Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

13
Out 13

Ficheiros da Desintegração

As Necessidades Extraordinárias do Gato Tobias

(sob critério SMALL)

 

Recolha de indícios, de lacunas e de outras descompensações, entre os mundos imaginados e a realidade dos humanos.

 

Caçador de Zombies

(p/ Mike Skram)

 

O grupo tinha revisto alguns pormenores sobre a missão que estava prestes a iniciar, verificando a funcionalidade de todo o seu equipamento e actualizando as informações que ia recebendo sobre a zona do túnel, onde dentro de momentos se iriam introduzir na tentativa de restabelecer a segurança no interior desta secção. Além do Albino e do Tobias que seguiriam na traseira do grupo, este seria liderado por três experientes batedores, protegidos pelos dois seres biomecânicos que tinham encontrado anteriormente e terminando no humano que apoiava as biomáquinas que seria responsável pela protecção à retaguarda.

 

Os Alias tinham aproveitado uma pequena derrocada verificada a grande profundidade, para se redistribuírem e acederem a novas áreas interiores até aí inacessíveis. Principalmente desde o momento em que tinham sido sujeitos (sem solicitação prévia) a uma profunda alteração genética, induzida através da aplicação contínua de radiações de baixa frequência que iriam afectar o seu sistema nervoso central – e como consequência e objectivo a sua capacidade de raciocínio, organização e movimentação – estes seres subterrâneos tinham revelado uma evolução contínua (apesar de relativamente baixa), capaz no entanto de os mobilizar para a constituição de grupos com mais indivíduos envolvidos e com um objectivo assumido, congregados num conjunto sempre aberto e em expansão – assumido unicamente para garantir o seu alimento e sobrevivência – em torno da execução e concretização da sua missão. Por trás estaria a mão dalguns grupos mais radicais de Deros participantes anteriormente em acções não autorizadas e violentas, que se teriam rebelado posterior e definitivamente das suas anteriores lideranças já na altura actuando ilegalmente, ao não aceitarem o recuo estratégico e consciente dalguns dos seus líderes revoltosos, ao retornarem ao seu seio familiar e à companhia dos seus irmãos de sangue Teros. Ao contrário da ideia habitual construída em torno da biologia e do comportamento associados aos zombies “iniciais”, estes grupos dispersos de Alis tinham começado a utilizar cada vez com maior frequência uma mentalidade militar de sobrevivência e de expansão, recorrendo a alguma organização mental mesmo que dirigida numa só direcção, superando a imposição desse limite psicológico com a criação de grupos com um número crescente de elementos, mais conscientes da sua organização e da sua capacidade de resposta: o seu objectivo prioritário seria o de intimidar e destruir todos os seres que se atravessassem no seu caminho, criando uma uniformidade ambiental num meio temporariamente ocupado pelos mesmos e sendo auto-suficiente (as vítimas destes predadores pertenceriam ao topo da sua cadeia alimentar) e proporcionando a continuação da ofensiva destes grupos de nómadas subterrâneos, construindo estes pela primeira vez, com uma finalidade e como um evento extraordinário para esta espécie, postos intermédios de contacto para acesso doutros grupos de Alis, mobilizando-os para a concretização dum mesmo e único projecto.

 

Arrancaram então para os cinco quilómetros finais que teriam de percorrer, até alcançarem a outra ponta do túnel já em Albufeira.

 

