apenas a união do tempo e o aparecimento de mundos paralelos. Bastava pensar um pouco em pares infinitos de linhas curvas regulares (LCR) – criadas pela ruptura dos círculos sob a acção de forças externas gravitacionais, abrindo-se posteriormente no espaço devido à contínua expansão do Universo – e pensar que cada um desses ramos representaria num caso o passado e no outro caso o futuro: se fossemos capazes de unir estas LCR fazendo os seus ramos corresponderem exactamente em pontos perfeitos e curvos de ligação, talvez pudéssemos criar uma corrente entre estes dois ramos, constituindo agora um circuito fechado e assim visitar pontos determinados no tempo passado ou futuro; outras interacções entre outros dois pares de LCR poderiam mesmo transportar-nos para outros mundos paralelos, reais ou virtuais e provavelmente todos simulados – com excepção do mundo existente à contagem Zero.

 

Objecto Voador Não Identificado

 

Subiram as três para o veículo estacionado no interior do terreno da Tia Vitória, acomodando-se confortavelmente nos lugares situados mais próximos duma das janela de observação, a qual lhes permitiria usufruir dum amplo campo de visão e apreciar o que estava do lado de fora do veículo. Elevaram-se rapidamente nos céus e arrancaram em direcção a sudoeste: a proposta era fazerem um pequeno passeio em direcção à costa para lhes mostrarem o oceano que até hoje nunca tinham visto mas apenas ouvido falar, aproveitando a ocasião para lhes falarem dum pequeno mas importante pormenor, findo o qual e se elas ainda estivessem de acordo lhes prometiam uma surpresa que certamente não iriam recusar. Estariam de regresso a casa ainda antes da hora do almoço e certamente se arranjaria alguma desculpa credível e que a Tia delas não teria razões para não aceitar.

 

Foi logo no início desta viagem turística e aproveitando o prazer e a calma com que as três jovens usufruíam desta oportunidade única e impensável – de poderem ver em toda a sua amplitude e beleza a paisagem que lhes era oferecida sob os seus pés – que os três seres se lhes dirigiram delicadamente, solicitando-lhes por momentos um pouco da sua atenção: queriam arrumar logo o caso envolvendo o “pormenor” de que lhes tinham falado antes do início do passeio, mas descansando-as desde já sobre as causas e consequências deste dito pormenor, que segundo o que afirmavam não deixaria nenhum vestígio nelas, tal e qual como se nunca tivesse acontecido. Aliás nem mesmo elas se tinham apercebido disso não fossem eles lhes terem comunicado previamente o acontecido, situação de que se arrependiam solenemente mas que em circunstâncias idênticas para eles era um procedimento normal. A sua impregnação não era irreversível, tendo-se apenas que sujeitar cada uma delas a um tratamento directo e na hora de recolha e neutralização: duas aplicações e tudo voltaria ao normal. Recolhida a amostra e revertido o processo de impregnação, o plano inicial dos visitantes seria integralmente cumprido e quanto às três jovens arranjariam maneira de no fim deste episódio transitório lhes retocarem um pouco as recordações deste episódio – certamente significativo nas suas vidas – de modo a na sua memória se misturarem factos reais com percepções fictícias e desse modo estas não serem capazes de recriar cenários compatíveis de aceitação pela comunidade, seguindo os modelos básicos morais e sociais adoptados pelos humanos. Ainda um pouco confusas as três jovens ainda se riram da situação provavelmente por eles inventada – o que até era bom não ser verdade, não fosse o Diabo e as beatas tecê-la – e acharam que tinham estado sempre a brincar com elas: mais uma brincadeira agora com médicos e doentes até que as divertia ainda mais e tornava aquele passeio maravilhoso.

 

Ao passarem junto da mata do Buçaco o veículo aproximou-se momentaneamente do solo e aí as três jovens ficaram maravilhadas com a presença no meio das árvores e do verde da vegetação local de grandes e bonitas moradias edificadas sobre as elevações do terreno que até pareciam palácios e que no seu conjunto pareciam criar uma terra como a dos duendes ou como aquelas que apareciam nos conto de fadas. E então quando viram o verdadeiro Palácio do Buçaco com os seus esplendorosos jardins e lagos cheios de animais emplumados ficaram extasiadas com o espectáculo, deixando-se levar pelo mesmo, mesmo não acreditando no que viam. Ficaram sobressaltadas quando o veículo deu aquilo que parecia ser um pequeno salto (ou queda) e no exterior tudo o que viam se alterou repentinamente: o aspecto geral da paisagem parecia assemelhar-se pelo menos na sua topografia e geologia ao que tinham estado a observar anteriormente, só que agora aquilo que o compunha e preenchia não era o mesmo. O que viam agora ao longe era uma paisagem já mais despida e polvilhada de casas, com uns carrinhos estranhos e sem animal de carga que os puxasse a circularem – movimentando-se ordenadamente em caminhos de cor escura – e com um conjunto de árvores já bastante envelhecidas espalhadas por certas parcelas de terreno, mas muito mais concentradas perto delas e junto à mata. E então viram o pobre do leitão perdido junto do que provavelmente seria o corpo da sua mãe, que não se mexia parecendo estar morta. Ao longe um grupo de pessoas armadas caminhavam na direcção destes dois porcos, o que deixou as jovens em alvoroço pelo perigo que o leitão estaria agora a correr, gritando que os salvassem pois de certeza seriam caçadores que o iriam matar. Vendo-as em sofrimento pelo animal os três seres só tiveram mesmo que o recolher.

