Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

23
Abr 12

Nação Valente e Imortal

António Lobo Antunes

Revista Visão

 

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos. Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.

O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade às vezes é hereditário, dúzias deles.

Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.

Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade. As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente.

Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente, indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos. Vale e Azevedo para os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão, já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.

Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos por, como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar de D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano.

Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos.

Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho. Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar. Abaixo o Bem-Estar. Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros.

Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.

Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos um aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.

 

Apanhados

Comentários de Leitores ao Artigo

Utilizando a Visão

 

(Favor?)

Este texto deve ter deixado a minoria esclarecida deste fórum em êxtase: então não é que o melhor escritor português da actualidade revela-se como denunciante das malfeitorias do Governo Sócrates à Pátria? Mais, junta à pandilha o maior vigarista luso vivo: o inacreditável Vale e Azevedo... Poucos repararam neste pormenor. Não há maior impropério nestas lides do que um deste quilate. Compreende-se assim a ausência de comentários contra e os poucos que apareceram são trémulos e assustados. Por outro lado, quem aprecia um bom argumentário político não deixará de sentir satisfeito pela substituição dos textos exemplares anteriores sobre quimeras psicológicas e situações do dia a dia vistas à luz de um génio por análise política. Parabéns.

 

(Favor?)

Continuamos á espera que D. sebastião volte num dia de nevoeiro para nos salvar , porque nos convenceram que temos o " FADO " como destino ......... Obrigada António por dares voz a uma consciencia coletiva que está amordaçada pelas teias de um sistema montado com base em conceitos totalmente perversos.

 

(Surpresa?)

Sem entrar em pormenores (embora em relação à maior parte até esteja de acordo), "isto" aqui é um ultra-super-hiper-"RAP". Nova faceta de "ALA", não? Parabéns! [Quem sou eu para dar os parabéns ao imenso escritor que é António Lobo Antunes, mas também como não os dar perante a surpresa que constitui esta crónica.]

 

(Contra?)

Nesta crónica, o autor esquece-se de Cavaco o nobre cavaleiro que nos levou à desgraça e ataca, mais uma vez a outra baixa gentalha das escritas, como se ele fosse o arauto "bobo" dos escribas maiores. No passado atacou Saramago, por quem nutre vil inveja, apenas própria dos menores, esquecendo-se sempre de a indústria Antunes é quem mais vende livros em Portugal, vá-se lá saber porquê! Tudo o resto é futuro, este amargo presente, a que o autor não dá nomes nem coelhos!

 

(Contra?)

Que lhe deu? Está assim tão zangado? Tornou-se assim tão cínico? Eu que buscava paz nas suas "escritas" de revista, fiquei triste. Já chega toda a imprensa com essas lamúrias mesmo cínicas. Não virei tão apressada procurar a sua próxima crónica. Fiquei triste. Quebrou o encantamento.

 

Sem comentário necessário

 

“Não faço comentários de quem não conheço, não quero conhecer, mas poderia conhecer. Sem problemas percorro qualquer caminho, desde que seja eu a transportar-me, mesmo que ao colo de outros”.

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 12:48

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