Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

07
Fev 14

Ficheiros Secretos – Albufeira XXI

(Mundo Sequencial – Transmissão Indiferenciada por Pulsação e Contacto)

 

“Acordei às oito no cumprimento do dever: duas horas depois abdiquei definitivamente dos meus direitos”. Simplesmente por Intervenção Exterior: Divina, Alienígena ou Humana.

 

Todos os sistemas eram suportados por estruturas redundantes de simulações paralelas e coincidentes, criadas com o objectivo de proteger e defender os operadores do aparecimento de determinadas particularidades – maioritariamente acidentais e produtos do acaso – e assim evitar o aparecimento de derivações de controlo incerto e susceptíveis de suspensão. Os custos dessa suspensão eram extremamente elevados – a criação e eliminação de cenários poderia levar à desqualificação de actores e outros artefactos potencialmente válidos e extremamente efectivos – além de que todos os pontos introduzidos e mesmo que posteriormente eliminados da execução do programa, permaneciam indefinidamente no sistema. Detectada a particularidade arrancava de imediato o programa substitutivo de segurança, o qual só terminaria após a detecção da inconformidade no holograma e a conclusão (e impressão por sobreposição) do novo cenário (disponível por replicação). Utilizando um método de cálculo matemático baseado em sucessivas interpolações repetindo-se até ao ponto de referência pretendido – resultado de intersecções múltiplas de planos do espaço, mas com um ponto comum na estrutura – foi com relativa facilidade e num curto espaço de tempo que detectaram a origem do problema.

 

Acordei às oito no cumprimento do dever

 

 

Acordei por volta das cinco horas da madrugada, sobressaltado por um sonho pelo qual estava a passar no momento e que incluía uma adaptação bem realística, duma cena vivida na noite anterior: à saída do bar fora atingido por um balão vindo não se sabe bem de onde, que ao colidir com o meu corpo rebentara, espalhando de imediato sobre mim uma fina película meia plástica e viscosa, que por momentos pareceu aderir perfeitamente à pele mas logo de seguida desapareceu. Na altura ainda estranhei a situação – se fosse plástico e ao contrário do que sucedeu, o material deveria ter encolhido – mas levado pelo riso e pela diversão que tinha provocado na minha companhia, ignorei-a rapidamente e também mergulhei na brincadeira. No meu sonho a única diferença residia na identificação da origem do acontecimento, num caso real e no outro imaginário: se no primeiro caso a origem da intervenção teria que ser forçosamente humana – o balão era uma criação do Homem, ali colocado em consciência e com um determinado objectivo a cumprir – na concretização do sonho e dado estar inserido duma forma inconsciente noutra realidade, tudo indiciava a participação neste novo cenário de objectos transformados em imagens duma Entidade Diferenciada. A imagem duma paisagem caótica e ondulante, indiferente aos limites definidos para cada um dos seus elementos – o que levava a que certos espaços pudessem ser partilhados, utilizando a teoria da existência e do paralelismo dos mundos – proporcionara a ocorrência no decorrer e evoluir do sonho, duma mistura de cenários complementares à realidade que o provocara, mostrando no meu caso o meu corpo a ser envolvido num manto nebuloso, a desaparecer subitamente e a reaparecer noutro mundo do mesmo mundo. E até contando com a presença de mortos e de outras disparidades (como a Alma e outras espécies não identificadas) nesta produção dirigida. Tornei a adormecer.

 

Às oito horas da manhã o despertador tocou o alarme: de certeza que me esquecera de o desligar, já que nem me lembrava sequer de o ter visto, quando me tinha ido deitar. Ainda mal a começar a abrir os olhos, inclinei o meu corpo para a esquerda e com as mãos procurei encontrar a mesinha ou então a beira da cama. Não havia maneira de as encontrar com segurança no meio daquela escuridão e se caísse da cama ainda se poderia magoar. Mas algo não batia certo nesta situação ou então era eu que ainda não tinha acordado completamente: por vezes o momento de ligação entre o sonho e a realidade deixavam-me um pouco confuso no tempo e perdido no espaço. Além de começar a apresentar uma estranha e crescente sensação de desequilíbrio – sentia-me como se estivesse a ser puxado para cima desafiando a lei da gravidade – fiquei admirado quando ao olhar pela janela do quarto verifiquei que a luz do Sol ainda não tinha chegado, vislumbrando apenas no exterior e espreitando através do vidro, um céu intermédio de claridade, de nascer ou pôr-do-sol. Pelo menos até ontem o Sol começava a aparecer por aqui vindo de leste depois das seis e às oito já era dia. Mais habituado à penumbra que me envolvia tentei de novo levantar-me, mas para meu espanto senti que o sangue e quase todas as minhas forças pareciam deslocar-se em direcção à cabeça, fragilizando os membros inferiores e dificultando-me o apoio nos mesmos. Era como se tivesse os pés no lugar da cabeça e estivesse enfiado num buraco negro! Olhei de novo para o relógio e confirmei as horas: tinha passado quase meia hora desde que acordara mas a luminosidade não se alterara. Ligou a rádio, a TV e o seu PC mas o resultado foi sempre o mesmo: os respectivos emissores apresentavam-se todos fora de serviço e até o telefone estava mudo. Mas tinha electricidade.

