Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

14
Ago 13

“Temos que nos convencer definitivamente – pois estarmos todos englobados no mesmo espaço dinâmico – que também assumimos, mesmo que inconscientemente, a função de construtores de Universos: um simples – mesmo que imperceptível – movimento nosso, influenciará sempre o curso natural das coisas, podendo provocar no canto mais longínquo do mundo, acontecimentos de consequências imprevisíveis”.

 

E= MC²

 

No Universo a Teoria do Caos está intimamente ligada “ao acaso e à necessidade” de transformação constante dos parâmetros espaciais, provocando sucessivas acções pluridireccionais de expansão e reacções simétricas de contracção, que acabam pelo movimento aparentemente desordenado originado por reorganização, por se fundir e propagar, recriando espaços alternativos – concorrenciais ou paralelos – combinando invariavelmente os parâmetros “Energia e Matéria”.


Múmia

 

Não reconheceram o local. Era uma sala escura e para o comprido, possuindo apenas alguns pontos de luz de emergência de luminosidade muito reduzida e sem nenhum tipo de mobília ou de decoração que se visse, podendo-se no entanto vislumbrar – apesar dalguma dificuldade de habituação à falta de luz – um pequeno amontoado a um canto escuro da sala, mesmo ao lado do que parecia ser mais uma porta.

 

Se a sala os intrigava pela sua falta de conteúdo e de orientação – nada de visível justificava a sua finalidade ou explicava a sua utilidade – o Manuel não lhe ficava atrás: desde que se tinham introduzido nesta estrutura estranha que aterrara no terreno, tinham constatado que as reacções deste eram um pouco diferentes das atitudes tomadas na mesma situação pelo Zé e pelo Caldas. Rapidamente compreenderam que o Manuel não obtinha do meio ambiente que actualmente o rodeava as mesmas sensações que chegavam aos seus colegas, reagindo muitas das vezes impulsivamente e ignorando o comportamento dos outros, como se já tivesse muita experiência do local ou em alternativa não visse mesmo nada. Foi dessa forma que o Zé e o Caldas chegaram à conclusão de que nem tudo o que viam e usufruíam tinha o mesmo efeito sobre o Manuel, apenas porque o seu amigo era cego para certos acontecimentos e nesse sentido problemático – por perigoso e imprevisível – nalgumas das suas acções tomadas ou a tomar. Além disso e desde a entrada no barracão que a epiderme do Manuel parecia estar às vezes estranhamente envolvida por uma ténue luminescência, que rapidamente desaparecia, fazendo-nos pensar se não estávamos a imaginar coisas ou a ficar todos maluquinhos – o que se comprovou não ser o caso com o recrudescimento súbito da luminosidade emitida pela pele do Manuel, muito semelhante em forma e aparência a uma auréola. E foi uma acção precipitada mas inconsciente que causou mais tarde o acidente, de que resultou uma notória e audível explosão.

 

Aproximaram-se cuidadosamente do centro da sala, mas interromperam logo ali a sua marcha: sempre que se movimentavam parecia que o espaço entre eles e a parede diminuía mais rapidamente do que devia acontecer, como se algo ou alguém não identificado estivesse a proteger da nossa invasão o que o canto da sala continha. Alguma coisa pouco perceptível mas poderosa tinha como objectivo proteger o que quer que fosse que lá se encontrava. Avançaram então praticamente até ao limite do que julgavam ser seguro e o que viram caído lá ao fundo foi uma surpresa para eles: pelos trajes e outros artefactos decorativos usados e pelo aspecto geral apresentado, estavam certamente perante uma múmia duma criança de origem inca, muito utilizadas em sacrifícios ligados a rituais antigos e que seriam preparadas e condicionadas psicologicamente para estas cerimónias cruéis e mortais, com a utilização sistemática e constante de álcool e de outras drogas.

 

O Manuel avançou sem avisar e aí deu-se a explosão: foi projectado violentamente contra a parede oposta, enquanto que o Zé e o Caldas prevendo já o inevitável, se tinham lançado para o chão apanhando apenas levemente com a forte onda de choque. À frente deles uma fenda enorme revelava atrás de si, uma paisagem seca e desértica.


Matilde

 

As galinhas fazem planos?

Galinhas se preocupam com o futuro. Cientistas ensinaram galinhas a bicar 2 botões para obter 2 recompensas distintas. Com o botão 1 elas esperavam pouco (2 segundos) para obter pouca recompensa (3 segundos de acesso a comida). Com o 2, elas esperavam muito (6 segundos) para obter muito (22 segundos de comilança). A conclusão? A pesquisadora britânica Christine Nicol resume:

- "Com incentivo, as galinhas foram capazes de exercer auto-controle".