O Tobias seguia calmamente ao lado do Albino observando o trabalho de verificação dos batedores, protegidos nas suas costas pelas bio-máquinas contra certas intervenções imprevistas ou como confirmadores de que tudo estava OK e que o caminho estava completamente livre e desimpedido. O túnel apresentava-se deserto, não se vendo vestígios recentes da sua utilização. Até ao meio de todo o seu comprimento nada se passou, chegando o grupo a pensar que até poderia estar completamente livre. Mas o facto era que as primeiras análises recebidas mesmo antes da sua partida mencionavam a presença de seres não identificadas no interior da zona, num número ainda pouco definido mas que deveria envolver cerca de duas dezenas de elementos. E foi já muito perto do quilómetro três que o equipamento de detecção automático começou a registar movimentos assinaláveis nas proximidades do local onde se encontravam – com uma amplitude máxima de mil metros – fazendo com que de imediato os batedores e máquinas acompanhantes se reorganizassem e optassem pelo modo de combate. Poucos minutos decorridos sobre a detecção estavam já perante os primeiros elementos, que ao vê-los avançaram decididamente sobre o grupo, em clara disposição de ataque. Enquanto o Albino apontava em várias direcções, cerca de doze elementos hostis surgiram duma reentrância que anteriormente ali não estava, atacando de surpresa todo o grupo, rodeando-os e pondo todos numa situação muito delicada senão mesmo muito perigosa: a solução tomada de pronto colocou todo o grupo numa posição circular defensiva, com a activação imediata do escudo electromagnético de protecção – que impedia a transposição dos hostis para o seu interior – dando tempo ao grupo para se recolocar e retomar a sua iniciativa em nítida posição de vantagem. O escudo protegia-os apenas durante um máximo de cinco minutos, antes de suspender temporariamente o seu funcionamento, para se recarregar e levantar de novo a barreira. Nem de dois minutos precisaram antes de estarem aptos para actuar: o Albino apenas pediu mais uns quantos segundos para a identificação clara dos hostis, pois dada a última actuação destes nesta secção do túnel, algo não estava de acordo com os seus procedimentos usualmente utilizados por estes Caminhantes da Morte: o Albino tinha a certeza que a reentrância não estava ali antes e por outro lado sabia que as criaturas que deveriam encontrar tinham uma reduzida capacidade racional e intelectual, o que os impediria sempre e por limitação – até de capacidade de manipulação adequada – a acederem a qualquer tipo de tecnologia avançada. Logo nem todos poderiam ser Alis pelo que outros elementos estranhos se tinham introduzido e integrado no grupo: na realidade além das duas dezenas de elementos detectados inicialmente, os equipamentos assinalavam agora três outros elementos cujo sinal no detector era idêntico entre si, mas muito diferenciado do apresentado pelos Alis. E foi esta nova situação que fez repensar a estratégia adoptada pelo Albino: responderiam ao ataque em força e sem restrições, recuando umas centenas de metros até um dos abrigos de emergência de que o túnel dispunha, onde repensariam o que fazer e tentariam por todas as formas descobrir aquilo que estavam na realidade a defrontar: a segurança de todo o grupo era o fundamental a preservar. Mas a questão principal a resolver estava nos outros três elementos não identificados: quem seriam?

 

A pressão exercida pelos hostis fê-los recuar rapidamente até ao abrigo onde o humano os esperava ansioso e com a sua arma em punho: somente na limpeza anteriormente efectuada no local há anos atrás, é que o humano tinha notícias dalgum tipo de resistência inesperada e de maior intensidade interventiva, mas nunca a um nível de segurança tão instável como este e que poderia, num cenário possível de se concretizar, pôr em causa um conjunto de elementos que deveriam ter uma actuação com parâmetros garantidos de segurança e de pura intrusão negativa. Além da instituição da violência como forma preferencial de intervenção estar longe dos horizontes dos Albinos e dos seus aliados, nunca uma intervenção poderia ser levada a cabo pondo em risco desnecessário qualquer tipo de ser vivo racional ou irracional – isso era uma regra sagrada. Mas algo parecia no entanto ter feito perder momentaneamente a cabeça do Albino, posto perante um facto para ele impossível de ocorrer – por dever de ter sido anteriormente previsto e acautelado – acrescido duma advertência inadmissível feita à sua espécie (e a outras) por uma outra raça ou espécie que estaria a colaborar com os Alis, instrumentalizando-os activamente e certamente em nome particular e abusivo, o que ele nunca poderia admitir. No exterior e rodeando o abrigo onde se encontrava o Tobias, os elementos hostis procuravam desesperadamente uma entrada, com dois elementos mais recuados a observarem a cena e um terceiro que parecia estar a falar com alguém através do que parecia ser um comunicador ao mesmo tempo que transmitia alguns dados e imagens através do seu portátil. Apesar do sistema redundante que os protegia no interior do abrigo, o Albino reconhecia que a situação era cada vez mais insuportável e perigosa, pois um dos elementos de análise tinha contornos imprevistos e desconhecidos e de momento não viam forma de ultrapassar o problema: tinham que reagir de imediato se queriam reocupar a sua anterior posição dominante.