 

 

No cumprimento do processo evolutivo de replicação de partículas obtidas através da junção da matéria e das suas características activas de movimento e de energia, o mundo expandira-se em todas as direcções a partir dum ponto original, aqui referenciado iniciaticamente como o zero absoluto. Num episódio reportado a um dos universos já disponíveis e com o seu período de incubação integralmente cumprido e em módulo de espera, a partícula fundamental abandonou finalmente o seu estado de neutralidade activa, emitindo instantaneamente e duma forma consecutiva energia sem precedentes para o seu exterior e dando origem por colisão a processos idênticos de transferência e de transformação de energia, que levaram ao “Grande Estouro”: lançada pelo espaço agora disponibilizado para este novo conjunto, a matéria agora fragmentada começou a distribuir a sua massa em todas as direcções, expandindo-se a grande velocidade e criando com a sua energia pontos de concentração diferenciada, que foram de acordo com o seu desenvolvimento dando origem a novas diversidades, entre mundos e novas espécies. Em sentido contrário outros universos em etapas diferenciadas da sua evolução estariam agora no seu período de contracção e de fecho da sua curva, de início expansiva (deslocando-se de dentro para fora e libertando energia) e no seu final contractiva (deslocando-se de fora para dentro e absorvendo energia): a noção de infinidade era dada por este contínuo e eterno retorno (à origem), provocando inícios distintos por impossibilidade contrária, mas sempre utilizando no seu processo de transformação, curvaturas diferentes e espiraladas. O conjunto teria pontos dispersos de manutenção de equilíbrios, necessários para a resolução de certos problemas existentes na dispersão de matéria e de energia pelo espaço e que seriam provocadas por certas acumulações inesperadas de “espaços excessivamente preenchidos” e que poderiam dificultar o movimento geral do conjunto do (s) Universo (s): esses ponto seriam os conhecidos “buracos negros”, colocados estrategicamente antes do conjunto U ser activado e que teriam como função assegurar o escoamento de todos os excedentários produzidos durante a execução da tarefa atribuída à máquina e equilibrar os diferentes conjuntos interligados (por intersecção) e actuando entre si, como constituintes dum cenário mais amplo, com parâmetros flexíveis e de dimensões indeterminadas (infinitas). Permitindo deslocações entre determinados parâmetros do espaço, entre tempos e entre lugares”. (excerto do livro: O Construtor de Universos – Origens Filosóficas – Particularidades Pré-Instaladas – Os Redemoinhos Espácio-Temporais)

 

Do dever a única reflexão que retiro (desse termo) é que o mesmo deveria ser utilizado como um instrumento filosófico dedicado à conservação da vida e nunca para ser propiciador de situações preocupantes senão mesmo perigosas: os riscos que corremos com as constantes adaptações de termos como valores, princípios, respeito e ética (entre muitos outros, senão mesmo todos) têm que ser considerados definitivamente como tendencialmente suicidas, pelo menos enquanto continuarmos a entregar o nosso futuro a psicopatas com tendências auto-destrutivas, só porque estes nos seleccionaram preferencialmente como seus pioneiros, para a execução voluntária das suas práticas de oportunidade interessadas e pessoais. O que se passava comigo era algo semelhante: talvez por obediência à mudança de planos do seu próprio autor, alguém reconstruíra um cenário já consolidado e pré-existente, não se preocupando minimamente com os actores a que já tinha dado vida – alterando completamente a distribuição dos adereços que os rodeavam e nos quais se identificavam – nem sequer com o esforço de todos os restantes colaboradores que o tinham criado e mantido em funcionamento. O meu delírio colocava-me nessa altura num espaço estranho e alienado da realidade, mas que não pertencendo nem ao mundo dos sonhos nem ao mundo das ilusões, me inseria agora num intervalo virtual, como se fosse uma dádiva (extra) aí graciosamente inserida, descartável tipo apêndice; e que em qualquer momento dispondo dum argumento rodeado de incertezas se poderia alterar ou mesmo inverter na sua totalidade. No fundo não queria acreditar no que me estava a acontecer e o meu mais profundo desejo era voltar a adormecer e voltar a acordar de novo. Mas a situação com que me deparava não se alterava por mero desejo ou intenção e lá continuava eu no interior daquele quarto no qual entrara na noite anterior vindo dum exterior vivido e conhecido, agora exposto a um mundo que se abria lá fora e com o qual não sentia nenhuma afinidade – só estranheza e receio. Aí o telefone, tocou deixando-me estático e ainda mal convencido (do que me estava a acontecer) a olhar fixamente para ele. Olhei mais uma vez à minha volta, confirmei a paisagem que se divisava para além da janela e dando uns passos inseguros levantei o auscultador: como se fosse uma molécula de água entre muitos outros milhões existentes e fazendo parte dum organismo agregador mais vasto e poderoso, caí subitamente num precipício escuro e profundo, que me colocou numa trajectória circular e concêntrica em direcção ao outro lado, no qual desapareci e reapareci, com uma sensação estranha vinda do exterior como se um sistema de forças actuasse sobre o meu corpo e o impulsionasse para outro ponto deste ou doutro lugar. Senti-me como uma massa de água inerte depositada num lavatório duma qualquer casa comum, que depois de retirada a tampa que a sustinha (separando-a do túnel de comunicação que lhe sucedia), era levada por uma corrente violenta e espiralada em direcção a um buraco que não nos puxando, apenas deixava exercer sobre ele a força da nossa massa transportando-nos para outras realidades paralelas e complementares. O Universo era o mesmo e a realidade uma parte dele.

 

Fim da 1.ª parte de 3

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 01:05

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