(revista: Super Interessante – super.abril.com.br)

 

No interior da casa e já a preparar o seu pequeno-almoço a Isabel acabara de abrir a porta à sempre eléctrica Tia Maria: vinha preocupada com a ausência do seu marido mas ao mesmo tempo com um certo bichinho de fome, situação ainda mais agravada pelo delicioso cheiro a ovos mexidos acabadinhos de fazer. Já eram quase oito horas da manhã e desde que regressara a casa para tratar dos animais, nunca mais tivera notícias dos outros. No restante tudo decorrera normalmente e até chegara a dormitar durante quase três horas seguidas. A única coisa que no entanto a deixava aborrecida e um pouco assustada – não sabia se tudo ia bem com os amigos – residia no facto de continuar a não conseguir ver com os seus próprios olhos o barracão e de ao mesmo tempo por simples e evitável distracção, ter perdido a referência da localização exacta da sua porta de entrada. E era isso que a Maria perguntava insistentemente apesar das constantes e repetidas respostas por parte da Isabel. Até ao momento em que o pequeno-almoço terminou e ansiosas pelo não evoluir da situação, lá resolveram as duas pegar no Carraça e na Matilde – a galinha preferida da senhora Maria – e irem ver o que se passava no terreno.

 

Quando se deu a explosão no exterior as duas ainda não tinham saído de casa, já que a Tia Maria ainda tinha perdido algum do seu tempo a por a trela ao pescoço da galinha Matilde. Abriram logo a porta, olharam para o terreno diante delas, processaram em milésimos de segundo todas as informações essenciais entretanto recebidas e sem alternativa que se sobrepusesse de qualquer modo ou feitio à imagem recebida, registaram de imediato na sua memória aquela miragem, vendo-a desaparecer num flash e esfumar-se no espaço: tinham visto por um instante não cronometrado uma paisagem seca e solitária, fazendo lembrar em cada detalhe os extensos desertos da Terra.


Nergal

 

No exterior do barracão a Isabel e a Tia Maria perscrutavam com muita atenção toda a área envolvente, tentando encontrar nas proximidades algo fora do comum que invocasse – nem que fosse por breves instantes – a paisagem que tinham partilhado e vivido anteriormente, sem que no entanto e para tristeza delas, descobrissem algo de novo e percebessem dessa maneira o que tinha acontecido com os seus três amigos. A única diferença era que as duas – a Isabel e a Maria – já visionavam completamente o barracão e vislumbravam com bastante nitidez a entrada utilizada pelo Zé, Caldas e Manuel para nele se introduzirem. Consciente desse facto a Matilde saiu disparada nessa direcção – seguida pelo tresloucado Carraça – desaparecendo ambos no interior do barracão utilizando a porta de acesso.

 

Do outro lado da fenda apercebia-se uma extensa paisagem desconhecida, perdendo-se de vista no meio dum ambiente onde nada se mexia e onde a claridade do dia expunha toda a sua solidão seca, desértica e talvez mesmo gelada. Todos tinham recuperado dos efeitos causados pela explosão – incluindo o Manuel que continuava com uma ténue áurea pairando sobre o seu corpo – mantendo-se protegidos no interior da sala pela acção quase imperceptível duma finíssima película que os mantinha isolados do exterior, fosse ele real ou virtual. No entanto a curiosidade era muito grande e cada um deles só parecia estar preocupado em obter duma forma um pouco caótica, a melhor imagem do quadro incrível que lhes era agora oferecido. Mas o som da explosão devia ter chegado aos ouvidos de alguém e face ao desaparecimento da misteriosa múmia inca, o melhor seria desaparecerem o mais rapidamente possível daquela zona do túnel, agora tornada perigosa. Deram mais uma olhadela à surpreendente paisagem que ali se mantinha imperturbável e começaram a abandonar o local: por essa altura a sala pareceu oscilar ligeiramente e o mais curioso de tudo foi que por momentos todos mergulharam na escuridão e de seguida – como se nada se tivesse p+assado – tudo se normalizou.

 

Saíram apressadamente do local e ao entrarem de novo no túnel principal – que inicialmente tinham abandonado – quase que chocaram com a Matilde e o Carraça que tinham aparecido repentinamente a correr diante deles, pregando-lhes um enorme susto e fazendo-os quase cair. Mas ao reconhecerem-nos acalmaram-se e foi mesmo a Matilde a primeira a dirigir-se para o grupo onde naturalmente se encontrava o Zé. A primeira impressão foi a de que tudo estava estabilizado e tranquilo apesar da explosão, não se registando qualquer tipo doutro movimento ou dalgum som de origem duvidosa. A segunda impressão já foi um pouco diferente, transformando-se de imediato num facto real: o túnel tinha-se alterado na sua apresentação e orientação, dispondo agora de ramificações bem visíveis e mais aproximadas numa das extremidades (a norte) e com a outra terminando no que parecia ser um buraco negro profundo (a sul), não se descortinando nele o seu fim. Quanto à orientação original e com cem por cento de certeza estava invertida.