 

A porca já estava morta. Mas o leitão parecia gozar de saúde e estar contente com as suas três novas companheiras: eram novinhas, brincalhonas, quentinhas e só o tratavam bem. No entanto era um porco e urinava e defecava onde lhe desse na cabeça e isso não podia acontecer e continuar. Um pouco contrariadas e após um novo salto que as recolocou no espaço e no tempo certo, largaram então o leitão numa ampla quinta localizada não muito longe do local onde o tinham recolhido, mais especificamente na Bairrada, com a certeza de que seria bem tratado pelos outros porcos e porcas que por ali andavam a comer e a passear: pelo menos as porcas pareciam não o largar, sempre agitadas e com o seu rabo mexendo-se sem parar como se estivesse a rodopiar de puro prazer e com o leitão não se fazendo rogado a meter-se no meio delas, saltando excitado como uma criança do lombo de uma para o lombo de outra. Para ele a Bairrada representava o seu futuro.

 

Buraco Negro

 

Dirigiram-se então numa viagem incrível e fascinante através do espaço e do Sistema Solar, em direcção ao centro da nossa galáxia a Via Láctea. Puderam olhar através da imensidão profunda e sem fim do Universo, percepcionando de perto e directamente todos os planetas exteriores à Terra, com os gigantes gasosos sobretudo o grandioso planeta Júpiter a imporem toda a sua beleza, no seu caso complementada pela maravilha visual que eram os seus numerosos e concêntricos anéis, que pareciam proteger, conter e mesmo esconder todo seu extremo poder; não deixando para trás a visão e a recordação do início desta viagem, com a cintura de asteróides a surgir diante delas como se fosse uma porta de entrada e protecção para o seu planeta. Saíram pouco tempo depois do Sistema Solar dirigindo-se para o Buraco Negro que os esperava no seu centro: a parte significativa da aventura começaria verdadeiramente aí e depois as três jovens só teriam que interiorizar e assimilar a sua experiência, já que as suas memórias mesmo que modificadas – mas mantidas de base – fariam o resto.

 

Ao chegarem à fronteira da região de segurança que envolvia o buraco negro, a movimentação em torno do painel de comandos da nave intensificou-se, com o terceiro elemento humanóide a solicitar a presença dos outros dois seres e iniciando com eles um diálogo que envolvia escolha de coordenadas de entrada e trajecto a seguir já no interior do túnel espácio-temporal: tornava-se fundamental determinar os diversos pontos de intersecção dos planos que tinham acompanhado a formação da curvatura que dera origem na geografia dos espaços àquele buraco negro e a partir da sua localização calcular os focos principais da nova curvatura que definia os limites desse corpo fora do comum – que estabeleceria uma ligação entre outros espaços associados a uma diversidade dos multiversos. Detectado um dos focos principais da curvatura deste corpo celeste, os tripulantes teriam apenas que introduzir as coordenadas exactas de penetração no espaço correspondente e escolher em conformidade com os túneis de comunicação disponíveis, o exacto momento e espaço pretendido. Se tal não fosse possível, teriam que o executar utilizando um sistema redundante de aproximação progressiva. Mas tal acção suplementar não foi necessária, dada a relativa proximidade do objecto de estudo cronológico: afinal de contas a Terra pertencia à mesma galáxia do buraco negro. E poucas ou nenhumas palavras do seu alfabeto indígena, serviram para as três jovens poderem descrever em toda a sua extensão e compreensão, o espectáculo indescritível – senão mesmo incompreensível – que aí presenciaram: inseridas num imenso caudal de dados que iam circulando inicialmente ao sabor da corrente e duma forma pretensamente caótica, elas transformaram-se por espaços em observadores extremamente privilegiados, sendo-lhes possibilitado o acesso ilimitado a determinados (e previamente referenciados) pontos do seu espaço-tempo, anteriormente distribuídos duma forma caótica mas agora geometricamente organizados (e suportados por realidades similares existentes em mundos paralelos de substituição, criados como backup e por simulação). E foi como se planassem virtuosamente a partir do Céu sob a forma dum espírito puro e aberto como o de Nossa Senhora, que as três jovens se sentiram como se tivessem sempre feito parte, daquele monstruoso e fascinante cenário: como se fizessem parte dum sonho real e partilhado, viram desenrolar diante delas uma trajectória aleatória mas provável de vida, onde num território imenso, profundo e em constante transformação, as suas simples mas necessárias vidas (para o conjunto geral) iriam decorrer: a visão do percurso de vida das três senhoritas, a regressão à sua juventude proporcionado por este Evento, os porcos, o leitão, o sardão e até o fenómeno religioso projectado para Fátima com a aparição aos três pastorinhos e com o Milagre do Sol, ficaram para todo o sempre nelas marcadas, senão no seu arquivo de memória pelo menos e muito mais profundamente nas suas almas protegidas e replicadas por toda a eternidade.