Centro de Dados

 

O humano que acompanhava o grupo do Tobias já tinha cumprido a sua vigésima regressão ou seja, mais de seiscentos anos de idade. Nascera por volta do ano de 1400 numa remota aldeia perto de Alcácer do Sal, sendo filho único duma família de humildes trabalhadores da terra vivendo do gado bovino e da cultura do arroz e que nesse ano distante do início do século XV se vira de um momento para o outro sem trabalho nem dinheiro, sendo expulsa do barracão onde vivia e lançada na mendicidade na periferia de Lisboa. A sorte dele residira na sua adopção por parte dum membro rebelde mas bem colocado do clero da altura, que vendo-o um dia completamente sub-nutrido e mal tratado perto da entrada da sua igreja, o introduzira sub-repticiamente nela, tratando-o e alimentando-o em segredo na sua habitação oficial. Aí recuperara o tempo suficiente para se curar e ambientar, sendo posteriormente entregue a um nobre bastante rico conhecido como o dono dos distantes e misteriosos territórios do Algarve – considerado em Lisboa e na má língua como meio excêntrico, senão louco e apologista de feitiçarias e de mulheres – que o levara consigo até aos confins de Portugal e no meio da sua vastidão e daquele doce clima mediterrânico, o educara e fizera crescer, preparando-o para “Aquele que Sempre Seria”. Um grupo de sábios dos mais eminentes agrupando terrestres e extraterrestres aliados numa Coligação de Interesses Comuns reunira-se no cume do mais alto monte da sagrada Serra de Monchique, para analisar entre outros casos “o que fazer do jovem humano” de modo a aproveitar ao máximo a sua juventude e o seu período de formação cumprido – como curiosidade com resultados excelentes em todos os parâmetros qualitativos e quantitativos analisados. Tinham decidido por unanimidade a sua imediata incorporação no contingente de humanos que estaria na base da ligação entre as chefias e todos os níveis existentes até à base da pirâmide: teriam como contrapartida a garantia de todas as condições previamente exigidas e o direito ilimitado ao acesso a novas e consecutivas regressões, grátis e sem efeitos secundários. Pelo menos enquanto durasse o acordo. E com as suas vinte regressões consecutivas a sua experiência era de facto extraordinária, não sendo por mero acaso que ali se encontrava: o sucesso da fuga de todo o grupo estava agora nas suas mãos e ele sabia-o.

 

O nome João tinha sido atribuído pelo seu nobre senhor no próprio dia em que o acolhera nas suas hostes muito restritas de amigos e de familiares, tendo sido logo escolhido e sem pensar em homenagem ao seu rei D. João I e à sua gloriosa vitória militar alcançada na batalha de Aljubarrota – contra os brutos e malditos espanhóis – rei esse que mais tarde se casaria como nos contos de fadas com uma bela Princesa estrangeira e que seria conhecido para sempre como aquele que deu origem ao grande período da história do mundo, com o início da Expansão portuguesa. Durante anos e anos a sua participação em muitos factos importantes do quotidiano diário e comum do seu reino, tinham-no enriquecido muitíssimo tanto a nível cultural como militar, aumentando cada vez intensamente o seu desejo por novas coisas e aventuras sem limites e proporcionando-lhe uma total abertura para o conhecimento de tudo aquilo que poderia estar para além do que se conhecia ou que se suspeitava conhecer ou existir. Desde a sua participação ainda muito novo na viagem de Circum-Navegação ao Mundo sob o comando de Fernão Magalhães, como anotador e relator particular de viagem e espadachim qualificado, até ao auxílio prestado às populações da Península Ibérica durante os períodos terríveis e violentos das duas Guerras Mundiais e da Guerra Civil de Espanha, muito o João vira, assimilara e memorizara: com a maior parte da sua vivência associada à experiência adquirida ao longo duma vida cheia de movimento e de peripécias, o humano não pode deixar de recordar os tristes tempos da ocupação Filipina e sobretudo o momento do terramoto de 1755 e a recordação de toda a destruição provocada e das multidões de mortos, de feridos e de mutilados, todos abandonados à sua sorte e desgraça entre os escombros da cidade de Lisboa e as vagas do maremoto que se lhe seguira. Mas o que mais o tocara fora negativamente a violência irracional e desmesurada praticada durante a II Guerra Mundial, que terminara com as duas bombas atómicas lançadas sobre o Japão, provocando em segundos centenas de milhares de mortos e positivamente a viagem do homem à Lua e a conquista dum outro mundo que não o nosso, como se o sonho se torna-se realidade e a imagem se pudesse sobrepor ao objecto. Actualmente o problema residia na sistemática destruição do estado levado a cabo por uma minoria de pretensas elites das mais variadas espécies e raças, interiores ou exteriores, aliadas estrategicamente na tentativa de usurpação do espaço ilimitado e a todos disponibilizado, estabelecendo artificialmente, sem qualquer tipo de critério e duma forma indevida e prepotente, um tecto máximo de indivíduos para cada espécie ou raça: nem que para se garantir o objectivo primordial desta missão se tivesse que organizar e aceitar um genocídio legal, por necessidade de sobrevivência dos melhores de cada grupo de modo a evitar a extinção dos mesmos.


