Um espelho que reflecte a vida, que passa por nós num segundo (espelho)

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Dez 14

Novos Ficheiros Secretos – Albufeira XXI
(Histórias do Outro Lado)

 

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Marte poderá ter assistido ao lançamento da vida na Terra

 

Ficamos como que hipnotizados com os deslumbrantes cenários subterrâneos que Marte nos apresentava e levados pelo encantamento das telas de realidade que se sobrepunham sucessivamente sobre o nosso olhar (constituindo no seu conjunto uma paisagem magnifica), deixamo-nos ficar fisicamente em relaxamento e reflexão celular, enquanto o nosso espírito agregado ao nosso sistema sensorial de resposta, ia vagueando por um nunca sugerido planeta Marte, agora percepcionado numa projecção talvez simulada mas já anteriormente adquirida num dos nossos diferentes níveis de consciência (o que serão os sonhos, senão uma imagem reprimida da realidade). Por momentos Esteves Macuin voltou de novo às suas últimas coordenadas terrestres e olhando pensativamente os seus dois companheiros de viagem, recordou-se sorrindo do que roubara no cofre: juntamente com muito dinheiro, acções, jóias, obras de arte e até artefactos por qualquer motivo valiosos financeira ou sentimentalmente, encontrara uma pequena caixa de madeira talhada e incrustada e exibindo na sua face superior um símbolo um pouco estranho (mas por outro lado tendo algo de familiar), que desde logo lhe despertara a atenção e que como que o obrigara a apropriar-se dele. Sentiu-o ainda no seu bolso e instintivamente pegou nele e tentou-o abrir.

 

De início não conseguiu descortinar maneira de abrir aquela caixa. Era notória a presença da linha que separava as duas partes da mesma (superior e inferior), mas não se conseguia ver nem o local da fechadura nem qualquer tipo de dobradiça. Já um pouco nervoso e agitado com a impossibilidade de a abrir, os seus movimentos sucessivos e a despropósito acabaram por afectar a concentração reflexiva e visual em que os seus dois companheiros ainda se encontravam, desligando-os da realidade que nesse momento estavam a partilhar e fazendo-os regressar ao mundo dos outros. Foi nesse preciso momento que eu e João Uaine o vimos a gesticular e a praguejar em direcção a um objecto que tinha na sua mão, enquanto Catarina EP Burne se aproximava na sua direcção na companhia de outra bela mulher. A sua chegada pareceu acalmá-lo. Falou um pouco com ele, tirou-lhe delicadamente a caixa da mão abrindo-a num segundo (e devolvendo-a de novo), enquanto apressadamente apresentava a sua companhia, ausentando-se de imediato e deixando-o na sua companhia. Esteves Macuin ficou então a olhar para a mulher que dava pelo nome de Sara Montiele e que Catarina EP Burne lhe apresentara como a donzela espanhola da história (que lhe contara anteriormente), ao mesmo tempo que interrompia por vezes a sua observação com um pequeno relance para o pequeno manuscrito dobrado que encontrara no interior da caixa. Vinha assinado e era-lhe dirigido.

 

Sara Montieli conhecera os familiares de Antero. A árvore genealógica deste cruzava-se com a sua e ia dar à de Esteves Macuin. Num outro Espaço já transformado e mergulhado nos intervalos de reutilização e distribuição existentes entre Universos, os diferentes momentos de diferentes conjuntos tinham-se cruzado e provocado algumas alterações significativas no processamento dos programas de criação, projectando ao mesmo nível diversas projecções e provocando o aparecimento de hologramas coincidentes no espaço mas apresentando diferentes estados de evolução. E o desenvolvimento deste processo acabara por provocar algumas lacunas e o aparecimento de pontos de ligação naturais entre momentos diferenciados. Daí a confusão genealógica e cronológica criada e contando com a presença de três diferentes gerações (da mesma família), neste caso tendo estas entrado inadvertidamente em contacto com originais ou réplicas por portas paralelas não projectadas (nem simuladas) e sem a necessária e obrigatória orientação. Certamente um erro devido a uma deficiente aplicação de software de transição entre memórias. Quem diria que o Antero era um familiar de Esteves Macuin, talvez um descendente de um irmão de seu pai ou avô e ainda por cima com ligações familiares indirectas a Espanha e à família de Sara Montiel. Ele e a mulher abraçaram-se fortemente, estreitando intimamente entre os seus corpos quentes e quase que colados um espaço intervalado por dezenas e dezenas de anos, mas que nunca pela distância ou pelo atrito provocado os tinha verdadeiramente separado – mesmo não sabendo eles da existência do outro. E já eram 11.00 e todo o plano fora ao ar. Abriu a folha dobrada do manuscrito e olhou para assinatura: alguém tinha escrito o manuscrito há já quase um século, assinando-o sob os nomes de Lúcia, Francisco e Jacinta. E logo no cabeçalho vinha o detalhe.