Subterrâneos

 

Por precaução resolveram abandonar o túnel principal, enquanto não decidiam entre eles o que fazer a seguir. Avançaram um pouco na direcção de um ponto luminoso situado à direita do túnel que aí derivava num corredor pouco iluminado direccionado a oeste e enfiaram-se rapidamente e sem pensar duas vezes pelo novo caminho agora escolhido. Iam os cinco em fila indiana com a Isabel e a Maria atrás a controlarem os dois animais que os acompanhavam e o Caldas a liderar o grupo. Chegaram a um ponto em que o caminho parecia descer para o interior da terra, acabando por aceder a um outro corredor através duma longa escada, que terminava numa ampla sala denotando algum abandono e antiguidade de materiais e com portas laterais que acediam a outros espaços desconhecidos para eles. Num dos lados umas grades separavam-na duma outra sala que apresentava também uma porta de acesso, mas à qual não podiam chegar já que a porta de ferro que as separava – como a porta de uma cela – estava fechada e sem chave à vista. Agora que estavam todos juntos e em segurança resolveram descansar um pouco de todas as peripécias que tinham passado, alimentar-se e trocarem algumas impressões. Comeram um pouco de pão com presunto de Monchique acompanhado por um valente copo de medronho para retemperarem forças, além de saborearem, como não poderia deixar de ser, os sempre deliciosos ovos “biológicos” das amigas da Matilde. Falaram um pouco durante o curto repasto e decidiram descansar ali durante cerca duma hora, enquanto o Caldas e o Zé davam uma vista de olhos pelas redondezas.


O Livro

 

Excepção feita à porta por onde tinham entrado – e ao lado inacessível da cave – a sala ainda tinha mais quatro portas disponíveis. O Caldas decidiu-se então pela primeira porta mas não a conseguiram abrir. Decidiu então o Zé dirigir-se à porta mais distante e verificar se também estava fechada ou não: verificou que a fechadura estava destravada, abriu a porta e entrou seguido pelo amigo. Viram logo que estavam num compartimento utilizado como arquivo e local de estudo e investigação da história de diversas civilizações, não só pelo número de livros alguns deles muito volumosos e pesados que enchiam as prateleiras das quatro paredes disponíveis do que parecia ser uma biblioteca improvisada, como também pela existência complementar dalguns equipamentos tecnológicos avançados que contribuiriam com as suas capacidades adicionais, para ajudar a desenvolver as tarefas em execução e consolidar os conhecimentos já adquiridos e agora sujeitos a confirmação.

 

O Caldas pegou então num dos maiores e mais velhos volumes que encontrou num dos cantos mais escondido das prateleiras e lendo o título chamou logo o Zé, expondo-lhe a capa e o que vinha lá escrito: chamava-se “As Origens dos Universos” e pela exposição informativa que vinha na contracapa referia-se apenas a um dos Universos Infinitos, perdendo-se o texto introdutório numa apresentação resumida dos universos paralelos e concorrenciais e das ligações aleatórias no espaço existentes entre esses universos, mencionando aí termos provavelmente técnicos como “buraco de verme” ou mesmo expressões sem cabimento como “recomposição material em níveis energéticos replicados, sem possibilidade de distorção genética por incorporação de níveis de energia parasitários”. Na secretária e sob um vidro de protecção que cobria toda a sua parte superior, também repararam num símbolo que sendo deles – dos até agora estrangeiros desconhecidos – a nós também não era estranho: a fórmula E = MC².


NGC 2467

 

Pela leitura do texto de introdução ao volume do livro “As Origens dos Universos”, o Caldas chegou à conclusão que quem quer que fosse o responsável pelo aparecimento do estranho objecto encontrado no campo do Zé, este seria – segundo informações escritas no livro – originário duma região distante do espaço situada a muitos milhares de anos-luz, cheia de novas estrelas em formação e caracterizada pela sua extrema profusão de cores e fazendo na sua forma e aspecto lembrar um animal o mandril. Essa região seria conhecida na Terra como NGC 2467, incluindo na sua constituição bastas áreas carregadas de nuvens de hidrogénio responsáveis pela criação – e actuando como verdadeiras incubadoras – de jovens estrelas em formação.