Turritopsis Nutricula

Um ser vivo Imortal capaz de reverter indefinidamente o seu próprio envelhecimento

 

O plano elaborado mentalmente foi exposto sem mais demoras pelo João:

- A base do seu plano assentava na utilização do escudo electromagnético de protecção e no seu equipamento portátil de emergência. O primeiro dar-lhes-ia uns minutos de protecção adicional caso os hostis conseguissem penetrar no abrigo, enquanto o segundo proporcionar-lhes-ia uma hipótese de fuga com fortes possibilidades de sucesso. Só era necessário estabelecer um plano de execução sem falhas imprevistas, que permitisse a execução ao segundo da implementação do escudo protector e de segurança, seguido posteriormente por um período de espera que teria que ser milimetricamente calculado, em função das movimentações exteriores entretanto registadas e das previsíveis acções propostas pelos três seres não identificados que acompanhavam e comandavam os Alis;

- O grupo de oito elementos refugiar-se ia inicialmente atrás do escudo protector, enquanto proporcionava ao grupo hostil invasor a possibilidade de se introduzir no interior do seu abrigo; ao mesmo tempo que estes se iam introduzindo no abrigo, as bio-máquinas ficariam encarregues de observar ao momento a movimentação dos três elementos que os comandavam na retaguarda, com o objectivo de os informar da previsível aproximação destes ao exterior do mesmo e do instante em que os mesmos transporiam a linha vermelha; essa linha vermelha representava o instante em que os três elementos hostis se colocavam numa posição propícia para o grupo do Tobias abandonar o local, utilizando o seu equipamento de emergência para se teletransportarem para um ponto no exterior do abrigo, situado na retaguarda dos três elementos que comandavam os Alis; no preciso momento em que as bio-máquinas sinalizassem esse momento de transposição da linha vermelha, seria despoletado um mecanismo temporizado associado a uma bomba de neutrões, que lhes indicaria o momento escolhido para o seu teletransporte; trinta segundos antes da explosão o escudo seria temporariamente desactivado permitindo a entrada no seu interior dos elementos hostis e a concretização do seu ataque final, forçando o grupo atacado a alguns segundos de resistência enquanto se iam rapidamente concentrando na área de transporte; no momento escolhido para o teletransporte – após sinalização das bio-máquinas – o grupo iniciaria o respectivo processo de transporte, abandonando o abrigo e fechando do novo o escudo protector, que assim aprisionaria os hostis no seu interior na companhia da bomba, que ao explodir eliminaria definitivamente a ameaça mortal que eles personificavam; a explosão iria de certeza atrair ainda mais os três elementos de chefia às proximidades do abrigo, o que proporcionaria ao grupo do Tobias uma óptima ocasião para os apanhar de surpresa (pelas costas) eliminando-os de vez;

- E assim ocorreu. Apanhados de surpresa os três elementos hostis que comandavam o grupo de Alis foram logo ali abatidos, tombando definitivamente sobre a superfície do túnel enquanto demonstravam um largo esgar de surpresa, mas também duma raiva – por final e sem retorno – brutal e incontida.

 

Ao todo tinham sido eliminados vinte Alis pertencentes ao grupo de Z que infestavam ainda as profundezas da Terra, mas o que mais interessou o João (o humano) e o Albino foram os outros três elementos que os tinham acompanhado: à primeira vista pareciam outros Alis, mas estes apresentavam-se muito mais bem tratados e com excelente aspecto, além de anteriormente terem demonstrado capacidades nunca atingidas pelos Alis, mesmo antes da sua instrumentalização e manipulação genética imposta pelos Teros, sob ordens dos seus aliados e promotores deste evento – os ET´s oriundos de Sirius. Não demorou muito tempo até chegarem a uma constatação que logo os pôs em estado alerta, pois se por um lado este episódio fora apenas uma confirmação dalgumas informações já recebidas mas ainda não confirmadas, pelo outro lado colocara-os a pensar nos perigos que uma nova mutação poderia provocar: estes Z que comandavam os restantes já não pertenciam a uma evolução dos Alis iniciais – os Z-XL – mas a uma nova mutação muito mais perfeita e dotada duma boa capacidade intelectual, já muito semelhante à dos Humanos e Albinos e podendo mesmo em certas circunstâncias ser confundidas com estes, o que poderia constituir um perigo eminente para ambas as sociedades – à superfície e subterrânea – dadas as grandes possibilidades de infiltração e sua não identificação como falsos Humanos ou até falsos Albinos. Em princípio tratar-se-ia de ex-Alis agora directamente transformados em Z-XXL, uma hipótese já anteriormente lançada pelos cientistas que estudavam e viviam no interior da Terra, a partir dalgumas informações nunca confirmadas e mesmo consideradas alarmistas, transmitidas por alguns Z-XL sobreviventes de combates travados com os Índis e Albinos e agora aprisionados em centros de investigação e recomposição. Estes Z-XXL seriam o protótipo produzido e pensado pelos ET´s vindo de Sirius para serem a sua primeira fila militar de infiltração e de ataque, seres esses que teriam como função limpar o sistema e refazer a estrutura dominante terrestre, como preparação para a invasão e colonização final. Posteriormente substituiriam toda a cadeia de comando da Terra fosse à sua superfície ou estivesse situada no subsolo, criando o ambiente ideal para a sua entrada no sistema terrestre e o seu usufruto total incluindo todos os seus seres vivos e a sua matéria-prima mais preciosa: em particular a água, os animais (a alimentação) e todas as fontes de energia renováveis ou não.