 

As três senhoritas tinham partido da recordação da história do irrequieto leitão, para de memória em memória recuperarem antigos episódios da sua irrepetível vida passada e que na sua essência e aplicação, aproximavam por semelhança as histórias umas das outras: é que todos os trajectos se intersectavam em pontos específicos, tendo as personagens envolvidas logicamente algo de comum. Lembrando-se das patifarias inocentes do pobre mas destemido leitão, não puderam as três senhoritas de deixar de sorrir das peripécias sexuais deste ser em pleno auge do seu desenvolvimento corporal, das suas experiências individuais, colectivas e até mesmo irresponsáveis, mas também e sobretudo sorrindo interiormente por poderem por mais uma vez reflectir em conjunto e sem pressão, sobre todas as desventuras que este processo que deveria ter sido tão comum e normal acabara por acarretar. A vida delas era tão semelhante e o leitão tão parecido...

 

Levantaram-se lentamente dos degraus da escada onde tinham estado sentadas, deram mais uma olhadela em redor perscrutando algum sinal que se pudesse destacar na paisagem e sem mais demoras, subiram até ao terraço, sacudiram as suas saias e entraram no interior da habitação: uma pequena aragem vinda de este começava já a incomodar. Já depois da conclusão do jantar e com todos os seus tarecos arrumados nos seus respectivos lugares, confortavelmente instaladas nos seus sofás enquanto bebiam um grogue de aguardente bem quentinho e açucarado, as três senhoritas pegaram no Livro, viraram-se para a lareira e mergulharam no outro lado: o Livro fora uma oferta dos seres do outro mundo.

 

Ascendentes/Descendentes

 

Todos nós de uma forma ou de outra temos ascendentes e/ou descendentes. Este caso integrava-se numa história que não se podendo afirmar não ser real, implicaria desde logo a confirmação da frase anterior. O mesmo de facto aconteceu com as três senhoritas que subjugadas pelo constante e brutal fluxo de informação neutral com que foram bombardeadas pelos seres alienígenas, acreditaram linearmente e assumindo totalmente a sua fé (mesmo que transitória) em tudo o que viram e ouviram, não se apercebendo que as contradições podem por vezes fazer parte da mesma realidade: impregnadas, não grávidas, mas efectivamente reproduzidas.

 

A escolha da localização da base subterrânea tinha recaído numa zona muito próxima da Torre, bem lá no cimo da Serra da Estrela: construída já no decorrer do século passado, continuava a desempenhar a sua função inicial de observação e de registo, pertencendo aos arquivos VL-T/eu.pi particularmente direccionados para esta península europeia e englobando a Espanha e Portugal. O grupo que a ocupava era constituído apenas por dois elementos do sexo feminino trabalhando em conjunto e com ligações directas entre si e com a vida indígena do próprio planeta. Além da elaboração do arquivo local e da sua partilha com outros postos do mesmo sector e nível – trabalho para o qual despendiam a grande totalidade do seu tempo de trabalho disponível – a outra função atribuída aos dois elementos era destinada à elaboração e simulação de situações reais, face à evolução dos cenários e às perspectivas futuras de desenvolvimento integrado dos parâmetros espaço (real) / tempo (virtual). Experiências de simulações em situações reais mesmo que delimitadas no espaço eram no entanto expressamente não autorizadas. Talvez só utilizando hologramas, o que poderia vir a confundir ainda mais as personagens, neste cenário cada vez mais precário e decadente.

 

Nos Estados Unidos da América estreava-se entretanto um novo filme de acção e de aventuras – a grande metragem “Implosão” já um caso de sucesso e com bilheteiras previamente esgotadas – distribuído pela poderosa rede de telecomunicações e de media SkyNet, assente numa sucessão de hologramas baseados em histórias verídicas transportadas e adaptadas a partir de factos passados na vida real, numa miscelânea caótica mas curiosamente ordenada de episódios dispersos mas interligados e no entanto representados por seres cibernéticos integralmente digitalizados.

 

(imagens – retiradas da Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 12:28

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