Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

26
Ago 13

 

 

 

A Simulação da realidade apesar de baseada em sistemas infinitos e aleatórios terá sempre que depender da conjunção das mais variadas e bizarras equações, directa ou indirectamente ligadas a outros sistemas ou a subsistemas destes ou ligados ao próprio: como sistema dinâmico que é a Simulação tem nas equações de EULER um bom método de estudo – apesar de básico e iniciático. Na Alegoria da Caverna já Platão concluíra que a realidade não passava duma simulação, só que ainda não tínhamos consciência desse facto.

 

O Lado Obscuro da Terra – A História (2.ªparte)



O Homem sempre temera a morte por incompreensão na aceitação do fim da sua vida e por acreditar ser impossível de se construir e evoluir realisticamente num Universo pretensamente infinito. Não era aceitável um ser vivo permitir a existência dum sistema aleatório de escolha sistemática – diluído num parâmetro abstracto como era o descredibilizado tempo – consentindo de forma suicida na interrupção dum percurso particular assente exclusivamente na sua vida biológica, apenas para se deixar levar por um idealismo sem contexto nem qualquer tipo de base de suporte, baseado apenas em sonhos e desejos e numa concretização final da imortalidade num espaço mais além, localizado sabe-se lá onde. E quando alguém chegara perto do Homem e lhe fornecera graciosamente o fim do seu limite de tempo biológico, por racionalidade e por espanto nem sequer obtivera resposta apenas aceitação imediata: a morte deixara de ser definitivamente uma preocupação para os terrestres, alterando a partir daí todos os parâmetros de análise em torno de toda a vida na Terra, da sua vida animal e vegetal e de toda a estrutura societária e até mesmo planetária. O Novo Mundo assentaria assim no fim da morte e na adaptação deste novo conceito de vida, ao conjunto daí resultante.

 

A primeira etapa desta história (introdutória) teve origem na entrada em cena do cometa ISON e na sua cavalgada em direcção ao Sol: a sua observação astronómica – à medida que se aproximava da Terra e se tornava mais visível na sua forma e estrutura – levara os astrónomos a elaborarem conjecturas por vezes incompatíveis com o que seria mais racional deles esperar, transportando-os para a concretização de detalhadas teorias conspiracionistas aparentemente sem nexo nem significância, afirmando convictamente e contra a opinião generalizada tratar-se pela sua forma e pelo seu comportamento dinâmico de objectos de natureza artificial. Nada de significativo se confirmou na altura sobre estes factos, apesar dalgumas questões que ficaram no ar ainda por resolver, como o foi o caso dos astronautas das Estações Espaciais chinesas, que fugindo à cortina de fumo levantado pelas autoridades oficiais aeronáuticas norte-americanas, afirmaram numa curta comunicação rádio imediatamente interrompida, estarem a “observar algo de anormal na composição do cometa”. Somente como mais um sinal desesperado. A segunda etapa deu-se poucas semanas após à passagem do cometa ISON e teve a sua origem numa fortíssima explosão registada na zona do equador da coroa solar com a ejecção duma forte CME infelizmente dirigida à Terra. Na Terra a vida decorria com a maior das normalidades à sua superfície, enquanto em certos recantos dos E.U.A. e do mundo à sua volta, se efectuavam os derradeiros preparativos e se estabeleciam as últimas alianças: um Governo Mundial Provisório tinha sido estabelecido antecedendo a grande catástrofe, contando com todo o apoio logístico fundamental para a preservação mínima da espécie durante o período de transição das grandes Corporações Mundiais, dum sector conservador das Civilizações Interiores – a maioria dos Albinos terá escapado duma forma misteriosa, com algumas fontes a mencionarem a utilização de uma porta dirigida para outra região do Universo, semelhante mas diluído no espaço-tempo – e claro está, da influência directa, prática e constante exercida sobre nós ao longo de muitos e muitos anos, pelos nossos aliados alienígenas.