 

Abandonaram o local após algumas operações de limpeza efectuadas pelas bio-máquinas, contando para tal com o auxílio e orientação dos batedores que as acompanhavam. Ainda faltavam cerca de dois a três quilómetros de túnel até alcançarem Albufeira e tinham que estar preparados para outras situações inesperadas que ainda podiam estar à espera deles, no restante percurso do túnel ainda por desvendar e por percorrer.

 

Fim da 6.ª parte de 8

 

(imagens – WEB)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 12:56

23
Abr 12

Nação Valente e Imortal

António Lobo Antunes

Revista Visão

 

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos. Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.

O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade às vezes é hereditário, dúzias deles.

Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.

Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade. As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente.

Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente, indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos. Vale e Azevedo para os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão, já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.

Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos por, como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar de D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano.

Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos.

Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar. Abaixo o Bem-Estar. Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros.

Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.

Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos um aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.

 

Apanhados

Comentários de Leitores ao Artigo

Utilizando a Visão

 

(Favor?)

Este texto deve ter deixado a minoria esclarecida deste fórum em êxtase: então não é que o melhor escritor português da actualidade revela-se como denunciante das malfeitorias do Governo Sócrates à Pátria? Mais, junta à pandilha o maior vigarista luso vivo: o inacreditável Vale e Azevedo... Poucos repararam neste pormenor. Não há maior impropério nestas lides do que um deste quilate. Compreende-se assim a ausência de comentários contra e os poucos que apareceram são trémulos e assustados. Por outro lado, quem aprecia um bom argumentário político não deixará de sentir satisfeito pela substituição dos textos exemplares anteriores sobre quimeras psicológicas e situações do dia a dia vistas à luz de um génio por análise política. Parabéns.

 

(Favor?)

Continuamos á espera que D. sebastião volte num dia de nevoeiro para nos salvar , porque nos convenceram que temos o " FADO " como destino ......... Obrigada António por dares voz a uma consciencia coletiva que está amordaçada pelas teias de um sistema montado com base em conceitos totalmente perversos.

 

(Surpresa?)

Sem entrar em pormenores (embora em relação à maior parte até esteja de acordo), "isto" aqui é um ultra-super-hiper-"RAP". Nova faceta de "ALA", não? Parabéns! [Quem sou eu para dar os parabéns ao imenso escritor que é António Lobo Antunes, mas também como não os dar perante a surpresa que constitui esta crónica.]

 

(Contra?)

Nesta crónica, o autor esquece-se de Cavaco o nobre cavaleiro que nos levou à desgraça e ataca, mais uma vez a outra baixa gentalha das escritas, como se ele fosse o arauto "bobo" dos escribas maiores. No passado atacou Saramago, por quem nutre vil inveja, apenas própria dos menores, esquecendo-se sempre de a indústria Antunes é quem mais vende livros em Portugal, vá-se lá saber porquê! Tudo o resto é futuro, este amargo presente, a que o autor não dá nomes nem coelhos!

 

(Contra?)

Que lhe deu? Está assim tão zangado? Tornou-se assim tão cínico? Eu que buscava paz nas suas "escritas" de revista, fiquei triste. Já chega toda a imprensa com essas lamúrias mesmo cínicas. Não virei tão apressada procurar a sua próxima crónica. Fiquei triste. Quebrou o encantamento.

 

Sem comentário necessário

 

“Não faço comentários de quem não conheço, não quero conhecer, mas poderia conhecer. Sem problemas percorro qualquer caminho, desde que seja eu a transportar-me, mesmo que ao colo de outros”.

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 12:48

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