 

O grupo principal que acompanhava a missão alienígena, estaria estacionado há já bastante tempo nos limites da nossa galáxia, sendo o edifício temporal onde se encontravam nesse preciso momento, apenas mais um dos habitáculos associados à estrutura base da sede dessa mesma missão, desassociando-se da energia utilizada e transformada em matéria (e desse modo deslocando-se do ponto de referência actual para o ponto de referência inicial) sempre que houvesse alteração do principal parâmetro de construção do Universo, a velocidade de movimento. Representando uma vastíssima zona do espaço englobando inúmeros grupos de estrelas situados a distâncias muito variadas e rodando a velocidades diferenciadas, os alienígenas teriam vindo duma zona para lá de Puppis OB2 que teria como estrela dominante a maciça e jovem HD 64315.

 

Os dois estavam completamente siderados com o pouco que tinham acabado de ler. Apreciaram todos os livros e objectos que enchiam aquela sala e acabaram por fixar o seu olhar sobre um painel que parecia iluminar uma das secretárias situadas a um canto, quase completamente tapada por pilhas e pilhas de livros e documentos e por um ou outro equipamento electrónico mais pesado e volumoso que seriam certamente utilizados para o cumprimento de tarefas associadas: tratava-se dum monitor que ia projectando imagens a intervalos constantes de poucos segundos.

 

O que constataram de imediato foi que na parte superior do monitor um relógio ia indicando uma contagem decrescente que nesse momento indicava pouco mais de cinco horas o que, como não poderia deixar de ser lógico, logo os alertou. Teria esse facto, algum significado em relação à partida do objecto ou seria uma outra contagem sem qualquer tipo de significado ou ligação com o que se passava agora com eles? E ainda ficaram mais assustados e alertados quando numa das imagens que iam surgindo sucessivamente no ecrã do monitor – completamente a despropósito e duma forma difícil de acreditar ou compreender – lhes surgiu a imagem do Jerónimo, nada mais nada menos que o galo da capoeira da Matilde, oferecido há já uns anos por um amigo do Zé quando tivera de abandonar a sua quinta de Monchique. Além de ser um galo grande e forte o Jerónimo tinha na sua bizarra e profusa coloração a sua principal característica, que o distinguia de todos os outros galos (conhecidos) da região. Ao Zé tinham chegado a oferecer quase vinte contos pelo bicho, mas quando um dia ele viu que em certas noites o galo até parecia brilhar, adoptou-o como se fosse um irmão e deixou-o tomar conta do galinheiro – o que a Matilde entretanto viúva (por desavenças inconciliáveis o galo acabara na panela) logicamente aceitou.


Praia

 

A Maria vinha já na sua direcção quando, alertados para o ruído que vinha do exterior da sala onde se encontravam, abriram a porta para ver o que se passava: atrás dela vinha a Isabel com a Matilde ao seu colo, seguida do Manuel com o Carraça pela trela. As duas vinham eufóricas com alguma coisa que tinham visto e na pressa de falar quase que se atropelavam uma à outra. Enquanto falavam iam apontando para a porta mais afastada da sala e a rir-se a Isabel apontava para a Matilde: provavelmente estariam todos a ficar cada vez mais confusos com o que viam ou em alternativa a atingir um estado – até agora desconhecido para eles – de loucura evolutiva, já que até o Manuel lhes apareceu a rir enquanto lhes entregava uma folha com o célebre Jogo do Galo. “Até eles já o conhecem” – acrescentou o Manuel.

 

A sala tinha apenas como mobiliário visível uma mesa central onde se encontrava algum equipamento electrónico rodeado de vários monitores e outros periféricos de aplicação desconhecida para eles; algumas cadeiras estavam também aí colocadas, enquanto diante dessa mesa mais ao fundo e quase que colado à parede, aparecia um pórtico de médias dimensões completamente vazio no seu espaço interior e que aparentemente ia dar a parte nenhuma. De resto as paredes apresentavam uma decoração que no mínimo nunca deixaria de ser surpreendente num local como aquele, com paredes decoradas com temas intercalando sobretudo imagens sobre o espaço, a tecnologia, as aves e – pasme-se – o jogo do galo.

 

Antes do mais a Maria chamou-os à atenção para duas aberturas existentes na parede situada à direita da sala: estavam tapadas com um vidro duplo, que apesar disso possibilitava a observação do que se passava no seu interior. Espantados e de boca aberta o Zé e o Caldas nem souberam o que dizer ao espreitarem pela primeira abertura e ao depararem-se com o que seria um bem equipado e revolucionário laboratório – certamente de pesquisa – exclusivamente dedicado ao estudo dos Galiformes. Mas qual seria o interesse particular destas criaturas alienígenas no estudo desta espécie doméstica? Mais admirados ficaram ao constatarem que muitos dos cerca de meia dúzia de exemplares – se não todos – se assemelhavam ao Jerónimo com outra Matilde pelo meio.