A Terra tinha sido devastada numa grande extensão da sua superfície. A população de quase 7 triliões de indivíduos tinha-se reduzido astronomicamente a pouco mais de 1.000 milhões, espalhados por alguns pólos de sobreviventes ao cataclismo solar. Dentro destes pequenos nichos contabilizava-se já o novo corpo de elite previamente seleccionado pelos intermediários do Novo Poder das Corporações, onde também estavam integradas todas as grandes chefias e os poderosos directórios a elas associadas: tinham sobrevivido às brutais alterações registadas à superfície da Terra, refugiando-se em habitáculos introduzidos paralelamente ao eixo do tempo agora condicionado, através da intersecção de espaços temporalmente confluentes, mas divergentes no tratamento do espaço a transformar. Neste caso os habitáculos – com todos os seus módulos adjacentes associados – simulariam integralmente no seu interior todas as situações normais decorrentes do quotidiano humano vivido em tempos anteriores ao Reinício, beneficiando através duma materialização holográfica “deveras realista” dos mais variados cenários naturais ou artificiais, de modo a assim proporcionarem todas as condições suficientes e necessárias para o erguer de um Novo Edifício Social. Constatou-se no entanto que as estimativas previstas de sobrevivência tinham sido muito exageradas; e passados poucos dias sobre o Evento, a confirmação foi final e avassaladora (apesar de ir de encontro a afirmações registadas em documentação secreta, a que mais tarde alguns privilegiados tiveram acesso) – o mundo actual dividia-se em duas grandes zonas de dimensões equivalentes, estando uma completamente devastada à sua superfície e mesmo nalguns casos em profundidade, devido a registos de grandes catástrofes de origem solar e geológica, tornando-se mesmo inabitável devido à acção degenerativa das elevadas radiações aí verificadas e das extremas condições climáticas e atmosféricas (com um ar irrespirável, quente e extremamente venenoso); e o outro extremamente afectado pelos acontecimentos registados no outro lado do planeta, mas possuindo aqui ou acolá alguns vestígios de pequenas ilhas de esperança – como pequenos oásis num imenso deserto – naquele Inferno na Terra. Nesses pequenos oásis sobreviventes do holocausto vindo dos Céus, os cerca de 100.000 terrestres iriam iniciar um novo ciclo da sua existência, mas agora em estreita colaboração com as suas poderosas e fiéis máquinas e com todo o software a elas agregado para seu único usufruto e benefício.

 

Basicamente os poderosos do mundo associados nas suas grandes empresas e corporações e alicerçados no poder real de verdadeiras Sociedades Secretas, convenceram-se definitivamente que o destino da Humanidade já estava há muito traçado, nada mais havendo a fazer para salvar este corpo já tão deformado. Desestabilizado o mundo face à crise económica e social crescente e sem fim à vista do Estado ou de outras instituições de intervenção internacional – acção provocada pelas próprias Corporações e com o objectivo final de controlar todas as organizações colectivas, minando-as e destruindo-as apenas com fins estritamente materialistas – as suas forças foram todas dirigidas para os preparativos para o Grande Salto Evolutivo que já se anunciava, até porque o momento propiciava a distracção sobre o que verdadeiramente se passava e preparava. A Terra foi atingida em cheio por ondas sucessivas de elevadíssimas radiações vindas do Sol, que acabaram por destruir o seu campo magnético envolvente e protector, expondo todos os seres vivos aos seus raios mortais e condenando praticamente a humanidade à sua extinção. A tudo isto sucedeu-se um conjunto de cataclismos que modificaram no essencial o aspecto geral de toda a crosta terrestre, transformando-a numa Terra irreconhecível.



A Robotics Simulated Systems (RSS) tinha sido criada pouco tempo antes de ocorrer o Evento, associando técnicos das diversas Corporações aglutinadas à C.A.O.S. e ainda especialistas de outras empresas independentes mas indirectamente (e por estratégia empresarial) relacionadas e subsidiadas por esta. O objectivo imediato da Empresa seria o de criar boas condições ambientais e de convívio entre os utilizadores dos seus espaços de vida e de trabalho, construindo cenários o mais fidedignos possíveis da representação das propriedades que o anterior mundo real proporcionava, de modo a que nestes tempos de transição e reconstrução o choque provocado nos humanos pela falta de um dos seus componentes básicos – a natureza e a liberdade de movimentos – não afectasse psicologicamente o quotidiano dos sobreviventes e os pudesse levar em casos limite a estados profundos de depressão que por contágio social poderiam por em risco todos os objectivos do projecto assumido pelas Corporações tornando-o de aplicação (e desenvolvimento) inviável. Nesse aspecto particular a experiência retirada por muitas das agências espaciais internacionais – como era o caso da NASA – com o estudo do comportamento das tripulações em períodos longos e ambientes fechados, tinha sido muito importante para a elaboração da simulação a implantar, a desenvolver e a incorporar no subconsciente dos Indivíduos Periféricos Aplicativos (IPA), como elementos relevantes e imprescindíveis do corpo técnico desta organização que dado as suas funções eminentemente práticas que lhes eram atribuídas estariam durante mais tempo em contacto com a Terra real, conflituando a todo o momento com o mundo simulado agora activo e vivido.

