Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

31
Ago 14

“O Encantador de Cães: um programa que ainda nos toca profundamente e em que os convidados são cães (o motivo do toque), a sua vida e a dos seus verdadeiros protagonistas – os seus donos. É pena no entanto – ao contrário do que acontece na série – que nem sempre resulte (entre os humanos).”

 

Ilusion (divorciada), César (ressuscitado) e Daddy (desaparecido)

 

Uma das melhores formas de percebe-mos como proceder com outros seres vivos como nós, é confrontá-los directamente com outros animais e entender que cada um de nós é portador de uma assinatura que é só nossa, mas que também pode ser partilhada com outros seres vivos nossos semelhantes – ou seja, com todos aqueles seres vivos que connosco partilham o mesmo espaço e que no fundo partilham o mesmo objectivo: a felicidade e integração de toda a nossa família no mundo que idealizamos e que decidimos em conjunto construir e defender – como inconscientemente o fazemos em todos os dias da nossa vida – e a sua discreta e não impositiva convivência com os outros.

 

No entanto nunca deveremos privilegiar apenas um dos nossos (e diversificados) contactos exteriores: tal procedimento poderá ser adoptado nos nossos relacionamentos mais próximos e constantes, mas nunca nos nossos encontros meramente institucionais, sempre limitados pela abstracção temporal dos nossos horários profissionais.

 

E isso foi o que aconteceu com o nosso Encantador: abriu uma nova porta no seu trajecto de vida privado, não sabendo no entanto como antecipar e controlar o choque de realidades que entretanto iria provocar.

 

Daí a incompreensão pela morte do seu cão indutor, além do pedido de divórcio da sua mulher induzida: quem encanta alguém poderá estar a ignorar muitos mais.

 

(imagem – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 19:00

05
Fev 14

“Se Deus, os Alienígenas ou outro tipo qualquer de Entidade Superior existir, não nos poderá continuar a ignorar, pois connosco terão muito a aprender.

Caso contrário é porque não existem ou são mais burros do que nós.

E se esse derradeiro caso limite se confirmar, então estaremos todos perdidos!”

 

Quando cheguei ao talho reparei que apesar da porta estar aberta não se encontrava ninguém ao balcão. Estranhei a situação mas mesmo assim entrei no talho e esperei que viesse alguém para me atender. Já no interior esperei quase um quarto de hora antes que um senhor já de meia-idade ali chegasse e educadamente me questionasse sobre o que desejava. Nesse intervalo de tempo apercebera-me de alguma confusão registada nos fundos do estabelecimento, com diálogos bem audíveis e exaltados a serem trocados entre indivíduos, no meio de insultos mútuos e de alguns murros entre portas e mesas, entremeados por tentativas apaziguadoras e equilibradas dos indivíduos mais velhos, simplesmente ignoradas pela irreverência instantânea dos mais novos.

 

Distúrbios Mentais

 

Tudo tinha começado com um simples pedido efectuado por um cliente não habitual do talho ao funcionário do estabelecimento na altura aí presente, que ao questionar o talhante se tinha fígado de porco ou de novilho, teve logo como resposta telegráfica e sorridente que de miúdos só se fossem “miolos panados”. O problema é que o cliente era o conhecido cidadão e cirurgião inglês John Brain, acabadinho de chegar dum congresso a decorrer em Vilamoura tendo como tema “A Memória – Estradas de Comunicação e Armazenamento de Dados”, em que o órgão de estudo privilegiado era o cérebro. De mau humor o estrangeiro respondeu com um insulto em inglês, mas teve logo um azar danado: apesar de tudo o talhante tinha a escolaridade obrigatória, respondendo-lhe de imediato “fuck you too”.

 

Distúrbios Naturais

 

Entretanto pedira que me aviassem um frango cortado aos bocadinhos para guisar e uma farinheira para misturar e reforçar o sabor. Durante estes minutos tinham entrado no talho uma mulher jovem trazendo uma criança pela mão, um casal de idosos de nacionalidade alemã acompanhadas por uma portuguesa de meia-idade e mais dois jovens estudantes que ali tinham entrado para comprar um pacote de batatas fritas e uns sumos naturais, que o estabelecimento também comercializava numa divisão lateral. No total estavam nove pessoas no interior do talho, quando sem que ninguém o previsse – até porque o ambiente acalmara e dos fundos do estabelecimento já nada de anormal se ouvia, registando-se uma calma quase absoluta – se verificou o incidente fatal. Á frente vinha John Brain em silêncio total mas gesticulando nitidamente numa fúria dificilmente contida e muito perto da explosão, seguido de muito perto pelo patrão e dono do talho. Repentinamente uma mulher jovem entrou pelo estabelecimento dentro, com o dono do talho a reagir quase que instantaneamente ao seu aparecimento como se já estivesse à espera do que ia acontecer, esfaqueando pelas costas o cidadão inglês, enquanto que inesperadamente e sem que víssemos a arma que transportava consigo, a jovem mulher disparou, atingindo de frente o patrão: logo ali um morto com uma bala atingindo e perfurando mortalmente o cérebro do talhante e um outro ferido com extrema gravidade com o fígado perfurado e praticamente inutilizado, John Brain.