Galiformes

 

Riram-se (inicialmente) por não entenderem que a probabilidade de nos acontecer algo que nunca nos aconteceu anteriormente, é muitíssimo maior do que a probabilidade de algo se repetir – afinal de contas estamos num Universo Infinito. Deixaram de se rir quando a Matilde se pôs num grande alvoroço a querer espreitar estas aves particulares e do outro lado do vidro vieram todos os Galiformes espreitar e se puseram a falar com eles, propondo-lhes através de gestos um desafio para o jogo do galo. “Incrível mas aterrador: o animal mais estúpido do mundo a desafiar a inteligência do Homem!” – pensou o Caldas. No entanto existem “vinte e quatro mil milhões de galinhas no mundo”.

 

O tempo ia passando muito rapidamente: parecia que tinham chegado agora mesmo e no entanto já várias horas tinham decorrido.

À primeira vista a segunda abertura parecia estar selada, mas rapidamente a Maria explicou a sua associação com a “mesa de controlo”: através duma análise ao sistema neurológico do futuro operador levada a cabo por observação directa da retina, a “máquina de transferência” era capaz de elaborar um menu de destinos desejados pelo seu interlocutor, de modo a poder concretizar mundos e realidades compatíveis com o nível e capacidade desse futuro operador – dispensando com este procedimento automático todos os problemas surgidos nas aplicações iniciadas manualmente. No fundo tratava-se duma possibilidade de registo prévio e da garantia absoluta de que com este procedimento, facilitar-se ao máximo a operacionalidade do mesmo.

 

 A imagem daquela praia extensa e deserta onde apenas se via a terra e o mar, o brutal contraste de cores entre o azul forte e fresco da água e o castanho quente e acolhedor das areias, dominados por cima por um céu azul delicado e protector e senhor das montanhas vigilantes e guerreiras, só os poderia convidar ao relaxamento total e a um esquecimento temporário e analgésico. Como que hipnotizados e sem resistência foram levados pelo fluxo que os parecia envolver no cimo dum tapete mágico, perdendo a noção de terem atravessado o pórtico que antes estava diante deles e deixando-se finalmente deslizar – como Alice nas suas aventuras do outro lado do espelho – para cima das deliciosas areias que se espalhavam indefinidamente sob os seus corpos. Se o mundo fosse uma imagem e nós coubéssemos dentro dela, poderíamos finalmente despedir a realidade – nesse instante do espaço seriamos observadores fictícios mas vivos e não operadores reais identificando-se em falsas imagens e mensagens subliminares.


Zombies

 

Estavam todos esticados na suave areia da praia a usufruir dos quentes e reconfortantes raios do Sol, quando repentinamente o céu se pôs preto mergulhando tudo na mais completa e aterradora escuridão. O Carraça pôs-se logo a uivar duma forma prolongada e lancinante e enquanto todos tacteando e falando se procuravam encontrar e agarrar uns aos outros, o céu pareceu relampejar por uns brevíssimos instantes, aparecendo de seguida duma forma que cobria todo o céu e parecendo querer invadir e esmagar as suas cabeças e ideias, centenas de pontos circulares duma luminosidade fria e cruel, emanando a partir do seu núcleo central uma projecção holográfica de condicionamento mental e simultaneamente de preparação do momento de introdução das nano partículas reconstrutivas, no corpo das potenciais cobaias em presença. O que num processo múltiplo de actuação conjunta destes corpos intermédios – actuando como verdadeiros zombies – poderia levar irremediavelmente à desestruturação mental de cada um dos elementos constituintes do grupo de humanos e à sua parasitação definitiva ou morte artificial projectada e como tal intencional.

 

A reacção foi rápida e de uma certa maneira induzida pela galinha Matilde: nunca teriam eles duvidado durante a sua vida dalgumas das capacidades fantásticas que os animais em determinadas condições por vezes nos revelavam, mas pensar alguma vez que as galinhas teriam capacidades telepáticas, isso era demais. Mas foi isso que os salvou. Começaram por ser guiados em fila indiana até à entrada exterior do pórtico onde outros Galiformes os esperavam, acabando estes por os reconduzir de novo para a sala – junto das celas – onde tinham estado anteriormente. Aí esperava-os um dos outros Jerónimos que atenciosamente recebeu o grupo e informou delicadamente a Matilde deles dalguns pormenores relevantes: tinham-se metido num sarilho monumental envolvendo espaços pouco conhecidos e extremamente perigosos de universos paralelos – aleatoriamente seleccionados em ensaios experimentais de novos buracos de verme – nem se apercebendo sequer que ao mesmo tempo poderiam estar a propiciar a ocorrência de um fenómeno colateral de consequências imprevisíveis, que em último caso poderia provocar um evento parcial ao nível da extinção (E.L.E.).