 

A aposta desta equipa constituída por especialistas em psicologia ambiental e programação computacional tinha inicialmente quatro direcções interligadas de actuação fundamental: criar uma animação robotizada da simulação, criar o ambiente o mais realista possível associado à própria simulação, criar todos os elementos de comando da mesma podendo-a alterar a qualquer momento para uma melhor adaptação ao operador e ao aplicado e finalmente criar Entidades de controlo lógico e de orientação ideológica, de modo a assim controlar duma maneira eficaz e segura todo o processo, sentindo-o e adaptando-o constantemente às necessidades dos elementos (preenchendo a base da pirâmide de apoio e suportando-a) a proteger e preservar – os seres humanos. Os estrangeiros vindos dos confins do espaço tiveram aqui um papel fundamental ao fornecerem aos terrestres informações importantíssimas sobre a utilização de nova tecnologia espácio-temporal aplicada à concretização de realidades laboratoriais simuladas e agora transportas para ambientes exteriores através da aplicação de novo e revolucionário hardware e software, imaginativo e sem limites de aplicação ou alteração: através de periféricos aplicados indiscriminadamente e sem critérios, a teoria assentava no enunciado filosófico e sem perplexidades de que a partir do caos a organização seria inevitável. No entanto um problema era já motivo de diálogo e estudo permanente por parte dos técnicos especialistas em holografia: o que aconteceria quando o Homem reconhecesse em si e definitivamente que estava a viver uma simulação? A Esperança era a última coisa a morrer: o desenvolvimento do artefacto PI poderia futuramente proporcionar-lhes a utilização de portais que os poderiam transportar para outros pontos distantes do Universo e pela simples análise das probabilidades o mais certo seria nesses Universos Paralelos ou Concorrenciais voltar a encontrar a Terra e assim redescobrir uma nova felicidade apenas utilizando factores e capacidades a nós intrínsecas de comparência e de integração. E o Solenóide já estava a ser construído, aproximando-se cada vez mais rapidamente o dia do ensaio inicial.



No pólo três da PSG (Prism Securirty Group) o operador responsável pelo acompanhamento das experiências de realidade virtual consolidada – e aplicadas em contexto real adaptado – fazia um pequeno e merecido intervalo no seu monótono trabalho diário, desfrutando de um delicioso cocktail de melancia misturado com um pouco de vodka russo, enquanto ia apreciando as manobras exteriores efectuadas por um dos clientes da plataforma turística que também monitorizava, no seu passeio pelo cenário que lhe era proposto e utilizando um escafandro protector de origem e de construção anterior ao apocalipse. Aquela situação que ele já tantas vezes presenciara sempre lhe provocara um ligeiro incómodo e alguma confusão, já que aqui o interlocutor em vez de querer perscrutar e adivinhar o futuro, tinha como objectivo oposto o de reviver o passado: era como se o déjà-vu se invertesse e em vez de percepcionarmos no presente algo que já pensaríamos ter vivido no passado, agora as nossas sensações dirigir-se-iam intactas para o passado para nele aglutinarmos as sensações adquiridas no presente.

 

No caso dum acontecimento como o déjà-vu poderemos considerá-lo como uma anomalia na aplicação do programa de simulação pretendido, permitindo por alguma falha no sistema que se pudesse aceder a factos reais ainda inactivos e deles ter consciência mesmo antes dos mesmos ocorrerem, o que necessariamente e temporalmente deveria ser impossível. Um facto que só vem provar que a simulação da realidade pode ser interrompida ou alterada no decurso da sua execução, confirmando com esta ocorrência do déjà-vu que o interlocutor pode acabar por ter acesso indevido no presente a factos apenas ocorridos no futuro. Mas por outro lado são estas falhas de funcionamento que – para além de confirmarem a simulação em que todos vivemos – nos permitem adivinhar situações futuras e reconhecer a pré-programação a que a nossa mente foi sujeita. A realidade não passa no fundo de uma ideia, mas talvez já seja meia vitória nossa que conscientes ou inconscientes reconheçamos a interferência.