 

Distúrbios Artificiais

 

Quando a polícia chegou o cenário anterior já se tinha alterado profundamente. Relembre-se que dos doze elementos presentes aquando do acidente – nove na entrada, os dois que vinham do interior e a mulher que entrara subitamente – um morrera, outro estava perto disso e a jovem mulher pusera-se em fuga. Ficavam assim ainda nove: o funcionário do talho, o casal de idosos com a portuguesa, a mulher com a criança, os dois jovens estudantes e eu. Ao primeiro tiro os estudantes tinham-se posto a milhas – ficavam sete. Como se pode ver eu safei-me sem ferimentos, passando de imediato a inocente, testemunha e relator – ficavam seis. A criança que acompanhava a mulher pela mão salvei-a eu, escondendo-me e à criança no momento de maior irracionalidade e violência, atrás da arca congeladora – ficavam cinco (perdão quatro, esquecia-me de mim). E foi entre estes que se dividiram “as desgraças pelas aldeias”: completamente fora de si com o que estava a presenciar – o senhor de meia-idade que me atendia era afinal de contas o pai do dono do talho – e vendo o seu filho tombar atingido mortalmente pela mulher que entrara de rompante no talho, este correra com o cutelo atrás dela, tropeçando e atingindo acidental e mortalmente um dos idosos de nacionalidade alemã e acabando por ferir também com alguma gravidade a sua mulher. Aterrorizada com o ímpeto agressivo do funcionário, a mulher jovem só teve tempo de lhe dar um grande murro e uns quantos pontapés seguidos para o afastar de si, acabando por lhe dar um forte encontrão que o levou a embater com a cabeça na bancada de serviço: sofreu logo ali um forte traumatismo que associado a um ataque cardíaco o fulminou em segundos. Não esquecendo a portuguesa que na altura acompanhava o casal alemão, dispensada de todo este episódio macabro e inacreditável, por ter logo no início desmaiado e perdido e boa altura os sentidos. O relatório final era claro: 5 mortos e 1 fugitivo entre doze participantes. Mais tarde foi descoberta a possibilidade de ter estado presente um décimo terceiro elemento – nunca confirmado – o que transportou este episódio para narrativas envolvendo mistério, terror e superstição.

 

Distúrbios Sexuais

 

A polícia nunca conseguiu identificar a jovem mulher que se introduzira no talho, atingira mortalmente o patrão na cabeça e desaparecera de imediato e sem deixar rasto. Ainda a tentaram associar ao círculo social frequentado pelo defunto John Brain, mas a polícia inglesa não o permitiu, na defesa do bom-nome do seu ilustre cidadão e médico conceituado. Mas ela acabou por me contactar por interposta pessoa e garantida a sua segurança e privacidade – não queria nada com a polícia – resolveu ser por mim escutada e publicada, desde que se mantivesse incógnita e sossegada. E foi nestas condições pré-estabelecidas, confortavelmente instalada no seu agradável estúdio situado na capital do Algarve, que ela disse:

- Conheci o John Brain numa festa informal realizada há cerca de um ano atrás num empreendimento turístico do Algarve, no qual se realizava uma conferência de promoção de produtos duma farmacêutica mundialmente conhecida, da qual ele era um dos directores e sócio minoritário. Apesar de todo o seu aparente poder e dinheiro revelara-se no entanto um pouco tímido e reservado, quando se tinham conhecido acidentalmente no hotel onde os dois e por acaso pernoitavam – isto porque muitas das incapazes e invejosas que a denegriam, quase a acusando de ser uma mera prostituta, a apelidavam de oportunista e golpista implacável – depois de chocarem violentamente um contra o outro, ao transporem apressadamente uma porta lateral que dava acesso ao bar do hall de entrada. Ele a entrar e ela a sair. Acho que a ligação entre nós se estabeleceu de imediato. O que se seguiu foi apenas uma consequência lógica do nosso primeiro encontro: encontros e desencontros constantes, momentos de luxúria e de prazer e ultimamente, talvez provocado por alguma alteração psicológica que o afectava duma forma crescente nas últimas semanas, uma maior agressividade verbal e corporal que ela própria muitas das vezes sentia fisicamente – mas da qual ela até nem tinha razão de queixa, pois tornava no final a participação de Brain no acto sexual muito superior ao esperado. Mas algo corria mal, bem lá no fundo da cabeça dele: e dadas as circunstâncias e contexto em que estes sintomas tinham aparecido, chegara à conclusão que só poderia ser um caso de ciúme patológico. Se a sua vida continuava dentro da sua normalidade quotidiana, tal e qual como na altura em que Brain a conhecera, não via porque tinha que mudar já que sempre assim fora. Nunca permitiria trocar a liberdade do seu corpo por uma mera concessão ainda por cima definitiva: o problema era dele e a partir desse raciocínio decidira nada mudar e continuar como se nada estivesse a acontecer;

- O que se seguiu foi para mim algo de inesperado e apenas o resultado dum incidente sem nenhum significado, concretizado numa reacção normal de desejo momentâneo e por vezes injustificado e que terminou naturalmente como entre dois animais de qualquer espécie e de sexos diferentes na cópula – o que para ela valia zero como se tratasse de um copo vazio. O homem instantâneo tinha sido o filho do dono do talho, que conhecera casualmente na festa realizada após a concretização da escritura do seu novo apartamento, oferecido como prova de amor pelo então apaixonado John Brain. A sua presença no talho ligava-se às suas suspeitas de que algo se iria passar entre Brain e o respectivo talhante, quando fora informada por terceiros que ele acabara de saber de tudo o que se passara: prevendo o acontecimento seguiu-o prontamente e mal entrou no estabelecimento ao visionar o cenário que ali começava a ser construído resolveu alterar um pouco o argumento e abater o seu amante temporário a tiro. Assim não restariam testemunhas.

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 22:42

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