 

O Zé, o Caldas, o Manuel, a Isabel e a Maria juntamente com a Matilde e o Carraça, ficaram finalmente sozinhos na sala subterrânea. Tinham ficado com a chave da primeira porta que pelos vistos lhes daria acesso a uma saída do local onde se encontravam – colocando-os passados poucos minutos no seu exterior – mas antes de saírem o Zé e o Caldas não evitaram a necessidade de concretização do seu último desejo: regressar de novo à biblioteca da segunda sala.


Biblioteca

 

Entraram de novo na sala e dirigiram-se para uma secretária onde um monitor parecia estar ainda ligado: no ecrã um ficheiro deixado aberto corria um programa de actualização, onde diversas informações eram armazenadas e distribuídas por pastas, devidamente especificadas e catalogadas. Noutro ponto da sala a Maria e a Isabel inspeccionavam atentamente algumas das prateleiras da biblioteca, que pareciam naquele sector estar associadas tematicamente à investigação dos momentos históricos mais importantes da vida na Terra e no que lhes tocava particularmente, ao estudo dos movimentos económicos e sociais registados na sua região. Perderam algum tempo na busca por indícios que os pudessem esclarecer sobre os motivos que tinham levado estes seres desconhecidos a virem até ao nosso planeta, nunca descurando por outro lado a possibilidade de recolherem alguns dados desconhecidos mas preciosos da história da humanidade e até de se apropriarem dalguns documentos que julgassem importantes ou no mínimo interessantes e reveladores. Constataram passado pouco tempo que a esmagadora maioria dos registos se referiam a uma determinada zona do globo – no caso particular à Península Ibérica – e que a maioria dos documentos recebidos recentemente se debruçavam exclusivamente sobre esta zona do sul do país, o Algarve.

 

Um dos documentos que logo os atraiu até pelo título que apresentava na sua capa – “Manuscrito Orgânico Sobre a Estrutura Societária” – foi descoberto por mero acaso quando manipulavam um livro pesado e volumoso intitulado “Arquivo Linear/Ficheiros Secretos/Terra, Conflituantes e Adjacentes”, guardado numa das estantes mais baixas daquela estranha biblioteca: um pequeno envelope contendo umas quantas páginas escritas à máquina e em papel, saíra do livro e caíra no chão. Parecia descrever uma revolta popular passada, não identificada e sem informações adicionais que lhes permitissem situa-la num tempo e num espaço determinado.

 

E assim vinha dactilografado:

 

Manuscrito Orgânico Sobre a Estrutura Societária

Fontes Anteriores – Volume A33B8/Eventos – Os Revoltosos (subrotina xn8uj)


Voynich

 

Os revoltosos reuniram-se no alto da Fóia ficando aí a aguardar a chegada dos seus restantes companheiros de armas, agora reforçados com novos equipamentos e kits de luta e de sobrevivência, fornecidos pela organização de cooperação colateral ALMA. Já na noite anterior os batedores se tinham instalado nas imediações das instalações de comunicações e radares aí existentes, controlando sem serem notados todas as movimentações em seu redor, de modo a que a quando do ataque a efectuar no dia seguinte, a surpresa fosse total, brutal e sem retorno, para estes colaboracionistas sem território e sem trilhos passados que os recordassem e justificassem.

 

Pelas encostas da serra que nos levavam de Monchique até à Fóia, vários contingentes de centenas de populares armados escondiam-se entre o denso arvoredo por essa altura aí predominante, apoiados complementarmente por jovens e belas mulheres que lhes forneciam toda a sua ajuda possível – e muitas das vezes por elas suportadas até aos limites da exaustão – tudo com o único objectivo característico a qualquer espécie viva e organizada e que pretenda reproduzir-se e evoluir, da concretização do bem estar dos seus filhos e de toda a comunidade envolvente, na sua contínua e corajosa luta pela preservação da nossa identidade, usufruída no seu nível mais básico e universal – e por isso fundamental – através da liberdade.