A Simulação em curso decorria sob a supervisão dum grupo de peritos informáticos colocados temporariamente numa das três Estações Espaciais Terrestres (a ex-estação norte-americana), sobreviventes ao desagregar abrupto da civilização humana tal como todos a conheciam desde tempos imemoriais e agora enfrentando um renascimento controlado da espécie dominante, através da utilização de novos e revolucionários parâmetros de vida tornados realidade e confluindo todos na concentração de meios que possibilitassem a consolidação da base da estrutura, o seu constante aperfeiçoamento qualitativo e finalmente a expansão e colonização do espaço, como garantia de sobrevivência para lá dos limites que a nossa mente ainda insistia em protagonizar negando os sonhos – como projecções de realidades alternativas – e a utopia – como uma das opções de execução.

 

Os peritos limitavam-se a rectificar algumas das aplicações em curso que se tornassem desadequadas e tecnicamente ineficazes, face às pequenas mas constantes alterações que se iam observando na própria estrutura do novo edifício a recriar e reinventar, o que era uma consequência normal na implementação destes jogos de integração social que privilegiavam o desenvolvimento ilimitado e à disposição do mero acaso por parte do individuo, mas sem nunca pôr de lado por ignorância e ingenuidade a necessidade de o proteger de si próprio. Neste aspecto as máquinas tinham sido duma utilidade fantástica, imediata e sem preço, com os alienígenas contribuindo com todos os seus conhecimentos científicos e tecnológicos para a construção dum exército super qualificado de mão-de-obra, a colocar sempre que solicitado e sob as ordens do novo poder em ascensão a chave das portas do Novo Mundo. De resto os estrangeiros tentavam manter-se o mais afastado que podiam do problema que não era seu, sendo raras as vezes em que os humanos falavam deles ou da sua participação presencial (ou não) em reuniões com os mesmos: mais tarde chegando as chefias intermédias (e as hierarquias inferiores) à conclusão de que os humanos lidavam directamente com humanóides robotizados e sem grandes emoções ou alternativamente – mas em menor número por prováveis conflitos de integração previstas antes do início da aplicação mas na altura julgadas positivas – com réplicas obtidas através do ADN de elementos da sua espécie seleccionados antes do Evento e que davam garantias absolutas de obediência, trabalho e integração entre os seus originais.

 

Numa sala fechada da outra Estação Espacial Terrestre (a ex-estação russa) um terminal computadorizado fazia a ligação final com a porta de comunicação orientada para o nosso Sistema Solar, instalada numa base localizada no satélite de Júpiter Europa, que desde o início da Transformação trocava constantemente dados com um ponto de origem já muito fora dos limites conhecidos da nossa galáxia: nesse aspecto os extraterrestres tinham optado pela solução mais simples e menos intervencionista, mantendo sempre abertos os canais de comunicação entre os três interlocutores ainda activos e com poder de introdução de actualizações programáticas correctivas, de modo aos mesmas não intervirem fosse de que maneira fosse no decorrer da simulação real, estritamente baseada na realidade virtual partilhada por outros seres vivos vivendo em comunidades isoladas do Universo. Se por um lado as três grandes corporações mundiais – associadas neste grande conglomerado que era a C.A.O.S. – lutavam pelo predomínio na concretização e controlo deste processo de rejuvenescimento da humanidade, não era por outro lado menos certo que os quatro blocos políticos ainda prevalecentes na Terra Formação do planeta Terra – o bloco Americano controlado pelos EUA (com os ingleses atentos à distância), o bloco Europeu e os seus aliados do norte de África controlados pelo eixo Franco-Alemão e o bloco unificado Sino-Russo-Iraniano sediado nas montanhas dos Himalaias – deveriam dialogar e interagir o mais rapidamente entre si e em último caso decidirem-se pela unificação. Quanto ao quarto grupo não seria propriamente conhecido como um bloco, até pelo desconhecimento parcial que todos tinham dele desde que se verificara a cisão nas Civilizações Interiores: a maioria esmagadora dos Albinos simplesmente desaparecera no ar antes de se dar o grande Evento, falando-se em círculos restritos de opinião credível e autorizada, que teriam inicialmente fugido para um planeta exterior à órbita da Terra, muitos deles em escala de viagem para outros e distantes sistemas galácticos. O que levantava logo a questão da outra Entidade que os estaria a apoiar e da sua relação com os actuais e estrategicamente aliados alienígenas.