 

A 23 de Dezembro de 1918 Francisco e Jacinta adoeceram ao mesmo tempo. Indo visitá-los Lúcia encontrou Jacinta no auge da alegria. E aí Lúcia conta:

"Um dia mandou-me chamar: que fosse junto dela depressa. Lá fui correndo. – Nossa Senhora veio-nos ver e diz que vem buscar o Francisco muito breve para o Céu.” (Wikipedia)

 

E enquanto neste espaço o caos começava a fazer sentido, apesar de toda a nossa confusão temporal (por vício de abstracção e sua confusão com uma realidade virtual limitada – pelo tempo, uma constante e não uma variável), no Algarve a organizada e disciplinada Josefa Macarti voltava a aparecer. Só que Gregoriana, Jaime Dine e o cão Pecas não se encontravam felizmente em casa por essa nessa altura: tinham ido os dois acompanhados pelo cão jantar a casa dum velho amigo do pai de Gregoriana que já não viam havia muito tempo e que como sempre vinha com uma história extraordinária passada consigo, envolvendo um aspirador e uma viagem ao planeta Marte. Agora é que não poderiam perder a história e já agora aproveitarem e contarem a sua. Furiosa Josefa Macarti ainda deu uns fortes pontapés na porta e desapareceu de seguida.

 

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Uma paisagem marciana sugerindo algumas paisagens terrestres

 

Deslocaram-se os três em direcção a uma das portas existentes na sala, comunicando directamente com um dos vários portos ligando todos os diferentes níveis da base. Pela planta apresentada no monitor iriam fazer uma pequena deslocação até um ponto situado a sul da base, inicialmente em deslocação horizontal e subterrânea até uma estação intermédia, a partir da qual o veículo de transporte os levaria à superfície de Marte. Pelas indicações fornecidas por Sara Montieli seria um ponto onde estaria situado um dos vários complexos com contacto directo com a superfície, dedicado fundamentalmente a saídas esporádicas de controlo e vigilância a realizar ao ambiente marciano e agora dirigido também a algumas acções científicas e de estudo da evolução recente da atmosfera marciana. E pela maneira como ela nos transmitiu a informação assim como pelo sorriso de contentamento com que nos presenteou, provavelmente estaria na posse de alguma novidade para nós completamente desconhecida e que provavelmente nos iria surpreender. Fomos levados até um compartimente bastante amplo, a toda a sua volta rodeado por uma estrutura transparente semelhante a vidro mas extremamente resistente e que nos oferecia uma visão espectacular de toda a paisagem marciana que a rodeava: encontrávamo-nos numa pequena plataforma exterior suspensa sobre um dos lados de uma enorme cratera de Marte, observando à nossa frente a existência de movimentos incluindo seres vivos e máquinas ali colocadas e o que mais nos surpreendeu, verificando que alguns desses seres pareciam circular sem qualquer tipo de protecção no exterior marciano ou assim parecendo. Estávamos numa cratera situada a uma grande latitude de Marte e pelo movimento verificado, estruturas utilizadas e ainda pelas informações que nos chegavam, o local seria um posto de transição para a distribuição subterrânea de água as bases e seus módulos instalados no planeta. E ainda mais surpreendidos ficamos quando vimos estruturas muito semelhantes a estufas a serem deslocadas para o exterior da cratera para outros locais para nós desconhecidos do planeta, umas transportadas inicialmente por pequenas naves de carga e outras socorrendo-se ainda de túneis subterrâneos exclusivamente utilizados para transferências de material e bens essenciais. Parecia mesmo que estávamos efectivamente a viver um sonho apesar de tudo o que já tínhamos vivido. A colocação da minha questão seria imediata: poderíamos andar por ali como se estivéssemos no planeta Terra? E muito calmamente Sara Montiel disse que sim, mas que para já tal usufruto ainda não seria para nós: Marte tivera uma atmosfera respirável num passado já muito distante e perdera-a subitamente de uma forma violenta e esmagadora, mas o sentido de preservação do próprio planeta no seu enquadramento planetário, criara refúgios mínimos e capazes de sobrevivência, de modo a que pudessem num futuro próximo levar Marte a acelerar o seu novo processo de transformação e de evolução (de novo em direcção à sustentabilidade equilibrada do planeta. Permitindo a existência natural de vida indígena ou alienígena à sua superfície. O que no fundo já se passava em muitos espaços controlados como era o caso desta cratera, onde alguns terrestres e extraterrestres já se deslocavam por períodos ainda limitados, enquanto outros já o faziam sem limites. E então chegou Catarina EP Burne e graciosamente fomos convidados a dar um passeio por Marte.