 

Eram cinco horas da madrugada quando o comandante Bitoque vindo de Albufeira e líder emblemático da Brigada Beato Vicente deu a ordem para o início do ataque. Centenas de combatentes surgiram então do nada, formando uma horda disforme que se lançou serra acima, ululando selvaticamente no silêncio da noite sob os efeitos do medronho ainda quente vindo directamente do alambique e iluminados por tochas fumarentas que transformavam as suas sombras projectadas, num corpo real e aterrador, serpenteando como um terrível réptil esfomeado à procura da sua presa libertadora. Os parasitas vivendo no seu caminho teriam todos que estremecer agora de sedentarismo e de terror, face à invasão destes nómadas irresponsáveis e sem sentido de propriedade e de segurança – mais parecendo um bando de pirilampos em delírio ou conjuntamente em coma alcoólico – apenas interessados irracionalmente e sem produção de mais-valia, em dar lugar à primazia da natureza e da sua beleza selvagem.

 

Lá em cima ouviu-se um violento estrondo que deixou todo o alto da Fóia encoberto por uma nuvem de detritos e poeiras e com visibilidade praticamente nula. As notícias que chegavam às milícias populares – que cada vez em maior número subiam a serra – relatavam que a ALMA destruíra completamente as instalações paramilitares dos traidores, começando desde logo a colocar nas imediações do local o artefacto que iria eliminar todos aqueles seres humanos que se tinham deixado possuir e corromper em nome dos invasores estrangeiros e dos novos negreiros regionais ligados à política.

 

O raio seria emitido a partir duma antena parabólica colocado no cimo do Edifício de Telecomunicações deixado ainda de pé pelos patriotas algarvios e seus aliados da ALMA, de modo a que a quando da sua transmissão retaliatória, estes pudessem fazer implodir definitivamente o chip de controlo mental instalado num local desconhecido situado nas proximidades – e em emissão activa ininterrupta há já várias semanas – anteriormente aceite duma forma vergonhosa pelos traidores humanos, com o único objectivo de subjugarem mais facilmente a sua população na implementação deste processo de alienação e colonização, em troca de mordomias dirigidas, pessoais e ilegais: o espectáculo estava previsto para ocorrer pela hora do almoço.

 

E através duma nota de imprensa distribuída por toda a rede pública e privada da região o povo foi convidado a assistir, a estar preparado para grandes surpresas e como contraponto à barbaridade das retaliações do poder para com os seus opositores, dar-lhes mais uma oportunidade e deixá-los escolher: mas nunca mais esquecendo todos os crimes por eles cometidos, já que para esta “não gente” isso poderia significar um incentivo justificativo para um dia recomeçarem. Através da utilização, manipulação e difusão da palavra é fácil controlar mentalmente todo um povo e sociedade, servindo-se para tal duma forma indiscriminada e sem qualquer tipo de ética ou de pudor, de todo o tipo e forma de mensagens educativas subliminares promovendo como único objectivo e paradigma – contrariando tudo o antes fora afirmado com veemência – a indiferença, a submissão e a perpétua aceitação.

 

A emissão começou exactamente às treze horas locais e o “fogo-de-artifício” mental foi espectacular, estendendo-se do barlavento ao sotavento algarvio.

 

(e o texto continuava por mais algumas páginas)

 

A História da Humanidade, que tem sido duma forma errada e deliberada constantemente transmitida pelos funcionários e estrategas oficiais ao serviço das poderosas corporações actualmente em ascensão – face à extinção e demissão do Estado – e sobre a qual os mesmos intervêm baseando exclusivamente as suas análises civilizacionais em função dos tópicos fornecidos não só pelo poder político de então como pelos seus seguidores e entusiastas de hoje – mas nunca considerando em alternativa e como parâmetros fundamentais dessa análise os construtores práticos dessas estruturas de sustentação – está basicamente errada por dois motivos essenciais: falta de independência na análise, parâmetros dimensionais inadequados e critérios imprecisos de definição de infinito. Não é assim de espantar que contra esta corrente de directivas funcionais maioritárias que ainda sustentam toda esta estrutura ficcionada, surjam por vezes manuscritos e outros tipos de documentos provavelmente elaborados por leigos, mas logicamente ilegíveis para a maioria dos eruditos – assim construídos deliberadamente por cérebros curiosos e inconscientes e utilizando no extremo da sua aplicação códigos indecifráveis.

 

Muitos são os livros e manuscritos que têm intrigado cientistas e linguistas ao longo da história da humanidade: desde o livro de Soyga – com magia e fenómenos paranormais – passando pelo Codex Giga – com os seus textos pagãos e a sua imagem demoníaca – e chegando ao “livro que ninguém consegue ler”, o manuscrito Voynich. Este manuscrito era no entanto relativamente claro em relação ao espaço onde se tinha desenrolado o acontecimento aí descrito, não desenvolvendo no entanto a altura em que o mesmo ocorrera, se seria mesmo algo de palpável e real ou se racionalmente reflectisse nada mais, do que um sonho imaginado.