Após uma tarde bem passada a passear pelos campos e a apreciar o que de bom a natureza ainda lhe ia conseguindo transmitir – principalmente as cores e a textura dos terrenos secos expostos aos ventos – o homem acabou por regressar de novo ao seu pequeno habitáculo que se apresentava na altura um pouco quente, devido à antiguidade do seu processador atmosférico. Ligou o sistema auxiliar de emergência, preparou uma refeição rápida de leite em pó com cereais sintéticos e deitou-se calmamente na espreguiçadeira a contemplar demoradamente e com memória passada, a paisagem que se abria para além da única abertura desta espécie de tenda que temporariamente habitava. O sentimento de incerteza e as teorias conspirativas que rodeavam este crítico estado de alma (alerta), nunca o deixavam de perseguir e de por os seus neurónios numa polvorosa interna mas sempre imprevisível: com o desaparecimento da morte e a constatação da inutilidade do parâmetro tempo, o anterior mundo real ter-se-ia baseado na concretização duma abstracção por manipulação das nossas mentes, o que apenas provava definitivamente e sem qualquer tipo de recurso físico ou psíquico, aquilo que nunca ninguém conseguira claramente e sem subterfúgios alguma vez afirmar: a nossa visão do mundo vista como um grão de areia do areal duma praia imensa, apenas confirma que esse grão não terá identidade própria se não for visualizado no seu conjunto espacial, já que se for visualizado como um ponto solitário e cercado pelo espaço intermédio e isolante exterior, não terá hipótese de projectar e comunicar a sua imagem se não se movimentar em direcção aos outros grãos de areia, morrendo por excesso de espaço intermédio e não pelo tempo que demoraria até atingir o local do espaço onde estariam as suas outras referências.

 

Antes de adormecer chegou a pegar num dos livros que decoravam a estante do habitáculo, manuseando-o demoradamente e usufruindo de todo o prazer que o sentido do tacto lhe poderia proporcionar e ainda conseguindo ler com alguma concentração e lucidez, o prólogo dessa belíssima raridade aqui magicamente apresentado em suporte de papel. E dizia:

 

“Todos os seres até agora criaram algo que está para além de si próprios; e vós quereis ser a vazante dessa grande maré e até retornar ao animal, de preferência a superar o homem?

O que é o macaco para o homem? Uma risada ou uma dolorosa vergonha. E é isso mesmo que o homem deve ser para o super-homem: uma risada ou uma dolorosa vergonha.

Haveis percorrido o caminho desde o verme até ao homem e em vós ainda há muito de verme. Em tempos fostes macacos e ainda agora o homem é mais macaco que qualquer macaco”.

 

(Friedrich Nietzsche – Assim falava Zaratustra)

 

Então adormeceu e o mundo desapareceu.

 

Certos diálogos que mantemos normalmente por vezes revelam duma forma muito pouco perceptível que todas as incertezas e conspirações que tornam a nossa vida claustrofóbica e sem fim definido, se devem basicamente à nossa fatídica má sorte e ao acaso de vivermos num mundo muito mal imaginado – para os fanáticos idealizado – ainda por cima povoado por uma espécie de replicantes orgulhosamente tolerantes e acéfalos. E falando do nobre exercício de pensar, ainda hoje em dia ficamos extasiados com as nossas capacidades mentais consideradas extraordinárias e infinitas, quando apenas nos servimos ainda dos nossos neurónios para activar o cérebro, deixando-o na mais pura autogestão: se o nosso cérebro já comanda os nossos sistemas básicos e biológicos de vida, porque não deixar à sua guarda o resto do nosso corpo e a fraude da nossa alma?

O tempo o dirá, dirão os Abstractas.

 

Fim da 2.ªparte (de 2)

 

(imagens – retiradas da Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 13:11

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