 

O Manuscrito tinha sido redigido há pouco mais de vinte e quatro horas e ficado guardado sob responsabilidade do banco durante quase cem anos: intocável, selado e fechado no interior de uma caixa inviolável. Só possível de ser aberto no acto da devolução, seguindo o trajecto inverso de destinatário (Esteves Macuin) a remetente (Catarina EP Burne). Era-lhe dirigido e datado, apresentava-se de uma forma extremamente apressada na sua redacção e distribuía-se por três pequenos parágrafos directos e irreversíveis:

 

(1) Sob ordens de execução obrigatória oriundas de hierarquias superiores (com indicação de aplicação imediata) e contendo orientações extremamente precisas de coordenadas, tipo e forma de extracção, o ainda jovem Esteves Macuin fora raptado no ano de 1917 por extraterrestres (aproveitando a projecção no momento de um Evento de contacto e sugestão), sendo recolhido e salvaguardado como elemento último de substituição, num possível caso de extrema necessidade de restauro do sistema (regressando assim à situação anterior e evitando o indesejável reset como solução para o crash fatal). Com ele tinham vindo mais dois jovens (duas raparigas vindas do mesmo local e não como ele pensava de origens aleatórias), cumprindo expressamente o mesmo desígnio, mas por opção condicionados a serem recolocados em pontos do espaço diferenciados: assim o conflito espaço-tempo não se faria sentir, por adaptação do elemento extraído ao seu novo ponto de referência. Francisco morreria brevemente sendo necessário precaver desde já o futuro das outras duas crianças: de Jacinta e da futura intermediária Lúcia.

 

(2) Este momento que ele agora vivia fora uma sugestão de criação e oferta da autoria de um grande amigo comum e eminente pensador, filósofo e profeta, conhecido como um dos pioneiros do conhecimento e divulgação do papel fundamental da Energia na nossa vida e de todo o Universo e seu funcionamento num todo individual mas sucessivamente replicado, no caos ou de uma forma organizada. Esse amigo era Nicolau Testa e era louco por vibrações, frequências, energia e magnetismo. O truque das trocas cronológicas fora o que mais o divertira: a introdução do tempo na elaboração dos cálculos matemáticos pode levar a conclusões de impossibilidade de ocupação do mesmo espaço simultaneamente, apenas porque o interpretamos (o tempo) como um parâmetro real quando ele no fundo não passa de uma constante específica (unicamente relacionada e dirigida a uma razão entre duas ou mais massas em conflito). Quando se ocupa um determinado ponto do espaço, compartilhamo-lo com todas as nossas identidades sobrepostas – e que até poderão não coincidir com o mesmo Universo e depender das suas Cordas e Viobrações. O programa aplicado a Esteves Macuin era extraído de um jogo muito antigo e popular inspirado em remotas histórias de outras Terras semelhantes, em que todo o enredo andava à volta de um guerreiro solitário lutando contra as suas memórias passadas e ainda não totalmente resolvidas, como consequência dos devaneios humanos tendo como elemento filosófico e decisivo o tempo maldito, corruptor e provocador de lobotomia progressiva, mas sobretudo de indecisão espacial e de movimentos: a cura consistia em misturar o tempo e servi-lo a frio. O prazo de 24 horas era apenas uma precisão exclusivamente reflectida na pontuação: mas neste jogo o tempo (medido para todos os lados) só dava bónus.

 

(3) Esteves Macuin regressaria à sua base localizada na Lua dentro do prazo estipulado pelo jogo. Não sofreria qualquer tipo de penalização por erro do jogador, nem lhe seria debitado nenhum valor motivado por parâmetros abstractos. Precisamente à meia-noite do dia seguinte, vinte e quatro horas passadas sobre a sua partida, ele encontrar-se-ia de novo nas suas coordenadas habituais: mas agora contando com a presença daquelas duas miúdas que há quase cem anos, vislumbrara por momentos num voo da Terra para o Céu. Ali decidiriam em conjunto o seu caminho a percorrer, optando por aquele espaço que um dia tinham escolhido mas que ainda não sabiam qual. A vida era apenas um diferente nível energético e nós éramos aqueles simples electrões, saltando entre lacunas cada vez mais distantes mas potencialmente transformadoras: como quando saímos de casa e somente com a nossa presença, logo criamos um mundo novo.

 

E o restante relato não descrito por mim terminava deste modo e mesmo assim:

 

- Esteves Macuin deixou-se ficar, enquanto que as duas moças se deslocaram a Fátima em visita e peregrinação (com passagem prevista por Albufeira), com retorno irreversível e sem hesitação ao seu mundo incomparável do Céu e das Estrelas: é que ninguém pode negar a vida depois de a estar a viver. Mas antes foram celebrar aquele espaço por eles partilhado esquecendo o tempo mais uma vez e dando prioridade ao movimento e à evolução. Dos sentimentos e das percepções. Era quase meia-noite do dia 31 de Outubro, ainda ele não partira e já os três se entretinham entre degustações e prazeres.

 

Fim da 4.ª parte de 5

 

(imagens – Web)

publicado por Produções Anormais - Albufeira às 10:37

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