Regresso

 

Atenta a todos os pormenores rodeando aqueles momentos incríveis ali intensamente sentidos e vividos, a Isabel lembrou os colegas que o cronómetro que antes tinham visto na outra sala continuava a trabalhar e pelas indicações do relógio que trazia consigo – e cujo cronómetro tinha regulado pelo anterior – não faltaria mais de hora e meia para chegar a zero. Apressaram-se na recolha de todo o material que transportavam consigo e acompanhados pelos seus dois animais que se mostravam um pouco inquietos e nervosos, dirigiram-se finalmente para a porta de saída: agora que tinham a chave, o regresso a casa parecia estar cada vez mais próximo.

 

Entraram num estreito corredor – parecendo fazer parte dum trajecto secundário de emergência – acabando por irem dar a uma grande sala: nela era bem visível a existência dum túnel com uma certa profundidade provavelmente utilizado como um portal espácio-temporal para transporte de seres vivos vindos de outras galáxias e de outro material complementar de maior dimensão. Lateralmente destacava-se um enorme ecrã de identificação e projecção das zonas activas que por essa altura se encontrava  

 

Nas instalações de controlo e injunção de probabilidades, implementadas e simuladas em ambientes previamente programados e devidamente implantados em sucessivos planos divergentes – através de aplicação de subrotinas de software, direccionadas exclusivamente para a clonagem automática (e utilizando hardware alienígena integrado) – as opções que se apresentavam perante eles, cingiam-se apenas à origem do problema e às consequências por ele originadas: nunca se debruçando sobre o factor fundamental e determinante do acontecimento – o conhecimento adquirido e consolidado sobre o plano intermédio – nem sobre os seus dirigentes operacionais e aplicativos.

 

A sala parecia deserta. Cada um dos presentes estava ocupado a analisar o seu espaço envolvente, separando-se uns dos outros pela utilização de diferentes critérios de objectividade e de disponibilidade pessoal: nada mais viam para além do que os seus órgãos dos sentidos lhes permitiam ver, entretendo-se e refugiando-se em ilhas isoladas de conhecimentos particulares e limitados, que os iam alheando daquilo que na realidade se ia desenvolvendo à sua volta, modificando progressivamente – e sem que estes se apercebessem – o status quo local.

 

Suspeitavam que partilhavam com algo mais o amplo espaço daquela sala. Não tinham sentido ninguém a entrar no local onde se encontravam e as salas do nível superior continuavam com as portas fechadas, sem movimento ou ruído que se notasse. Sentiram então que algo se movimentava na extremidade do corredor que se estendia ao longo do piso superior, devido não só ao ruído vindo duma das partes laterais e exteriores ao túnel que se abria atrás do pórtico, como à percepção da parte deles dum leve sussurrar entrecortado por sorrisos pontuais, muito próprio dos seres humanos em situações extraordinárias de pretenso (ou estratégico?) protagonismo e superioridade: à esquerda, talvez vindo duma das salas laterais adjacentes ao corredor, surgiram dois seres ainda pouco definidos que os olharam fixamente começando de seguida a deslocar-se na sua direcção. Ficaram paralisados no espaço onde entretanto tinham parado, enquanto os dois corpos perfeitamente humanos e idealmente perfeitos que iam observando, pareceram suspender-se no ar e planarem suavemente ao seu encontro sem emitirem qualquer tipo de som no mínimo audível: eram dois corpos extremamente jovens, sem idade definida e emitindo uma força corporal no auge das suas forças físicas e mentais, não se preocupando minimamente com a sua nudez e parecendo mesmo nas atitudes tomadas no desenvolvimento dos seus movimentos espaciais, assumirem conscientemente uma posição provocatória e desafiadora, senão mesmo de cariz sexual. O macho dirigiu-se erecto em direcção à Maria e à Isabel, enquanto a fêmea suspirando freneticamente já rodeava com os seus extensos e belos braços os corpos trementes e frementes dos três amigos de aventura: tocaram-se, deixando-se todos envolver numa densa e profunda atmosfera de prazer e de mistério, mergulhando num cenário de sonho em que todos incorporavam o Universo, construindo-o e destruindo-o numa constante transformação orgástica criadora de novos mundos. Mas como nos sonhos a realidade acaba sempre.


Fim da 2.ªparte (de 3)

 

(imagens – retiradas da Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 16:14

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